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Grupo IOX avança no crédito para PMEs e acirra disputa com bancos

Fabíola Gomes

Vicente Guimarães, Diretor de RI do Grupo IOX

O Grupo IOX está expandindo suas operações no crédito privado para pequenas e médias empresas (PMEs), após a recente aquisição da carteira de recebíveis da Via Capital, reforçando sua presença em Goiás e Minas Gerais e acirrando a disputa com os grandes bancos.

A gestora e estruturadora de crédito brasileira focada em pequenas e médias empresas espera atingir R$ 4 bilhões em patrimônio líquido já no primeiro semestre deste ano.

O movimento de expansão coincide com uma mudança estrutural no mercado de capitais brasileiro, que neste ano se consolidou como a principal fonte de recursos para o setor produtivo.

Pela primeira vez na história, o estoque de papéis do mercado de capitais, como debêntures, CRIs e FIDCs, atingiu R$ 2,7 trilhões, o equivalente a cerca de 23% do PIB, superando o financiamento via bancos para empresas.

Vicente Guimarães, diretor de RI do Grupo IOX, destaca que a oferta de crédito privado para o segmento conhecido como middle market, voltado para empresas com até R$ 500 milhões de faturamento anual, vem crescendo de forma sustentada na ordem de dois dígitos, cobrindo uma lacuna deixada pelos bancos que estão cada vez mais seletivos.

O grupo também está atento a oportunidades high yield neste segmento. O IOX está se preparando para oferecer crédito para a fabricante de brinquedos Estrela, que pediu recuperação judicial na semana passada.

Em conversa com a Capital Aberto, Guimarães falou sobre a trajetória do Grupo IOX, o crescimento do mercado de capitais no Brasil e as perspectivas para o setor, que deve continuar crescendo mesmo em meio ao cenário macroeconômico incerto neste ano. Confira a entrevista:

O mercado de crédito segue em expansão no Brasil avançando sobre espaços que deixaram de ser cobertos pelo tradicional crédito bancário. Diante deste cenário, o que motivou a aquisição da carteira de recebíveis da Via Capital?

A carteira da Via Capital representa apenas 15% da nossa carteira total, mas ela é voltada para o universo PME, com bastante atuação em Goiás e Belo Horizonte. Estas são praças onde o Grupo IOX tinha baixa penetração, além disso queríamos voltar a expandir nossa carteira no segmento PME.

O Grupo IOX tem uma longa história, que começou 24 anos atrás. É uma empresa controlada por Richard Ionescu, com sede em Sorocaba, no interior de São Paulo. Temos uma base na capital, na Avenida Faria Lima, e mais recente abrimos outra frente a partir da aquisição da carteira de recebíveis da Via Capital.

Lá atrás, no começo, o IOX era pequeno e bem pulverizado, mas com o tempo o negócio foi crescendo atendendo empresas maiores. Então, chegou a hora de pulverizar as operações novamente para trazer mais segurança e minimizar riscos para a nossa operação de securitização.

Não é só expandir, mas também pulverizar nossa carteira ainda mais. No dia que formalizamos o negócio, nós tínhamos 700 cedentes na carteira da FIDC para R$ 3,2 bilhões de patrimônio líquido. Lá na Via Capital, eles tinham 1.400 cedentes para R$ 400 milhões de carteira.

Qual é a razão deste avanço tão significativo nas operações no mercado de crédito privado, que fez o segmento superar o crédito bancário neste ano?

O endurecimento das condições de crédito nas instituições tradicionais, impulsionado pela seletividade bancária, abriu espaço para que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) deixassem de ser um nicho. O setor de fundos estruturados já ultrapassou a marca de R$ 800 bilhões em patrimônio líquido, e atraiu uma base de investidores que dobrou ao longo de 2025.

Até 2026 esse montante deve superar R$ 1 trilhão. A resolução para o gargalo de liquidez enfrentado pelas Pequenas e Médias Empresas (PMEs) tem sido a migração para estruturas de crédito privado que oferecem agilidade e customização. A utilização de fundos estruturados permite uma análise de risco mais granular, garantindo que o capital de giro chegue à ponta da cadeia mais rapidamente.

Quais os veículos que o Grupo IOX tem atualmente? O grupo tem acompanhado o crescimento das recuperações judiciais e extrajudiciais? Qual o impacto deste crescimento e o custo para que as empresas consigam crédito neste cenário? 

Nós temos o FIDC multicedente e multisacado na gestora Tercon, de R$ 1,9 bilhão. Temos um FIDC multicedente e multisacado fechado de um pouco mais de R$ 900 milhões lá na Ouro Preto.

O terceiro veículo, que começou em novembro, é o ESC Real (ou FIDC Real), que é um FIDC de garantia real (ou 'de tijolo'). Foi o primeiro FIDC que a gente estruturou com R$ 1 bilhão de reais de seed money, algo que nunca tínhamos feito antes. São sempre institucionais.

A subordinação é sempre com capital proprietário, e as cotas sêniores e mezanino são institucionais. Hoje, temos um pouco mais de 70 investidores institucionais aqui na casa. Todos os grandes nomes que você conhece no mercado estão aqui, ou a grande maioria.

A quarta tese tem a ver com a sua pergunta sobre RJ e Extrajudicial. Inclusive, é um veículo ao qual o nosso controlador tem dedicado boa parte do tempo dele. É um FIDC que se chama FIDC ESC Special NP (ou Special Distressed).

Este FIDC adquire basicamente precatórios estaduais, municipais e federais de todas as instâncias, processos trabalhistas e crédito estressado e não estressado (ou performing e non-performing).

Vou dar exemplos do que é esse crédito. Uma indústria devia e tinha crédito no Banco X, R$ 10 milhões de reais com garantia de uma fábrica própria avaliada em R$ 35 milhões. Se por algum motivo, a empresa deu default, a dívida foi provisionada, ficando 100% no balanço do banco.

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Nesse momento, esse ativo se torna elegível para o nosso tipo de FIDC. Aí, o Grupo IOX vai até o banco, negocia e compra esta dívida, chamadas de non-performing loans (NPLs), que já contam com garantia a um valor bem inferior.

Boa parte desses cedentes estão em RJs ou recuperação extrajudicial, como no caso da Brinquedos Estrela.

No caso da Estrela, o Grupo IOX vai oferecer o chamado debtor-in-possession (DIP), aquele empréstimo específico para empresas em recuperações judiciais?

A recuperação judicial da Estrela ainda está bem no começo. Temos R$ 17 milhões com garantia, e as demais dívidas são fiduciárias de brinquedo. O crédito do Grupo IOX é extraconcursal.

A RJ abrange pouco mais de R$ 100 milhões em dívida. A ideia é apoiá-los nessa fase, sim. De quanto eles vão precisar? Hoje, de largada, eu diria que seriam necessários pelo menos uns dois meses de faturamento, ou seja, cerca de R$ 50 milhões de reais.

A ideia não é apoiar a empresa na totalidade, mas temos interesse em apoiar uma grande parte. E quem for credor e tiver interesse, por exemplo, sendo aderente, pode entrar ao longo do processo para fazer essa participação.

Então, diante deste cenário, de aumento de recuperações e taxas de juros ainda elevadas, quais são as perspectivas para o mercado de crédito para o restante do ano?

Será um ano que parecerá vários anos dentro de um só. Ao chegarmos no final de 2026, teremos a impressão de que se passaram oito anos em apenas um, e todos estarão exaustos. Mas, por que isso acontece? Por conta dessas questões, há muita incerteza, insegurança e falta de previsibilidade, inclusive em função de questões políticas e os desdobramentos do Banco Master. Ou seja, há muita incerteza, muitos dados, muito jogo e muito interesse envolvidos.

Por outro lado, o que posso dizer é que para nós, que trabalhamos com crédito e securitização, há muitas oportunidades. É diferente dos bancos, que nessas horas “fecham a torneira”, seguram o caixa e não liberam recursos. Nós não agimos assim; nós avaliamos caso a caso.

O ano eleitoral exige muita cautela, é um período mais instável, mas não estou levando o debate para o lado político. É apenas um cenário que pede cuidado. Ainda assim, há muita oportunidade na mesa de crédito.

Quando olhamos para o mercado de FIDCs multicedente e multisacado, os dados da ANBIMA mostram que a posição em março era de R$ 80 bilhões para 367 FIDCs ativos. Houve uma captação líquida negativa de R$ 277 milhões no primeiro trimestre, comparado ao primeiro trimestre de 2025.

Esse já é um reflexo claro do ano eleitoral. É um ano em que o vencido aumentou, chegando a 9,6% na indústria de FIDCs em março. A PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) também subiu, reportando 8,5% no mesmo mês para o setor de multicedente e multisacado.

Por que isso acontece? 

Porque, da mesma forma que entramos no curto prazo e sentimos o pulso da empresa (algo que os bancos não conseguem fazer), nós operamos com muitas garantias. Em uma eventual execução, nós acionamos e executamos essas garantias, conseguindo recuperar o valor.

Em tese, tenho um vencido maior e uma PDD menor do que o mercado de multicedente e multisacado. Em relação aos bancos, nem se fala, a nossa PDD é bem menor. Conseguimos recuperar o capital por meio de garantias e negociações.

Quando analisamos o Sistema Financeiro Nacional e os bancos, focando na nossa parcela de multicedente e multisacado do mercado de middle market, vemos que o relatório de crédito do Banco Central de março apontou um crescimento de 1,2% nos bancos.

Portanto, os bancos cresceram 1,2% na linha de ativos de crédito, enquanto nós, no segmento de multicedente e multisacado, crescemos 10,6%. E isso não aconteceu apenas este mês, mesmo com a captação líquida negativa de R$ 277 milhões no trimestre. Esse é um movimento recorrente que vem acontecendo há muitos anos.

Desde quando esta indústria vem crescendo no Brasil? Como se compara a outros países? 

Os primeiros FIDCs começaram a aparecer entre 2001 e 2002. Em 2005, o mercado já tinha uma relevância razoável aqui no Brasil. O negócio ganhou tração por volta de 2011 e 2012, quando já representava cerca de 7% do setor.

De lá para cá, o mercado só se desenvolveu, amadureceu, criou musculatura, ganhou robustez e continua crescendo. Um reflexo disso é o exemplo que dei: em que pese a captação líquida ter sido negativa no primeiro trimestre deste ano, a nossa parcela de securitização teve um crescimento expressivo de 10% no período.

Quando olhamos para o mercado norte-americano ou para o mercado mexicano, vemos como funciona essa divisão. Nos Estados Unidos, por exemplo, o crédito é dividido exatamente metade para os bancos e metade para as forças alternativas de crédito, que lá eles chamam de direct lending.

Esse mercado de direct lending no exterior faz a cobertura do que seriam, aqui no Brasil, as securitizadoras, os FIIs, os FIDCs e os outros veículos de fundos de crédito. Juntos, esses quatro veículos equivalem ao direct lending americano, que é um mercado gigante de quase US$ 4 trilhões de dólares.

Aqui no Brasil, nós temos hoje uma fatia de 31% desse mercado, sendo que o FIDIC multissacado representa sozinho 31,2% dessa parcela de crédito voltada para o middle market.


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