Após COP 30, greenwashing volta à pauta e IFRS S1 e S2 ganham papel fundamental
Nos últimos meses, em especial em novembro, a pauta ambiental voltou aos holofotes com a chegada da tão aguardada Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP 30) e, com ela, o tema de greenwashing, prática de “maquiar” a imagem de uma empresa ou produto se apoderando de valores ambientalistas. A “Pesquisa Global de Relatórios e Investidores Institucionais” mais recente da EY aponta que aproximadamente 85% dos investidores consultados veem no greenwashing um problema cada vez mais grave — no entanto, 93% parecem confiantes de que as empresas cumprirão suas metas de sustentabilidade. Com relatórios de sustentabilidade como IFRS S1 e S2, tropicalizadas para CBPS 01 e 02 no Brasil, o tema ganha mais relevância e, inclusive, mais segurança ao trazer materialidade para a pauta ambiental, avaliam especialistas.
Reinaldo Oliari, coordenador do GT de Sustentabilidade e ESG do Ibracon, destaca que, com a aprovação de normas internacionais de relatório financeiro de sustentabilidade tanto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) quanto pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), muitas empresas revisitaram seus relatórios de sustentabilidade e removeram divulgações que poderiam ser caracterizadas como greenwashing.
Além disso, a mídia também teve um papel importante, expondo em diversas notícias de questionamento de investidores e reguladores, como o caso recente da Gol, que nas últimas semanas foi acionada judicialmente pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) por induzir clientes ao erro com a propaganda "Meu voo compensa", tratando da suposta compensação de emissões poluentes.
Para a EY, é possível observar a prática de greenwashing perdendo espaço no mercado brasileiro e, de fato, diminuindo em termos relativos. Hoje, a quantidade de empresas que divulgam dados é maior, o que amplia a base de comparação, no entanto, essa redução proporcional ainda perceptível. “Isso ocorre principalmente por dois motivos. De um lado, os investidores estão cada vez mais letrados em temas de sustentabilidade, o que dificulta que práticas de greenwashing passem despercebidas; de outro, as empresas vêm reportando informações seguindo regras mais específicas e rigorosas, o que facilita identificar aquelas que divulgam dados sem comprovação adequada”, diz Ricardo Assumpção, sócio-líder de Sustentabilidade e CSO LATAM da EY.

O executivo do Ibracon tem leitura similar. Segundo Oliari, “neste processo de estruturar os relatórios com foco em investires e provedores de capital, muitas empresas revisitaram seus processos e avaliação de riscos antes da divulgação de declarações, além de outros compromissos sociais que não eram atingíveis ou não tinham qualquer horizonte de tempo em quando e como tais metas seriam comprimidas, indicando um amadurecimento no mercado”.
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As normas foram estruturadas para padronizar as diretrizes do relatório financeiro de sustentabilidade e, principalmente, conectar essas informações com as demonstrações financeiras, exigindo critérios claros de materialidade financeira e detalhamento de metodologias e premissas utilizadas. Desta forma, a norma requer uma estrutura de governança mais robusta e transparência, além da exigência de asseguração razoável realizada pelo auditor independente, de maneira a trazer mais segurança ao mercado e frear práticas antiéticas e criminosas. “E tem todo arcabouço regulatório de proteção aos usuários destes relatórios com sanções, multas e outras penalidades faz com que a combinação destes fatores a coíbam o risco de greenwashing”, destaca Oliari.
Agora, as empresas serão obrigadas a ter uma contabilidade estruturada sobre seus dados de sustentabilidade e clima, incluindo os impactos que esses fatores geram nos balanços corporativos. “Assim como ocorre na contabilidade financeira, essa prática reduz significativamente a possibilidade de fraudes e inconsistências, e já começamos a observar esse efeito também nos relatórios de sustentabilidade”, aponta Assumpção, da EY, acrescentando que, com isso, especialmente as empresas de capital aberto conseguem demonstrar de maneira mais clara como suas ações impactam seus resultados financeiros e quais são os temas materiais que precisam ser endereçados. “Embora a obrigatoriedade esteja prevista para 2026, há um trabalho prévio essencial.”
Esta é a fase final antes de as normas IFRS S1 e S2 se tornarem obrigatórias. Mas enquanto cresce a pressão global por esses compromissos ambientais verificáveis, grande parte das empresas brasileiras ainda enfrenta desafios para produzir relatórios de sustentabilidade consistentes, conectados com as demonstrações financeiras, comparáveis e assegurados.
Neste período de adoção voluntária, apenas duas empresas se prontificaram. Para Oliari, considerando que a norma é recente, o pioneirismo do Brasil, a falta de benchmarks para que as empresas possam se basear, além da mudança do arcabouço regulatório mais rigoroso para coibir o greenwashing, são os principais fatores que não estimularam uma grande adesão voluntária. “Diversas empresas com as quais temos contato têm se antecipado e trabalharam em minutas dos relatórios e estão avaliando em suas governanças se irão apresentar o relatório no período voluntário e aproveitar os reliefs”, diz o coordenador do GT de Sustentabilidade e ESG.
Ainda que apenas duas empresas tenham se manifestado publicamente, os especialistas dizem haver quem esteja se movimentando internamente. A própria EY afirma estar apoiando diversas empresas no mercado, incluindo aquelas que optaram por divulgar suas informações de forma antecipada.
O que falta no mercado para essa adoção, na visão de Oliari, é que as empresas invistam em sua capacitação de governança e nos profissionais envolvidos na elaboração do relatório, fatores-chave no sucesso da conformidade da divulgação e na estruturação dos controles internos da organização. Já o custo é uma premissa relativa e, por vezes, até “pouco significativa” em relação a outros investimentos em governança, como os conselhos, e ao EBITDA dessas companhias, na avaliação do executivo do Ibracon.
Já na EY, a leitura é que o mercado precisa compreender que “sustentabilidade não se limita ao cumprimento de requisitos de compliance ou à licença social para operar”. “Ao adotar uma agenda mais robusta de sustentabilidade, as empresas conquistam uma diferenciação relevante no mercado, diretamente ligada à sua competitividade”, conclui Assumpção.


