O Conselheiro Minimamente Viável

Em 1983, meu pai me deu meu primeiro computadorzinho: um TK-2000. Eu tinha 15 anos. Foi também a primeira vez que ouvi falar de Inteligência Artificial.
Tornei-me um curioso. Em 1999, lendo livros de Ray Kurzweil, vi pela primeira vez algo que parecia IA acontecendo diante dos meus olhos. O livro trazia imagens geradas sinteticamente pelo AARON, um tipo de sistema de inteligência artificial. No novo livro sobre Dario Amodei, fundador da Anthropic, The Scaling Curve, ele conta que aquele mesmo livro mudou sua vida. Veja só: mudou a minha também.
Bem, ele criou uma empresa com ARR estimado em US$ 50 bilhões. Eu sigo muito orgulhoso com o pouco que ajudei a criar.
Em 2016, eu vivia um sabático em Austin, no Texas, quando decidi voltar ao Brasil para me engajar em um projeto ainda pequeno, mas muito interessante, que estava nascendo: a StartSe.
Há 10 anos, no primeiro encontro da StartSe, falamos sobre IA. Mas era outra época. O Brasil ainda estava descobrindo o que era uma startup, um unicórnio, Venture Capital, pivot e MVP — Minimum Viable Product. Este último talvez seja um dos modelos mentais mais importantes da mentalidade inovadora: a ideia de que, para construir algo lindo e grande, é preciso começar com algo imperfeito e pequeno.
Foi ali que entendi: inovação é ciência de aprendizagem.

Em 2021, fui coautor de Organizações Infinitas, um livro de negócios que busca trazer o valor da perpetuidade — ou da infinitude — para o centro da estratégia. De forma contraintuitiva, o livro defende que mirar longe ajuda a gerar muito caixa agora.
O livro também ficou conhecido por ser, até onde sabemos, o primeiro do mundo a ter seu prefácio escrito pelo GPT. Levou quase dois anos para o mundo conhecer aquilo pelo nome que o tornaria famoso: ChatGPT.
Tenho a sensação, depois de mais de 40 anos, de que aquilo que aquele “eu menino” imaginou aos 15 anos está acontecendo agora.
O que tenho visto e vivido, do Vale do Silício à China, dos diversos cantos do mundo aos boards e ELTs do Brasil, me deixa profundamente intrigado. Apesar de todas as incertezas, sinto-me um ser privilegiado por ter vivido, e estar vivendo, tudo isso.
Há pouco tempo, entendi que precisava contar às pessoas o que fui aprendendo sobre essa enorme convergência tecnológica que apelidamos de IA. E também por que é urgente e importante revisitarmos nossas carreiras.
O livro Inteligência Artificial e o Novo Profissional Minimamente Viável é minha tentativa de ajudar as pessoas a não se perderem em conversas apocalípticas, rasas ou excessivamente técnicas, e a mergulharem no que, acredito, realmente faz diferença.
O apelido do livro é MAIVP.com, um trocadilho com a ideia de MVP. É um conceito ambíguo de propósito: ao mesmo tempo que menos que o mínimo tende a zero, este também permite que você alcance vôos longos e cause muito impacto.
“Vivendo próximo a empresários, executivos e lideranças de uma maneira geral, aprendi que, geralmente, eles não gostam de gastar tempo e dinheiro com coisas que não entendem. Mesmo assim, sentem-se cobrados a dar opinião certeira. Some a isso o fato de que o mundo de tecnologia tem um problema histórico de não se comunicar bem, e você entende por que a conversa sobre IA tem patinado.”
Muitos profissionais experientes e bem-sucedidos ainda desdenham, desqualificam ou se distraem com IA. E aqui mora o maior de todos os riscos.
IA não é um problema de TI. Embora, para TI, ela seja um mundo de problemas.
IA também não é apenas “uma ferramenta”.
IA é um desafio para todas as lideranças.
IA é um dever pessoal e profissional de todos.
IA é accountability do board.
As organizações demandam, urgentemente, de Conselheiros Minimamente Viáveis para a Era da IA. Meu conselho? Não procrastine.
Cristiano Kruel CIO da StartSe, é empreendedor, speaker e mentor que há mais de 30 anos investiga e pratica a inovação nas suas diversas perspectivas e é autor de “Organizações Infinitas” e “IA e o Novo Profissional Minimamente Viável (MAIVP.com)