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Blended Finance – o caminho para a transição climática no Brasil

Natalie Sequerra

Nos últimos anos, o mercado desenvolveu uma boa variedade de instrumentos para financiar a transição climática. No campo da renda fixa, destacam-se os títulos verdes. São exemplos os green bonds, sustainability-linked bonds, debêntures incentivadas e de infraestrutura. Somam-se a esses instrumentos mecanismos de garantia, como garantias de crédito parciais, fundos garantidores e seguros de risco, além de estruturas de first-loss, em que uma camada subordinada de capital público ou filantrópico absorve as primeiras perdas da carteira e reduz o risco para investidores privados. No agronegócio, os  FIAGROs, em certos casos, e a emissão de títulos de crédito rotulados, como a CPR Verde, têm viabilizado a alocação em atividades de impacto climático significativo.

Ainda assim, o volume mobilizado permanece muito aquém das necessidades globais. Como mostram Flammer e de Mariz no estudo SIRI Blended Finance – Case Studies Brazil (2025), o financiamento climático mundial está na casa de USD 653 bilhões por ano, ainda insuficiente para preencher a lacuna superior a USD 200 bilhões anuais necessária para manter o mundo alinhado ao Acordo de Paris.

É nesse contexto que o blended finance deve se consolidar como uma peça central ao combinar capital público, filantrópico ou concessionário com investimento privado, utilizando instrumentos como garantias, tranches subordinadas, hedge cambial e facilidades de liquidez para ajustar o perfil de risco-retorno. Essa estrutura transforma projetos classificados como “não financiáveis” em oportunidades investíveis, especialmente em setores como restauração florestal, agricultura regenerativa, bioeconomia e adaptação.

O mecanismo opera por meio de arranjos de engenharia financeira que redistribuem riscos ao longo da capital stack: o capital público absorve parte das primeiras perdas, o capital filantrópico funciona como amortecedor adicional e o capital privado ingressa com maior segurança e retorno ajustado. Essa redistribuição de risco é o que torna possível mobilizar investidores institucionais, fundos de private equity, gestores de venture capital e até bancos tradicionais para setores que, isoladamente, não atenderiam a seus critérios de risco.

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Ao longo da última década, o número de projetos de blended finance e o volume das transações vêm crescendo rapidamente. De acordo com relatório produzido em 2025 pelo instituto Convergence – Blended Finance Global Network, o volume global de transações de blended finance atingiu o valor de USD 11,5 bilhões no ano de 2020, enquanto, em 2024, tal valor achegou a USD 18,3 bilhões. A América Latina e o Caribe representaram em 2023 e 2024, respectivamente, 20% e 17% do número de projetos de blended finance implementados.

No Brasil, vale mencionar o Eco Invest Brasil, regulamentado pelo Ministério da Fazenda. A Comissão de Valores Mobiliários também sinalizou atenção ao tema em seu Plano de Ação em Finanças Sustentáveis para o biênio de 2025-2026.

O Brasil precisará enfrentar um ponto incômodo: a lógica atual de investimento não entrega o volume, a velocidade ou o apetite de risco que a agenda climática exige. Isso também requer um movimento complementar: criar um ambiente regulatório, financeiro e institucional capaz de atrair capital estrangeiro em escala, oferecendo previsibilidade e mitigação de riscos. Se o país conseguir alinhar esses elementos, o blended finance pode se consolidar como base de financiamento para a transição. É essa a virada de chave, talvez mais cultural do que técnica.

Natalie Sequerra é especialista em Direito Societário e M&A, sócia do escritório Graça Couto Advogados


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