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Bitcoin cai 50%: o que explica a queda?

Theo Mothe

O bitcoin chegou a recuar mais de 50% desde o topo histórico de US$ 126 mil, alcançado em outubro de 2025. Em 2026, acumula perdas superiores a 20%, figurando entre os ativos de pior desempenho no ano, na contramão dos metais preciosos e de índices como o S&P 500 e o Ibovespa. Embora a volatilidade seja inerente ao ativo, quedas dessa magnitude seguem afastando potenciais investidores.

Diversas hipóteses foram aventadas para explicar o movimento, como suposta ausência de regulação, relação com os chamados “Epstein Files” e riscos ligados à computação quântica.

A tese envolvendo Jeffrey Epstein não se sustenta. Documentos mencionam investimentos indiretos no setor a partir de 2014, inclusive em companhias como a corretora Coinbase, mas não há qualquer evidência de participação no desenvolvimento da rede ou vínculo com Satoshi Nakamoto.

O mesmo se aplica ao argumento de “insegurança regulatória”. Apesar de lacunas pontuais, o arcabouço atual é substancialmente mais robusto do que em ciclos anteriores, e a correção recente não foi acompanhada por um evento sistêmico como a quebra da FTX, que, em 2022, era a segunda maior corretora em operação.

A regulação prudencial de Basiléia, que entrou em vigor este ano, apesar de restritiva – ao impor elevado peso de risco à exposição bancária a ativos digitais – tampouco parece, por si só, suficiente para justificar a queda. A medida tende a produzir impacto limitado sobre a capitalização do mercado, pois a parcela de bancos com exposições relevantes em balanço é reduzida e tende a permanecer assim. O setor bancário, por natureza, adota alocações conservadoras e historicamente mantém cautela em relação a essa classe de ativos.

Já a computação quântica — frequentemente apontada como ameaça à criptografia — segue preocupando parte do mercado. Trata-se, contudo, de tema recorrente, e não de um risco novo deste ciclo. O debate sobre seus impactos no bitcoin já se arrasta há anos, com análises técnicas e contrapontos consistentes, os quais merecem artigo próprio.

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O que parece sustentar o último recuo do bitcoin é uma tese esotérica, porém considerada defasada: a dos ciclos. Com a entrada de investidores institucionais, correlação com eventos macro, ETFs à vista, formação de reservas estratégicas e maior amadurecimento do mercado, tal tese vinha perdendo força.

Por uma razão matemática, a redução periódica da recompensa dos mineradores tende a se tornar cada vez menos relevante para a formação de preços. Como o halving é o principal motor da tese dos ciclos, tal dinâmica parecia reforçar a percepção geral do seu enfraquecimento.

Tendo encontrado muitos partidários no meio cripto, a “contratese” dos ciclos ganhava força até o início da correção. Entretanto, as semelhanças com ciclos anteriores são impressionantes e inegáveis, reforçando a persistência de um padrão que se estende desde a criação do bitcoin.

A começar pelo intervalo de quatro anos — entre o início do último mercado de baixa e o novo topo —, observa-se que o pico foi alcançado 535 dias após o halving. Nos ciclos de 2020 e 2016, a mesma marca ocorreu após 528 e 527 dias — isto é, sempre entre 12 e 18 meses desde o halving.

A correção relevante — que não era esperada diante da entrada de investidores institucionais e da atual fase do mercado — acabou se concretizando. O amadurecimento, contudo, ajudou a limitar o drawdown: até agora, a maior queda foi de 52,4%, bem inferior às retrações de até 90% observadas em ciclos anteriores. Ao menos por enquanto, os ciclos permanecem, apesar do amadurecimento.

Theo Mothe é advogado especializado em direito societário, com atuação no escritório Chediak e Cristofaro Advogados/RJ


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