A evolução do conceito de stakeholders para careholders: uma nova consciência para os negócios do século XXI
Nas últimas décadas, as organizações vêm revisitando suas relações com os stakeholders — clientes, colaboradores, fornecedores, acionistas, comunidades — sob o impacto de profundas transformações sociais, ambientais e culturais. A lógica tradicional, que os enxergava como atores a serem gerenciados, gradualmente se mostrou insuficiente diante da complexidade dos desafios contemporâneos. Em um mundo interconectado, marcado pela emergência climática, pelo acirramento cada vez maior de desigualdades e pela urgência ética, a pergunta que se impõe é: quem realmente importa para as empresas — e de que modo elas devem se relacionar com esses públicos? E, em outra perspectiva: como esses públicos desejam contribuir entre si e com as empresas para que esta relação seja de ganha-ganha?
Durante muito tempo, a noção de stakeholders foi associada à necessidade de equilibrar interesses diversos, buscando conciliar performance econômica e responsabilidade social corporativa. Essa evolução foi importante, pois deslocou a atenção da empresa centrada apenas no acionista para um ecossistema mais amplo. Ainda assim, essa visão permanece limitada. Ela tende a incluir apenas aqueles grupos que têm poder de influência, voz ativa ou relevância estratégica perceptível. Em outras palavras, tem-se visto que na prática: considera-se stakeholder quem pode impactar a organização — não necessariamente quem é impactado por ela.
Essa lacuna revela um ponto cego no modelo tradicional: como por exemplo o esquecimento dos noholders — aqueles que, embora afetados, não têm espaço nem visibilidade nas decisões corporativas. São populações vulneráveis, minorias invisibilizadas e que estão fora da força de trabalho formal, comunidades distantes dos centros de poder e até as gerações futuras. Invisíveis no radar estratégico, esses grupos sofrem diretamente as consequências de operações empresariais, mas sem qualquer possibilidade de participação ou contestação. O sistema econômico dominante, voltado para a maximização do lucro no curto prazo, raramente reconhece esses atores como parte legítima do processo.
Organizações que agem sem considerar os impactos de suas decisões sobre esses públicos acabam minando sua legitimidade e corroendo sua reputação. A perda de confiança social pode ser tão danosa quanto uma crise financeira — e, muitas vezes, mais duradoura. Surge então a necessidade de um novo olhar, que vá além da lógica de gestão de partes interessadas e avance em direção a uma ética do cuidado e da corresponsabilidade.
É nesse ponto que emerge o conceito de careholders — uma proposta oriunda da evolução para um sistema de Governança Regenerativa. Em vez de tratar os públicos como “interessados” que competem por fatias de valor (stake), a visão dos careholders convida as organizações a reconhecerem todos os seres — humanos e não humanos — como participantes interdependentes de um mesmo sistema vivo. Não se trata mais de gerir relacionamentos estratégicos, mas de cultivar relações de cuidado mútuo, pautadas na empatia, no respeito e na regeneração.

PUBLICIDADE
O conceito de careholders envolve, portanto, uma parceria entre todas as partes interessadas para um propósito maior: a preservação da vida e a continuidade dos ecossistemas que sustentam as atividades humanas e econômicas. Nesse modelo, o cuidado deixa de ser apenas uma diretriz moral e se torna um princípio organizador das decisões empresariais. Cada ação — da escolha de fornecedores ao design de produtos, da política de gestão de pessoas ao investimento em inovação — deve considerar o impacto sobre o tecido social e ambiental do qual a empresa faz parte.
Um exemplo emblemático é o da Patagonia, empresa que há décadas adota práticas alinhadas à lógica dos careholders. Sua missão ultrapassa o discurso de sustentabilidade para incorporar uma ética de cuidado com o planeta e com as comunidades que dele dependem. Ao incentivar clientes a consertar roupas em vez de comprar novas, a Patagonia questiona o próprio modelo de consumo e assume um papel ativo na regeneração dos ecossistemas. Ela não se limita a reduzir danos — busca restituir equilíbrio e inspirar uma nova mentalidade empresarial.
Adotar a perspectiva dos careholders implica reconhecer que o valor de uma organização não se mede apenas por indicadores financeiros, mas também por sua capacidade de gerar valor a longo prazo e de contribuir para a saúde do sistema em que está inserida. É um deslocamento profundo: do extrair para o restaurar/regenerar, do competir para o cooperar, do gerenciar para o cuidar. Significa compreender que prosperidade empresarial e bem-estar coletivo são dimensões inseparáveis.
A Governança Regenerativa propõe exatamente isso — um paradigma em que as organizações atuam como organismos vivos, comprometidos com a regeneração de capital social, natural e humano. Sob essa ótica, os careholders tornam-se o centro de um novo pacto entre economia e vida. Um pacto que reconhece que nenhuma empresa prospera em um planeta doente ou em uma sociedade fragmentada.
O futuro dos negócios passa, inevitavelmente, por essa reconexão. As organizações que compreenderem o poder transformador do cuidado não apenas sobreviverão aos novos tempos — serão protagonistas de um modelo mais justo, empático e sustentável. Cuidar dos careholders é, em última instância, cuidar da própria continuidade da empresa, da sociedade e do planeta que habitamos.
* Gabriela Blanchet é fundadora do Blanchet Advogados, atua em órgãos de governança no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), no CEBDS (braço do World Business Council for Sustainable Development no Brasil) e lidera o comitê de líderes pelo clima do capítulo brasileiro da iniciativa governança climática fundada pelo Fórum Econômico Mundial (Climate Governance Initiative).
Leia também: Mercado Brasileiro de Criptomoedas: Estrutura Legal e Perspectivas Regulatórias


