IA nas alturas – a Inteligência Artificial já subiu as escadas da alta administração nas empresas ?
Antigamente, quando falávamos em inteligência artificial, a imagem que vinha à cabeça era uma sala escura, com vários monitores de computador mostrando códigos ininteligíveis a perder de vista, operados por alguma pessoa em um estereótipo de hacker em aplicações muito distantes do mundo real.
Contudo, o advento do ChatGPT, lançado em 2022, mudou significativamente a regra do jogo. Uma tecnologia existente há décadas – sim, as origens da IA remetem aos anos 50 – finalmente estava embarcada em um software no qual a maior parte da população poderia ver, de fato, ela funcionando. Surgia a mais icônica aplicação daquilo que chamamos de IA Generativa, ou seja, uma ferramenta de IA capaz de gerar conteúdo. “Criar coisas”, em linguagem mais simples.
Muitos acham que o lançamento da IA Generativa como conhecemos hoje foi brusco. No entanto, ela trouxe em sua bagagem anos de pesquisas e evolução em aspectos como sofisticação dos algoritmos, linguagem natural, capacidade computacional e outros termos que, a princípio, nos levariam àquela imagem ilustrada no início deste texto. O que importa saber, no fim do dia, é que até chegarmos nesse ponto precisamos de décadas de avanços para a tecnologia se tornar viável. Desde então, porém, tudo cresceu em um ritmo exponencial.
Estamos em 2025. Três anos após o lançamento do ChatGPT em sua primeira versão pública. Hoje, quase toda grande empresa de tecnologia desenvolveu seus modelos de linguagem, surgem aplicações diariamente e as anteriores são atualizadas em velocidades cada vez mais rápidas. A grande mudança, no entanto, não está no campo da tecnologia. Finalmente, estamos presenciando a IA se tornar fundamental à estratégia de qualquer empresa, de qualquer indústria. Inclusive das mais tradicionais.
Um grande exemplo é o mercado jurídico, tradicionalmente tido como um dos mais resistentes à mudança. “Eu uso o GPT, no mínimo, cinco vezes por dia para questões pessoais e, não espalhem isso, também profissionais” – disse em um evento o sócio de um grande escritório de advocacia brasileiro. A manifestação desse advogado, contudo, não é isolada. Basta conversar com membros de bancas de todos os portes e, certamente, todos dirão que estão ao menos testando alguma ferramenta em seus ambientes de trabalho.
Em uma das inúmeras experiências pessoais que o autor desse texto teve, foi possível presenciar, em um grande evento do setor jurídico que ocorreu no mês de junho, em Londres, uma plateia em que, a cada três pessoas, uma utilizava um aparelho que transcrevia e resumia o que era apresentado. “Ninguém mais anota nada por aqui” – explicou um dos entusiastas.
Esses são apenas alguns exemplos que mostram a confiança que temos na IA hoje, mesmo em setores mais tradicionais. O objetivo desse artigo, entretanto, não é abordar questões como cuidados profissionais, valor/preço das tecnologias ou outros aspectos corriqueiros. A intenção aqui é entender como, e se, a IA já foi percebida como estratégica nas organizações.
Nesse sentido, temos um imenso desafio. Recentemente, um estudo do MIT trouxe um dado preocupante: 95% dos projetos de IA nas organizações sequer saíram de uma fase “piloto”. Isso significa, simplificando, que os testes não têm gerado um resultado tangível a ponto de se tornarem tecnologias escaladas entre diferentes níveis das empresas. Ou seja: embora o valor da IA seja reconhecido, corporações ainda lutam para extrair seu principal valor.

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A mesma pesquisa conclui, entre outras ideias, que a tecnologia ainda é muito útil para resolver questões de produtividade individual, mas com impacto ainda limitado nos resultados financeiros das organizações. É algo preocupante? Claro. Mas é perfeitamente compreensível para o atual estado de desenvolvimento da tecnologia.
Afinal, como se afirma amplamente nesse mercado, ainda falta o que chamamos de “letramento”. Um termo complicado que, importado das discussões sobre IA do exterior, busca sintetizar uma questão bem relevante: boa parte das pessoas quer usar a tecnologia, mas ainda não tem conhecimento amplo sobre ela.
Isso é explicado por diversos fatores. Porém, talvez o mais relevante seja o que trouxemos no início desse texto: é muito difícil acompanhar o ritmo da evolução tecnológica. Assim, a ânsia pelo uso rápido acaba atropelando o estudo e o entendimento sobre como as ferramentas, de fato, funcionam. Isso, por sua vez, tem reflexo direto na percepção da tecnologia pelas empresas.
Afinal, diferentes níveis de senioridade exigem diferentes graus de entendimento: diretores precisam conhecer impactos estratégicos, enquanto analistas devem dominar o uso operacional, por exemplo. E a grande pergunta que fica é: os níveis decisórios das organizações têm se preparado para essa mudança?
Nos últimos meses, temos visto alguns movimentos nesse sentido. Não são raras as empresas que hoje já possuem uma área de IA, ou até um específico “AI Board”, formado por entusiastas do tema. Mas isso, enfim, não basta. O que importa saber é quando essas discussões serão de fato presentes nos conselhos e fóruns que efetivamente tomam decisões.
Sobre isso, os dados ainda são esparsos. Contudo, é perfeitamente possível argumentar em favor de sua necessidade. Com uma tecnologia que abre passos largos de desenvolvimento e é tão presente na sociedade atual, é difícil aceitar que os membros de órgãos administrativos nas corporações a ignorem. Não estou defendendo que precisamos todos nos tornar experts em IA, porém é fundamental que nos tornemos experts em como a IA nos afeta e como ela pode afetar nossos negócios.
Trata-se, enfim, de cada um saber exatamente o que precisa saber sobre a IA, de acordo com o seu trabalho e o seu cargo. A boa notícia é que já há quem ofereça treinamentos, cursos, estudos e até mesmo atue ajudando empresas diretamente a tomar decisões estratégicas sobre essa tecnologia, como um verdadeiro “conselheiro externo”.
Se a pergunta é se a IA já subiu as escadas da alta administração, a resposta é que ela já está no patamar, batendo à porta. Cabe a conselheiros e executivos decidirem se vão abrir agora, com estratégia, governança e capacitação, ou se permitirão que a tecnologia entre sozinha e imponha seu ritmo. Quem escolher o primeiro caminho converterá curiosidade em vantagem competitiva; quem optar pelo segundo aprenderá do jeito mais caro. O tempo de experimentar sem direção passou. É hora de decidir.
Victor Cabral Fonseca: diretor da Prática de Transformação Digital e Inteligência Artificial da FTI Consulting
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