Estruturas híbridas de redes ajudam a reduzir custos da tokenização
O advento de novas tecnologias está cada vez mais ligado ao mercado de capitais e sua evolução. As blockchains, antes pouco conhecidas, além de ganharem mais espaço, agora também ganham diversas variações, com a criação de redes mais novas e baratas, e geram, na teoria, mais acessibilidade a títulos mais complexos ao investidor pessoa física. Segundo especialistas, o surgimento de novas redes têm facilitado o trabalho do mercado em relação à tokenização, visto a redução de custos e possibilidade da criação de “estruturas híbridas”, que mesclam blockchains.
“Por exemplo, a Solana e a Polygon têm custos unitários mais baratos, mas elas não entregam todo o controle de capacidade que uma rede Besu tem. Dependendo da solução que você quer, você não precisa de todos os controles necessários para desenvolver uma solução que a rede Besu tem”, diz André Daré, CEO da Núclea. “Quando começa a ter variações de redes, com complexidades, número de nós e velocidades diferentes, você começa a trazer aplicações que, eventualmente, usando uma rede mais sofisticada, acabavam não sendo escaláveis, por questão do preço, por ser uma transação mais simples”.
Estas plataformas são diferentes entre si e possuem propostas de valor distintas. Controles adicionais de governança e de privacidade são difíceis de serem aplicados numa rede Solana com a mesma qualidade em que uma rede Besu, por exemplo. “Como tem variações da tecnologia para diferentes propósitos, é possível fazer um lego e, eventualmente, coisas não eram viabilizadas por um, passam a ser viabilizadas por outros. Nesse sentido, o custo de tokenização acaba caindo para algumas soluções que, antes, não tinham essa versalidade”, conta Daré. Ele aponta que também há algum barateamento de redes mais tradicionais e consolidadas, como Tether, mas não em mesma proporção que redes menores.
Para a Bloxs, já é possível observar essa redução de custos em redes de nova geração, como a Solana, que possibilitam emissões com taxas significativamente menores. Já as redes mais tradicionais ainda mantêm estruturas de custo mais elevadas, mas a tendência é de convergência, segundo previsão da casa. “A utilização de arquiteturas híbridas — emitindo em redes mais eficientes e conciliando custódia ou liquidação em ambientes mais robustos — tem ganhado tração e aumenta a competitividade do processo”, opina Felipe Souto, CEO da Bloxs. A visão da casa, inclusive, é que o mercado caminha para ser agnóstico em termos de rede com usos variados a depender do caso. “Por aqui, olhamos a Solana, Riple e Gnosis”, conta Souto, falando das redes utilizadas pela casa.
O executivo da Núclea afirma ter havido uma redução do custo de tokenização de cerca de 70%, a depender da blockchain utilizada, e, com isso, começaram a surgir mais produtos tokenizados. Para empresas do mercado que já utilizam redes blockchain menos conhecidas e custosas, como a Hathor, esse movimento pode ser mais difícil de identificar, mas fato é que o surgimento de mais concorrência tem obrigado esse mercado a ser ainda mais criativo e reduzir margens para baratear os custos.
“A Hathor é uma rede pública. No geral, o custo, tecnicamente, é ínfimo. Então, para nós, essa não é uma preocupação. O que eu vejo é que essas outras empresas que atuam com tokenização estão tendo mais concorrentes e estão sendo obrigadas a diminuir os ganhos delas, o que reduz o custo”, opina Flavio Scarpelli, CEO da Vórtx QR Tokenizadora.

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Tokenização fraciona produtos complexos
A Tokenização permite converter um ativo (físico ou financeiro) em tokens digitais registrados em blockchain, portanto, permite o fracionamento, em que cada token representa uma fração ou participação naquele ativo. Para Daré, da Núclea, a beleza da tokenização é justamente essa possibilidade de fracionar “títulos grandes”, aos quais apenas institucionais ou investidores mais qualificados teriam acesso.
Com as redes de tokenização, usando o crowdfunding, por exemplo, é possível fracionar uma oferta e distribuir “mini investimentos”, optando, inclusive, pela captação de recursos por meio de pessoas físicas a partir de tickets menores. Se uma empresa precisa adiantar um recebível no valor de R$ 500 mil, ela pode optar por fracionar isso e receber o “empréstimo” de diferentes partes. “Isso já está acontecendo no mercado de recebíveis de cartão. Devemos lançar até uma parceria em breve, até o início de 2026, nesse sentido, com uma plataforma de crowdfunding, onde vamos usar nossa rede para poder fazer essa aprovação. E vai acontecer com as duplicatas do escriturais, a partir do meio do ano que vem, provavelmente”, conta Daré.
A visão de otimismo com a ampliação desse acesso é compartilhada pela Bloxs, que ressalta que investidores comuns têm se aproximado mais de produtos mais sofisticados, especialmente por meio da fracionalização e da redução de ticket mínimo. “Isso cria condições para que investidores menores passem a acessar estruturas de crédito que historicamente eram restritas a investidores qualificados”, pontua Souto, reforçando que existe um interesse crescente do investidor de varejo por ativos com lastro real e fluxo previsível. “A tokenização tem funcionado como uma porta de entrada natural para esse público, desde que acompanhada de educação e transparência. O próximo passo do mercado é garantir liquidez secundária mais consistente.”
Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 2024, o volume de ativos tokenizados no Brasil alcançou R$ 1,3 bilhão por meio de ofertas realizadas sob a norma CVM 88, e a perspectiva, segundo Daré, é de atingir em 2025 a ordem de grandeza de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões. Uma maior participação do mercado, no entanto, sobretudo do investidor pessoa física, ainda esbarra na regulamentação.
Segundo Scarpelli, a pessoa física ainda não compra produtos como recebíveis de cartão, porque as empresas detentoras e os intermediários (plataformas) não querem “dar esse recebível puro”. “Elas fazem securitização, faz um CR, uma NP, debênture financeira, qualquer título que oferte por 88. Oferta por outros instrumentos, e empacota os recebíveis embaixo desses títulos. Mas sim, a tecnologia permite isso”, diz.
Para o executivo da Vórtx QR Tokenizadora, “esse mercado vai explodir” quando a regulamentação ficar mais clara em relação ao acesso direto à pessoa física. “Talvez existam sim operações em que pessoas físicas comprem recebíveis de cartão diretamente, mas com certeza são plataformas privadas, não é divulgado, não é público, porque é uma zona cinzenta”, diz.
Na Bloxs, a evolução desse comportamento do investidor nas operações de crédito estruturado tokenizado que apoiam já é perceptível. “Ainda não nos posicionamos oficialmente como player de Digital Assets, porque entendemos que a vertical precisa nascer em um arcabouço de escala, governança e interoperabilidade internacional”, diz o CEO. “Por isso, estamos estruturando internamente o plano para lançar uma área dedicada de Digital Assets ao longo de 2026, com um time experiente e foco em infraestrutura – e não apenas em distribuição de tokens – para capturar esse movimento com maturidade regulatória e profundidade técnica.”


