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Alta histórica do ouro divide opiniões e estratégias entre gestoras de fortunas

Victor Aguiar

O preço do ouro vem batendo recordes nos últimos meses, e chegou à marca histórica de US$ 4,2 mil (aproximadamente R$ 22,7 mil) por onça (31,104 gramas) no final da última semana, um notável salto em relação aos US$ 2,7 mil que o metal valia há um ano, em outubro de 2024. A Capital Aberto conversou com gestoras de fortunas para entender como os investidores têm se posicionado diante da valorização do ativo – e não há resposta única para essa questão.

Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil, relatou à Capital que alguns clientes da gestora realizaram aquisições recentes de ouro, baseadas no atual cenário de desvalorização global do dólar. E garante, “sem dúvida”, que os investimentos ajudaram na obtenção de um retorno maior. “As carteiras que têm ouro e prata estão indo muito bem esse ano, mesmo com pequenas posições”, afirmou.

Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil

Ainda segundo Mecchi, os ETFs (Exchange Traded Funds) têm sido o instrumento preferido para a realização dos investimentos. “No Brasil existem ETFs de ouro em dólar e ETFs de ouro em reais. O ouro em reais está valorizando ainda mais no ano, dada a apreciação da moeda em relação ao dólar”, explica.

Em contrapartida, há gestoras que optam por outro caminho – é o caso da Nord Investimentos, como conta Caio Zylbersztajn, sócio da consultoria. Segundo Zylbersztajn, a Nord tem dado preferência a “outros ativos reais em substituição ao ouro, como renda variável como um todo”.

“Ações de países como Estados Unidos, China e Brasil devem se beneficiar muito desse ambiente de estímulo fiscal com estímulo monetário. [...] Nosso apetite não é para o ouro, e sim para ativos reais, como ações de empresas desses países e, eventualmente, até um pouco de Bitcoin”, explica.


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Historicamente, o ouro desempenha um papel de proteção nas carteiras de investidores. Apesar da valorização observada neste ano, ambos os especialistas acreditam que essa função se mantém. “Continua sendo efetivamente um ativo de proteção” e muito descorrelacionado, afirma Zylbersztajn. “Funcionou dessa forma nos últimos 200 anos e a gente entende que isso não deve mudar daqui para frente.”

A visão de Mecchi, da Azimut, é complementar: “O ouro tem papel de proteção pois tende a performar bem quando outros mercados pioram, de diversificação pois tem correlação relativamente baixa ou negativa com outros ativos tradicionais e de reserva de valor pois costuma resistir em períodos de inflação ou desvalorização cambial”.

Por que o ouro tem se valorizado tanto?

Os recordes que o ouro têm batido podem ser aplicados por uma conjuntura de fatores diretamente relacionados ao cenário pós-pandemia. Na visão de Zylbersztajn, há três motivos principais.

“O primeiro é uma dinâmica de expansão fiscal e inflação mais elevada, fazendo com que boa parte dos ativos fiduciários, moedas fiduciárias, tenha perdido valor nesses últimos quatro anos, de 2021 para cá”, explica o sócio da Nord. “O mundo inteiro em expansão fiscal sem precedente, os governos inundando a economia com estímulos fiscais pós-pandemia, inflação mais alta, corroendo o poder de compra de boa parte das moedas.”

Esse cenário fez com que muitos ativos reais tenham se apreciado nos últimos anos – não só o ouro, mas outros metais, criptoativos, digital assets e ativos de renda variável como um todo.

“O segundo ponto diz respeito a toda a dinâmica de geopolítica e desdolarização global que se observa desde 2022,  com a invasão da Ucrânia pela Rússia”, continua Zylbersztajn. “Se criou uma nova percepção de risco geopolítico e sistêmico no mundo inteiro, e isso mostrou um pouco a vulnerabilidade de ter muita reserva em dólar, que era o que boa parte dos bancos centrais detinham nos últimos 10, 15 anos.”

Ainda na visão do especialista, o congelamento de US$ 300 bilhões das reservas do Banco Central da Rússia também foram determinantes nesse aspecto – vários países, especialmente no eixo oriental, procuraram diversificar suas reservas, vendendo ativos e comprando, entre outros ativos, o ouro, o que fez com que boa parte das reservas dos bancos centrais em ouro aumentasse substancialmente.

Por fim, Zylbersztajn menciona um ponto de caráter técnico do mercado de ouro, que é pequeno e líquido em relação a outros mercados, o que faz com que os preços se manifestem de forma não linear.