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Déficit dos EUA preocupa gestores, mas na visão deles mundo não tem escala para substituição

Érica Polo

Rogério Xavier, sócio da SPX Capital
Rogério Xavier, sócio da SPX Capital

Em conversa sobre ativos atraentes e os rumos do mundo em meio às turbulências geopolíticas, gestores de fundos discordaram a respeito do excepcionalismo americano – em pauta ao longo dos últimos meses – na tarde desta segunda-feira (18), em evento da Warren na capital paulista. O Brasil como um destino mais atraente para fluxo foi outra questão posta na mesa. Bruno Cordeiro, sócio da Kapitalo Investimentos, e Felipe Guerra, sócio da Legacy Capital, enxergam o mercado americano ainda excepcional, enquanto Rogério Xavier, sócio da SPX Capital, faz leitura diferente. 

“Parte da agenda do Trump é boa, parte é questionável – as tarifas, e a forma como ele implementa as coisas é atabalhoada e esquisita, o que traz volatilidade e pode, potencialmente, diminuir o interesse do investidor – mas estamos animados com economia americana”, avalia Cordeiro. Em sua leitura, o setor privado americano caminha de forma “maravilhosa”, visto os balanços entregues pelas companhias na recente temporada, sobretudo em tecnologia.

Mesmo que, por outro lado, haja uma “certa demanda” por parte de alguns países em reduzir a exposição no país, continua, “dá para sonhar que os EUA vão estender o ciclo econômico”. Se a economia americana não está crescendo acima da média global, tampouco está em recessão, pondera Guerra, da Legacy.

Xavier, da SPX, concorda com trechos. “Não sou tão otimista com EUA”, disse. “Vejo hoje um cenário de uma economia em desaceleração – o consumo das famílias crescia 3% e desacelerou para perto de 1%. A questão das tarifas ainda não se fez presente integralmente na economia americana, e um dos efeitos da tarifa é detrator ao crescimento e indutor de possível inflação”, disse.

Ainda segundo o gestor da SPX, reuniões junto a empresas americanas e contatos com dirigentes do Fed evidenciaram companhias “espremidas em custos”. “O consumidor está avesso a receber alta de preços e [as empresas] não estão conseguindo repassar”, continua. É cenário que pode levar ao desemprego e resultados piores nos balanços mais à frente. A visão alternativa dos colegas inclui efeito do endividamento que, para ele, não está “sendo endereçada”.

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“As tarifas geram receita, mas há gasto de outro lado, com o corte de impostos e benefícios entregues, então não vejo esse equilíbrio. Os EUA continuam com déficit muito grande”, reforça Xavier. “A questão de quem vai financiar os EUA, para mim, não é clara”, disse.

Há divergência sobre EUA, mas, em relação ao retrato global, os gestores concordam com uma fotografia mais favorável a partir de 2026. Outro ponto convergente é que não há outro país com “escala” para absorver fluxo de investidores estrangeiros.

“Estamos otimistas com o cenário externo [retrato global] porque vemos um choque de produtividade, muito em tecnologia, nos EUA e na China, fator que vai permitir ao mundo crescer”, disse o gestor da Legacy. Ele cita, ainda, juros mais baixos nos EUA e Europa, além de “fiscal mais frouxo” em Europa e China, o que melhora o cenário para investimentos.

“Se o Brasil não escorregar em casca de banana, a gente conseguirá surfar, mesmo com toda volatilidade da eleição”, continua Guerra. Com bom cenário externo é “mais fácil ficar otimista com emergentes”, o que inclui o Brasil. O problema é a situação fiscal. “A gente põe muito peso nos governantes [Executivo], mas o Congresso também tem jogado muito contra, com propensão de gasto enorme e uma fúria por emendas que não deixa o país andar. Isso precisa ser revisto”, continua o gestor da Legacy.

Estão na mira dos gestores dos fundos, entre os setores citados, IA e segmentos no entorno, como energia (vale lembrar que datacenters, por exemplo, são cada vez mais demandados com o uso de ferramentas de IA). O foco está em ações não só de companhias americanas, mas de chinesas também. Para Cordeiro, da Kapitalo, embora a reorganização de crescimento na China seja uma ‘discussão difícil’, o desempenho de algumas companhias é ‘interessante’. “O setor privado é pujante. A gente gosta do mercado de ações”, continua.

Além de ações nestes segmentos/mercados, os gestores também citaram posições maiores de portfólio defendida em juros, e em algumas moedas emergentes, a exemplo do real e da rúpia indiana.


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