Europa volta a brilhar e gestoras apostam em títulos públicos e crédito privado
Em meio à instabilidade política e econômica gerada pelas políticas dos Estados Unidos, uma nova configuração está se estabelecendo no mundo dos investimentos, o olhar sob outras regiões para alocação. Embora a Europa seja vista por investidores e gestores globais há anos, agora, diante dos investimentos da economia alemã que prometem bons frutos e das oportunidades que estão se abrindo para a renda fixa, a tese ganha ainda mais força, rendendo bons retornos aos fundos. Gestores consultados pela Capital Aberto veem abertura para geração de alfa em segmentos como o de títulos públicos europeus e de crédito privado, especialmente, mas há espaço também para alocação em ações e ETFs.
A Europa, nos últimos anos, entregou um crescimento de PIB menor em relação aos EUA, além de ser uma região “mais madura” e com menos oportunidade de crescimento a nível de mercado. No entanto, após a guerra entre Rússia e Ucrânia e com a chegada de Trump, houve uma mudança geopolítica significativa, que também afetou a economia. A imagem dos Estados Unidos com um nível de dívida muito alto e um governo considerado instável geraram no mercado uma “fuga” para ativos e regiões mais seguros, como o euro.
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Um dos motivos do otimismo é a fase de investimento na qual a Alemanha entrou, “nunca vista”, ponto importante, considerando que ela é um dos principais países exportadores na Europa. A Alemanha iniciou um programa de emissão de dívida de mais de 380 bilhões de euros, com foco no investimento em defesa e armamentos, além de um programa de diversificação para investimento em infraestrutura energética. A Itália também anunciou investimentos na área de defesa e está ainda mais bem posicionada no tema energético, além de possuir melhor relacionamento com outros países e um melhor crescimento econômico.
“Na parte dos títulos públicos europeus, somos positivos porque achamos que a Alemanha vai fazer muitas emissões. Hoje, podemos considerar um dos poucos países ainda triple A. Se você quer um risk-free, é basicamente o bond alemão”, comenta Stefano Del Papa, head da gestão de ativos da América Latina da Azimut, player global em gestão de ativos, gestão de patrimônio e banco de investimento oriundo da Itália com braço de operações no Brasil, lembrando que o país era mais conservador no tema emissão de dívida, o que parece ter mudado por agora.
A casa tem posição em títulos soberanos na Europa e está posicionada com base na crença da queda do diferencial de taxa entre Itália e Alemanha. “Essas posições, por exemplo, de redução de spread da Itália contra a Alemanha foi um dos temas que o nosso comitê de investimento de renda fixa tem há mais de um ano, basicamente. Isso ajudou bastante o retorno de várias estratégias que temos”, diz Del Papa, citando que embora seja algo já visto nos últimos 18 meses, o tema deve seguir atual e tudo o que normalmente o mercado considerava “periferia”, como Portugal, Espanha, Grécia e Itália, que tinham um spread muito grande contra a Alemanha, já reduziu e vai seguir reduzindo.
A Azimut, em um de seus veículos feeder, no Global Macro Bond, fundo local focado na parte de juros de título de dívida do governo, conseguiu cerca de 7 pontos de spread contra o CDI. Já em sua tese de crédito privado, o retorno foi de 12 pontos a mais do CDI nos últimos 12 meses. “Estamos muito construtivos para essa parte do crédito privado na Europa. Gostamos bastante porque achamos que o spread diferencial, que paga o título de crédito privado a respeito do título de juros dos países da Europa, está a níveis muito altos, historicamente, que tivemos em 2008, 2009”, conta o executivo do grupo.

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O grupo Azimut, que tem cerca de 110 bilhões de euros sob gestão, acredita que há valor na parte do crédito privado subordinado/hybrids para empresas investment grade. Para a casa, esse segmento é muito atrativo porque há um ponto de entrada muito bom. Na visão de Del Papa, se o spread, que agora está em um ponto máximo, vai diminuindo, os investidores ganham na parte de capital, porque o preço do título sobe. De toda maneira, “assegurando para os investidores níveis de carrego extremamente interessante”.
Esse foi um movimento também visto pela Franklin Templeton, que recentemente anunciou acordo para adquirir a Apera, gestora de crédito privado pan-europeia com mais de 5 bilhões de euros em ativos sob gestão, ampliando suas capacidades em crédito privado europeu. No início deste mês, a casa divulgou o acordo para aquisição da gestora europeia, prevista para o terceiro trimestre de 2025 e sujeita às aprovações regulatórias habituais. Procurada sobre a estratégia, no entanto, a Franklin Templeton não retornou até o fechamento da matéria. A Apera oferece soluções de capital privado sênior garantido para empresas apoiadas por private equity na Europa Ocidental.
A visão positiva para a região é similar na Mirabaud, grupo financeiro internacional com origem na Suíça e braço de gestão de investimentos e patrimônio no Brasil. Ainda que faça parte do mandato devido à relação intrínseca com a região, os investimentos na Europa ganharam uma pitada maior de otimismo por causa da Alemanha. “A decisão alemã de ‘gastar mais’ é um evento histórico. Além disso, vemos uma Europa mais unida do que nunca, embora o consenso entre os 27 países seja raramente atingido”, relata Guilherme Barbosa, estrategista de Investimentos do Grupo Mirabaud.
A Mirabaud ainda possui uma exposição a crédito privado focada nos EUA pelo fato que o mercado europeu ainda é muito pequeno para esta classe de ativo, segundo o executivo, mas está focando em papéis soberanos de renda fixa na Europa. “Na parte de ações, investimos em ETFs da região e no fundo da casa de small / mid-caps”, diz.
Os executivos pontuam que a queda nos juros na Europa atrai investidores de renda fixa e a valuation mais baixa das ações europeias também ajuda. “A busca por ativos europeus pelos clientes locais e estrangeiros nunca esteve tão alta. Enquanto os EUA não terminarem as discussões sobre tarifas e orçamento, os investidores continuarão buscando ativos considerados mais seguros, embora com menos liquidez que o mercado americano”, opina Barbosa.
Já na Blackbird a visão não é de tanto otimismo. Ainda assim, a região toma seu espaço no portfólio. Boa parte da alocação ocorre por meio de ETFs, especialmente do EURP11, mas também em alguns fundos. “Ele tem um foco em empresas de grande e médio porte e olhando para países desenvolvidos na Europa, como Reino Unido, Alemanha, Suíça e França”, conta Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos.
Já olhando para uma diversificação um pouco maior, em uma gestão ativa, a casa tem feito uma alocação com a Western Asset, que possui exposição também na parte de ações, EDRs de empresas europeias e uma exposição pequena em título público europeu. “Mas não é uma alocação tão expressiva olhando o portfólio total aqui da Blackbird. A gente tem priorizado muito mais uma diversificação em outros mercados, buscando até países emergentes”, diz. Essa, inclusive, é uma estratégia relativamente recente da Blackbird, mas a valorização do ETF, por exemplo, nos últimos 12 meses, beira os 9%. A tese foca em setores mais defensivos, como setor elétrico e bancos.
“Num cenário de alocação Brasil, a liquidez ainda é baixa. Se olharmos também a questão dos ETFs, como um todo, tem uma limitação maior em relação aos ativos disponíveis olhando só para a Europa do que outras geografias”, opina Harada, dizendo que a alocação ainda corresponde a uma parcela pequena do portfólio.
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