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Perdas esperadas e menor periodicidade podem ganhar foco em PDD de FIDCs

Amanda Meneses

Peterson Rizzo, especialista em investimentos na Multiplike
Peterson Rizzo, especialista em investimentos na Multiplike

Com o boom do mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), as instituições regulamentadoras e os players do mercado têm focado em aprimorar o produto, trazendo mais segurança em relação a itens primordiais de impacto nos fundos, como a Provisão de Devedores Duvidosos (PDD). Embora o Guia Técnico Anbima de Melhores Práticas, lançado mês passado, não tenha caráter vinculante, segundo instituições do mercado, muitos pontos do documento já eram foco das casas e alguns, inclusive, colocados em prática nos FIDCs. Agora, podem ganhar mais enfoque o conceito de perda esperada e a maior frequência nos cálculos e processos de diligência.

Além de indicar o risco de crédito do fundo, pois reflete o risco de inadimplência dos devedores que possuem os direitos creditórios, a PDD afeta o resultado do FIDC, pois as perdas provisionadas são consideradas despesas, diminuindo os lucros do fundo, visto isso, seu cálculo é de extrema importância.


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O Guia Técnico de Melhores Práticas para Metodologia de Provisão de Devedores Duvidosos (PDD) de Direitos Creditórios, ainda que voltado para os administradores fiduciários dos FIDCs, também é relevante para os gestores que contratam os prestadores de serviço. O documento, um guia das melhores práticas para a metodologia de PDD de direitos creditórios, ou seja, especialmente voltado para os FIDCs, Fiagros, ou quaisquer outros fundos que adquiram direitos creditórios, é comemorado pelo mercado e, inclusive, traz algumas práticas já olhadas pelos gestores, já outras devem ganhar mais atenção agora.

“Esse documento é superimportante, considerando o crescimento dos FIDCs no mercado. O acréscimo principal relativo a fundos de crédito é como você vai precificar e lidar com a provisão de devedores duvidosos, como vai precificar os ativos, que têm que ser permanentemente reprecificados, e toda vez que tem um evento que possa modificar o valor do ativo, que mude a expectativa de recebimento, aquilo tem que ser o mais rápido possível refletido na carteira do fundo”, conta João Baptista Peixoto Neto, CEO da Ouro Preto Investimentos, casa especializada com mais de 100 FIDCs que trabalha com diversos administradores fiduciários do mercado como Vórtx, Singulare (agora QI DTVM) e Limine/Kanastra, Daycoval e BTG.

“Praticamente todas essas sugestões no documento a gente já praticava aqui. Diria até que costumamos, em alguns casos, ter uma metodologia até um pouco mais rigorosa em algumas questões, mas sempre com o administrador do fundo. Por exemplo, quando há uma negociação de um ativo, o devedor não paga aquele direito creditório na data, e renegocia, a gente já lança aquilo 100% em PDD”, diz o CEO.

Peixoto Neto lembra, no entanto, que cada FIDC tem uma carteira de recebíveis diferente, então, esse cálculo de PDD vai levar em consideração aquele tipo de carteira de recebíveis. “O que você precisa ter é uma coisa que se aplique a todos os recebíveis com as mesmas características, ou seja, esses vão sofrer a mesma metodologia.”

Como está o mercado

O documento da Anbima traz definições como a de perda incorrida, perda esperada e régua de atraso, além de trazer o conceito de Efeito Vagão, provisionamento sobre os créditos atribuídos a um mesmo devedor, e sua forma de aplicação. 

A gestora Multiplike, casa que possui diversos FIDCs e concedeu R$ 11 bilhões de crédito com PDD de apenas 0,3% ano passado, por exemplo, esclarece que a metodologia de Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) de seus FIDCs, administrados pela Singulare (comprada há pouco pela QI DTVM), segue um processo detalhado que inclui: classificação de ativos, análise de inadimplência, cálculo por faixa de atraso, ajustes regionais (Beta), Efeito Vagão e baixa para prejuízo (Write-Off).

Inicialmente, os direitos creditórios da casa são classificados em diferentes tipos de FIDC (Fomento Mercantil, Financeiro, Agro, Indústria e Comércio, entre outros) para definir a metodologia de provisionamento mais adequada​. Há também uma análise de inadimplência e a PDD é calculada com base no comportamento histórico de inadimplência dos direitos creditórios, segmentando os ativos por faixas de atraso (até 5 dias, 6-30 dias, 31-60 dias, etc.). “Esse processo é ajustado semestralmente para garantir precisão​”, comenta Peterson Rizzo, especialista em Investimentos na Multiplike.

Também há um cálculo por Faixa de Atraso. Para cada faixa de atraso, a PDD é determinada com base em dados históricos, e é aplicada uma margem de segurança para contemplar riscos imprevistos, como choques econômicos. “A provisão é mais alta para créditos com maior tempo de atraso”, diz Rizzo. 

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O cálculo conta também com ajustes regionais (Beta), calculado com base na taxa de inadimplência regional comparada à média nacional.  Se o ‘Beta’ for superior a 1,00, os percentuais de PDD são ajustados para refletir o risco regional”, esclarece o executivo da Multiplike, citando ainda que na PDD há também o efeito vagão. "Quando um devedor está presente em múltiplas operações, o risco maior é estendido a todas as operações envolvendo esse devedor, aumentando a provisão para perdas.”

O cálculo inclui ainda a Baixa para Prejuízo (Write-Off). Quando não há mais perspectiva de recuperação, ou o crédito está inadimplente há mais de 365 dias, a perda é registrada como baixa para prejuízo. Apesar de todo o processo, o cálculo de PDD nos fundos da casa incluem apenas perdas passadas, algo que a Anbima tenta mudar ao trazer o conceito de perda esperada. Procurada sobre possíveis mudanças nos métodos, a Singulare não comentou sobre possíveis planos de mudanças, bem como a Kanastra. Já o BTG não retornou até o fechamento da matéria.

O Daycoval, um dos administradores fiduciários do mercado, aponta que o manual da Anbima chega em boa hora, diante do crescimento do mercado de crédito, especialmente por meio dos FIDCs. Embora não crie uma nova regra, tem como objetivo padronizar e oferecer uma referência ao mercado em relação às normas já existentes.

"Desde o início de sua prestação de serviços para FIDCs, o Banco Daycoval adota metodologias sólidas e ajustadas à realidade de cada fundo, incorporando desde sempre a perda esperada como um dos fatores na composição das métricas de perdas dos fundos. Destaco, ainda, que a adequada mensuração da perda esperada é fundamental não só para a definição da PDD, mas também para garantir que a taxa de cessão dos recebíveis está adequada à realidade atual do fundo", disse Vinicius Daniel Pagliaci da Rocha, superintendente executivo de Mercado de Capitais do Daycoval.

Rocha destacando ainda que uma boa metodologia de PDD deve levar em consideração não apenas as perdas incorridas e perdas esperadas, mas também uma análise individualizada do tipo de recebível, uma análise setorial e também de garantias em cada estrutura, que devem compor o cálculo da perda esperada. Em relação à periodicidade de análise das metodologias, a casa possui comitês mensais para verificação da aderência de suas métricas à evolução creditícia dos fundos.

“Isso, para bancos, por exemplo, já é uma realidade há anos. Não é uma super novidade no mercado. E dentro da Vórtx, nosso objetivo é sempre desenvolver uma modelagem precisa da perda esperada, e vale citar perda esperada porque dentro desse conceito tem bastante coisa envolvida, consideramos outros fatores macroeconômicos ali dentro”, conta Robert Alves, analista de Riscos da Vórtx. “É isso que a gente vai fazer aqui nos nossos próximos estudos para PDD”, complementa, dizendo que a casa vai utilizar parte histórica de todas as carteiras, fazer uma diligência, e consultar s gestores/maiores clientes sobre como estão visando essa modelagem para testar novos modelos na Vórtx.

Atualmente, o manual da casa diz que a diligência e verificação de PDD deve ser feita semestralmente, mas a Vórtx tenta se antecipar e realizar esses processos a cada trimestre. “A gente sempre tentou fazer uma diligência junto ao gestor também, para avaliar a questão da régua de cobrança, deixá-la bem mais próxima da régua de PDD que estamos querendo. Sempre trouxemos alerta com relação ao aging (envelhecimento) da carteira”, diz Alves, citando que outro ponto de preocupação é o alongamento das dívidas. “Tudo isso vai fazer parte dessa questão do modelo”.

Hoje, na Vórtx, existem algumas diligências diárias e até mesmo instantâneas para os gestores e demais clientes, mas a casa quer que esse “motor de cálculo” seja para todos os fundos, visto que nem todos estão em seu sistema VRS, de recebíveis. Além disso, por ora, leva mais em conta perdas passadas, algo que a casa pretende mudar. “Queremos que seja cada vez mais frequente, porque checar nunca é demais. Essa parte do manual também é muito importante, porque fala que seja no mínimo mensal, e essa palavra ‘mensal’ me chamou bastante atenção”, conta o executivo, dizendo que o intuito da casa agora é aumentar a frequência desses processos e na parte preditiva da PDD.

Muitas das sugestões da Anbima já eram realizadas pelo mercado. O guia, inclusive, foi feito com a colaboração dos administradores para mostrarem quais eram as melhores práticas do mercado para cálculo de PDD e precificação dos ativos. “Cada FIDC tem um cálculo próprio para o PDD, porque temos FIDCs de carteiras de recebíveis muito diferentes, de CCBs, duplicatas, notas comerciais, de indústrias, financiamento de veículos. Não pretendemos mudar algo no cálculo com base no guia, porque diria que a gente já segue as melhores práticas sugeridas”, diz Peixoto Neto, da Ouro Preto.

A Vórtx, administradora fiduciária, por sua vez, está buscando ainda mais celeridade nos processos e acredita que o que vai mudar seja a parte de governança, visando uma periodicidade mais frequente. “Primeiramente, acho que vai ser uma fase de bastante estudo. Vamos acertar alguns modelos e avaliar como vai ser essa questão do impacto para os gestores”, aponta Alves. 

Em recente entrevista à Capital Aberto, a própria Anbima destacou que melhorar os modelos e procedimentos para cálculo do PDD é importante para dar transparência e segurança ao produto. O FIDC, normalmente constituído por cotas sênior e subordinada, não tem marcação a mercado.