Momentum favorável impulsiona ações de frigoríficos

O ano de 2024 parece ser o ano dos frigoríficos brasileiros, que veem as ações dispararem no Ibovespa, com exceção do Minerva, após passarem por verdadeiras inconstâncias nos últimos anos, em função do aumento do preço de insumos e pela demanda de carne mais fraca, impactada pelo aumento da inflação ao redor do globo.
Na avaliação de especialistas consultados, o momentum positivo das companhias se deve à melhora dos resultados operacionais no primeiro trimestre, beneficiada pelo câmbio, aumento da demanda e redução do custo de insumos, após um ciclo de alta, o que levou a um consequente aumento das margens das companhias.
No caso do dólar, inclusive, esse ganho deve permanecer para os frigoríficos pelo menos no curto prazo, já que a valorização da moeda americana em relação ao real ajuda na construção das receitas de exportação, embora sensibilize o resultado financeiro por endividamento em moeda estrangeira.
Um levantamento elaborado pelo TradeMap mostra que a BRF teve um salto nos papéis justamente depois de a Marfrig passar a ser a controladora majoritária da companhia. Até o fechamento do dia 17 de julho, as ações da empresa acumulam uma alta de 63,58% no ano, enquanto a JBS sobe 29,43% e a Marfrig, que vem sofrendo com a alta alavancagem, em função dos gastos com a aquisição de fatia da BRF, tem uma alta de 27,22%.
Na ponta negativa, o Minerva registra uma queda de 7,63% no período, impactada fortemente pelas despesas financeiras depois de a empresa adquirir 16 plantas da Marfrig em 2023. “O mercado fez a leitura de que o ganhador no deal foi a Marfrig, já que o Minerva pagou (R$ 7,5 bilhões) caro por essas plantas. Foi um deal muito complexo. Se fosse menor, a reação do mercado teria sido diferente”, explica oanalista de Frigoríficos da Genial Investimentos, Igor Guedes.
Segundo o executivo, o mercado não deu o benefício da dúvida para o Minerva em relação à compra dos ativos na América do Sul. “As ações do Minerva caíram muito e, por isso, estão baratas.”

Do lado da BRF, que está entre as maiores as altas da Bolsa em 2024, o benefício tem acontecido. Além da alta do dólar, que contribui para a rentabilidade em reais, pela retração nas exportações nos Estados Unidos. Por lá, o aumento da carne bovina elevou a demanda por frango, o que tem ajudado o Brasil já que os EUA não conseguem suprir toda a demanda.
Na avaliação do analista de agro, alimentos e bebidas do Itaú BBA, Gustavo Troyano, há um cenário favorável de grãos para os produtores de frango, o que acaba beneficiando tanto BRF como JBS, em menor proporção, é verdade, uma vez que a empresa dos irmãos Batista é muito diversificada. “O preço de grãos, segundo grande componente de custo, acaba tendo um cenário benigno para o segmento de frango.”

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Em relação à oferta de frango nos EUA, Troyano explica que a restrição faz com o que o preço da ave não caia, o que ajuda na expansão das margens. “Por que a oferta está devagar? Os EUA estão com problema de eclosão que faz com o que a oferta não reaja de imediato. Fica com uma restrição de oferta que vai respingar no mundo inteiro”, analisa.
Além do cenário a qual a BRF está inserida, outro fato que joga a favor da companhia, de acordo com o analista da Genial, é que quando a Marfrig comprou o controle ela trocou toda a diretoria da companhia, que tinha um histórico de queima de caixa muito forte.
A JBS, por sua vez, que é a queridinha do mercado entre os frigoríficos por causa da sua diversificação, é a segunda que mais sobe no ano, apesar da penalização do cenário complicado para o gado nos EUA por conta da inflação. “Embora seja uma empresa diversificada, o mercado penalizou por conta dessa leitura da exposição a gado nos EUA. As margens das holdings começaram a melhorar por conta das divisões de aves”, comenta o analista da Genial.

Perspectivas de curto prazo
Para o segundo trimestre, na qual as empresas que compõem o Ibovespa começam a divulgar os resultados na próxima semana, as perspectivas são de continuidade do processo de desalavancagem por parte dos frigoríficos, com números consistentes, favorecendo os resultados.
“Mantemos uma visão construtiva para as empresas do setor que mantém valuations atrativos, norteados pela estratégia de melhoria da eficiência operacional, maior geração de caixa, adequada estrutura de capital, que resultam em maior retorno aos acionistas”, conta oanalista sênior da Planner Investimentos, Victor Martins.
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Outra tendência que deve continuar para as empresas são os ganhos com o dólar, uma vez que a alta da moeda americana em relação ao real deve permanecer enquanto perdurar a dúvida do mercado sobre o plano fiscal brasileiro.
Fato novo que pode impactar negativamente BRF e JBS
Nesta quarta-feira (17), o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou surto de doença de Newcastle em granja localizada no Rio Grande do Sul. O comunicado diz que a exploração foi prontamente encerrada e as autoridades locais irão implementar protocolos de erradicação para todas as aves, seguidos de procedimentos minuciosos de limpeza e desinfecção no local.
Na visão do analista do Itaú BBA, o momentum muito forte para a indústria deve permanecer, mas agora precisa entender essa doença para saber como será o futuro. “A última vez que tivemos essa doença aqui foi em 2006. Existe a possibilidade de países exportadores fecharem as portas para o Brasil.”
Troyano ressalta que as explicações mais detalhadas por parte das autoridades brasileiras sobre a doença devem acontecer já nas próximas semanas. A partir disso, segundo ele, é que vamos ver a reação dos países importadores. “Com isso, a nossa preferência é pela JBS porque a diversificação faz com o que ela esteja menos exposta a risco sanitário.”
