Crise na Venezuela aumenta prêmio de risco de emergentes e pressiona câmbio
Os próximos passos da crise que se instalou após a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelo governo americano ainda são incertos, bem como o nível de intervenção que os EUA devem manter no local. No entanto, especialistas já analisam os impactos do evento em países vizinhos, como o Brasil. Embora a representatividade da Venezuela seja pequena na balança comercial brasileira, o agronegócio pode ser afetado. Além disso, episódios como a invasão e captura de um chefe de Estado por outro país tendem a elevar a instabilidade e a incerteza, aumentando o prêmio de risco de países emergentes e pressionando o câmbio.
A operação realizada pelo país norte-americano teve como objetivo depor e capturar Maduro, com Trump afirmando em comunicados e entrevistas que um dos principais intuitos é reestruturar o setor de petróleo da Venezuela. Em declarações à NBC News, Trump afirmou que as petrolíferas americanas poderão operar no setor de petróleo do país latido dentro de 18 meses. O efeito foi imediato. No primeiro pregão após o ataque à Venezuela, essas empresas tiveram um impulso em suas ações, gerado pelo otimismo com a oportunidade de explorar o local, conhecido por sua riqueza no combustível fóssil.
O impacto direto ao Brasil é limitado, visto a pouca relação comercial com a Venezuela hoje em dia. Ainda assim, efeitos sobre o agronegócio, câmbio e a volatilidade gerada pelo evento devem trazer choques de curto prazo para ativos do país.
“À primeira vista, acho que são efeitos de curto prazo que tendem a se equilibrar ou harmonizar num período de médio a longo prazo. De largada, já pensamos no agronegócio, mas a representatividade da Venezuela é muito baixa na economia brasileira, e vem decrescendo faz um tempo. Isso já deve mitigar bastante o impacto desse cenário aqui, mas existem alguns itens, alguns setores que devem sofrer um pouco mais”, opina Diogo Carneiro, professor na FIPECAFI. “Não dá para bater o martelo que vai ter algum efeito, porque o consumo deve continuar mais ou menos equilibrado. O problema maior para a economia brasileira é o impacto indireto: a incerteza.”
André Charone, professor universitário e mestre em negócios internacionais, reforça a tese de que os impactos diretos sobre o agronegócio brasileiro tendem a ser limitados, mas pontua que a instabilidade política gera efeitos indiretos importantes, sobretudo, via aumento da volatilidade cambial, dos custos de energia, frete e seguros, fatores que pesam no custo de produção agrícola. A Venezuela é um mercado comprador relevante de alguns alimentos brasileiros, como arroz e outros produtos básicos, portanto, uma crise mais profunda pode afetar contratos, logística e pagamentos. “Não se trata de um choque estrutural para o agro brasileiro, mas de um cenário que exige mais cautela, gestão de risco e diversificação de mercados, especialmente para quem atua no comércio exterior”, diz.
Na avaliação de Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, o principal canal a ser afetado é o de fertilizantes. O especialista lembra que o Brasil importa cerca de 6% a 8% de sua ureia e outros nitrogenados da Venezuela via Pequiven e PDVSA, estatais do país. Embora a representatividade no todo seja pequena, é relevante para custos marginais na safra de soja e milho. “Com a interrupção logística (portos venezuelanos paralisados ou sob controle transitório dos EUA), há risco de atrasos ou encarecimento temporário, estimativa de 5% a 15% nos preços spot de ureia no curto prazo”, diz Uarian, mencionando também um efeito cascata devido a uma alta inicial no preço do petróleo/diesel que eleva custos de frete e máquinas agrícolas.
“Se os EUA conseguirem rapidamente retomar a produção venezuelana, via Chevron e outras majors, a oferta global de energia e derivados petroquímicos (base dos fertilizantes) pode aumentar, pressionando preços para baixo em 3 a 6 meses, benefício líquido para o agro brasileiro”, completa. A fronteira em Roraima também pode ter fluxo comercial interrompido temporariamente. No médio/longo prazo, se a transição for estável, menciona Uarian, a Venezuela recuperada pode voltar a importar mais alimentos brasileiros como arroz, açúcar, proteínas, o que seria positivo para exportadores.

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Instabilidade é o maior perigo
A priori, o ponto de atenção é o petróleo e, consequentemente, as petrolíferas e sua cadeia. No Brasil, as ações das petroleiras caíram entre 1,5% e 3% nos primeiros pregões pós-operação, devido à expectativa de retomada forte da produção venezuelana, aumentando a oferta global de petróleo, e derrubando preços do Brent. “Isso reduz margens de exportação e refino da Petrobras no médio prazo, apesar de alta inicial especulativa”, aponta o analista da Cultura Capital.
Mas o maior perigo está no cenário de volatilidade. Tato Barros, sócio da Fami Capital, lembra que momentos de incerteza e instabilidade costumam gerar aumento temporário dos prêmios de risco de países emergentes, principalmente por meio de maior aversão ao risco por parte dos investidores globais. “Eventos geopolíticos inesperados levam o mercado a reduzir exposição a ativos considerados mais arriscados, o que se reflete em abertura de spreads, maior volatilidade e movimentos defensivos de portfólio. Mas se o episódio não evoluir para uma escalada geopolítica mais ampla, qualquer impacto tende a ser moderado e de curta duração”, diz o executivo.
Em meio a este cenário, grandes bancos brasileiros podem sofrer uma pressão leve por aumento de aversão a risco LatAm, e as provisões para crédito agro podem subir marginalmente se produtores enfrentarem custos maiores. Além dos impactos a petroleiras, exportadores de alimentos como JBS, BRF e Minerva, cujo impacto nos negócios é neutro no curto prazo, podem surfar uma onda positiva no médio prazo se a Venezuela estabilizada voltar a demandar proteínas e grãos. Outras empresas também podem ser afetadas. A Braskem sente efeito indireto via petroquímicos, enquanto a Vale é impactada via preços de commodities metálicas, mas com menos impacto.
O movimento deve ser similar ao gerado na guerra tarifária promovida por Donald Trump. Aumento do ouro, um dos itens considerados mais livres de juros e de risco, e compra de títulos de dívida de governos mais estáveis. Com esse tipo de instabilidade, a percepção de risco de países emergentes aumenta, com investidores realocando recursos para lugares mais seguros.
“Neste caso, o primeiro risco da América Latina é do Brasil, que faz fronteira, é um país representativo na América do Sul em especial, e acho que isso tem um impacto grande. A percepção de risco aumenta, o pessoal tira o dinheiro, e o câmbio desses países fica mais depreciado. O dólar deve ficar mais caro no Brasil”, aponta Carneiro, da FIPECAFI.
Com isso, o custo das empresas que importam insumos e o custo da população que consome, como alimento, grãos e gasolina, itens importados, aumenta, pressionando a inflação. O cenário tende a manter os juros no mesmo patamar ou gerar uma elevação por parte do BC para tentar coibir uma pressão inflacionária maior.
“O Banco Central já tem se mostrado extremamente conservador. Agora, é muito provável que seja protelado esse ritmo de redução da taxa de juros. Por uma questão de prudência, provavelmente, se existir uma expectativa de que ia começar a baixar [os juros] com mais força, ia começar a diminuir a taxa de juros agora, essa expectativa fica um pouco prejudicada”, argumenta Carneiro.
Charone pondera que esse efeito para o Brasil costuma ser temporário e depende da evolução do cenário internacional e da percepção sobre os fundamentos internos, como política fiscal e monetária. “Se o choque geopolítico não se prolongar, o impacto tende a se dissipar, mas se houver escalada ou novas sanções, a pressão cambial pode se tornar mais persistente”, opina.
