Crise na Venezuela tem baixo impacto imediato sobre petróleo, mas amplia incertezas no longo prazo
A crise política na Venezuela, agravada pela captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos e pela ascensão de Delcy Rodríguez como líder interina, provocou forte repercussão geopolítica ao redor do globo. Sobre os preços internacionais do petróleo, no entanto, o impacto se mostrou bastante limitado até o momento. O Brent, que estava a US$ 60,22 por barril na última sexta-feira (2), recuou cerca de 2,3% nos últimos dias, chegando a US$ 59,49 nesta quarta (7).
Apesar do potencial do país, detentor das maiores reservas provadas do mundo, a produção atual segue — e deverá seguir, no médio prazo — reduzida e com pouca relevância para o equilíbrio global de oferta, segundo analistas.
“A produção da Venezuela atual é pífia, muito pequena e de muito pouco impacto no mercado global de petróleo”, afirmou Pedro Rodrigues, sócio da CBIE Advisory, em entrevista à Capital Aberto. Segundo ele, estimativas indicam que o país produza hoje entre 500 mil e 1 milhão de barris por dia, volume muito baixo em relação à produção global. “No curto prazo, o impacto é muito baixo [para o mercado], porque a produção venezuelana representa muito pouco”, acrescenta.
Um relatório divulgado pelo BTG Pactual a respeito do tema corrobora essa avaliação. De acordo com o banco, a produção venezuelana caiu de cerca de 820 mil barris por dia no fim de 2025 para aproximadamente 600 mil barris no início de 2026, refletindo sanções renovadas, bloqueio naval e deterioração operacional da PDVSA. Ainda assim, o mercado tratou o episódio como um “risco marginal, e não sistêmico”, o que causou apenas uma reação contida dos preços internacionais.
Ainda na visão de Rodrigues, o contraste com outras crises recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, é evidente. “Se a gente comparar, tivemos uma mexida muito grande no mercado de petróleo com a guerra na Ucrânia, porque a Rússia é um grande produtor”, afirmou. Já no caso da Venezuela, o peso imediato é reduzido, embora o potencial de longo prazo seja elevado.
“O potencial que a Venezuela tem é gigante”, destaca. No entanto, ele ressalta que ainda não é possível saber “qual é a velocidade que isso vai avançar”, dado o estado dos ativos e a necessidade de investimentos na estrutura do país.
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O relatório do BTG estima que uma recuperação estrutural levaria mais de três anos e dependeria de reformas regulatórias, estabilidade política e renegociação de termos fiscais. Mesmo em um cenário de alívio seletivo de sanções, a produção poderia subir cerca de 200 mil a 300 mil barris por dia com a reativação de poços ociosos — um aumento relevante para o país, mas “imaterial para o balanço global de oferta e demanda”, diz o relatório.

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Do ponto de vista jurídico e institucional, a intervenção americana foi acompanhada por um discurso de estabilidade, segundo Ricardo Inglez, sócio do IW Melcheds Advogados e especialista em direito econômico. “Por mais que geopoliticamente a tensão tenha sido altíssima, em termos de produção e comércio internacional, existe um potencial de não ter uma grande afetação”, acrescenta.
Ele também observa que não houve movimentos abruptos no câmbio ou nas bolsas, e que os Estados Unidos sinalizaram continuidade das exportações. “Do ponto de vista do comércio internacional, as mensagens são de estabilidade”, reforça.
Inglez destaca que o impacto futuro dependerá da forma como a nova estrutura será implementada e de sua relação com a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). “Se os Estados Unidos adotarem uma postura alinhada com a Opep, a tendência é o preço manter a estabilidade”, afirma. Já uma atuação mais independente poderia pressionar os preços para baixo, ao ampliar a oferta.
Para o Brasil, os desdobramentos são ambíguos. Segundo Rodrigues, um eventual aumento relevante da produção venezuelana poderia resultar em petróleo mais barato, o que reduziria a arrecadação do Estado brasileiro com royalties e participações especiais. “Preço de petróleo mais barato significa menos dinheiro para o Estado brasileiro”, diz Rodrigues. Por outro lado, poderia aliviar os preços de combustíveis, especialmente do diesel, do qual o país ainda é importador. “Todo mundo quer pagar gasolina barata, essa é a grande verdade, e diesel também.”
Há ainda o efeito concorrencial. “Se a Venezuela volta com uma segurança institucional, quer dizer, volta a um país ser atrativo para os investimentos, o Brasil ganha um concorrente”, afirma o especialista da CBIE, ao mencionar a disputa por capital no setor de exploração e produção. Ele também aponta riscos para a Petrobras em um cenário de petróleo mais barato, dada a maior alavancagem financeira da companhia. “Quando o petróleo começa a cair e a empresa está muito alavancada, ela gera menos caixa.”
No dia 2 de janeiro, um dia antes da captura de Maduro pelas forças dos EUA, as ações da Petrobras valiam R$ 30,66 por papel. Desde então, os papéis recuaram cerca de 3,3%, para um valor de R$ 29,77, em redução marginal dos preços.
Inglez avalia que o Brasil é relativamente protegido de choques energéticos mais amplos devido à sua matriz majoritariamente hidrelétrica e ao avanço de fontes renováveis. O principal gargalo, segundo ele, está no transporte e no custo dos combustíveis. “O Brasil tem uma questão tributária no combustível muito crônica”, afirma, defendendo que uma redução da carga tributária poderia mitigar impactos externos e estimular a atividade industrial.
Apesar da baixa reação imediata do mercado, analistas concordam que a crise venezuelana tem implicações estruturais relevantes. “Mostra a importância que o petróleo e a energia têm nesse jogo geopolítico”, analisa Rodrigues, ao destacar também os efeitos sobre a influência chinesa na região e sobre o equilíbrio interno da Opep. Para o BTG, o país oferece “altas recompensas, mas baixa visibilidade”, com ganhos de curto prazo possíveis, porém condicionados, no longo prazo, à estabilidade política e à criação de um ambiente regulatório confiável.
