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Inflação surpreende positivamente em outubro, mas serviços justificam cautela persistente do BC

Victor Aguiar

O IPCA de outubro veio abaixo das expectativas e reforçou o quadro de desaceleração da inflação no país. O índice subiu 0,09% no mês, resultado inferior aos 0,15% esperados pelo mercado e bastante abaixo dos 0,48% observados em setembro. No acumulado em 12 meses, a variação recuou de 5,17% para 4,68%, segundo dados divulgados nesta terça-feira (11) pelo IBGE.

Para analistas, a surpresa é explicada, principalmente, pela valorização do real e por descontos antecipados do varejo, que fizeram reduzir preços de bens duráveis e industriais em meio à aproximação da Black Friday.

“Os itens sensíveis ao câmbio apresentaram um pass-through mais rápido da apreciação do real, enquanto o varejo antecipou promoções em categorias como eletrodomésticos e eletrônicos”, afirma Andrea Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos.

A subcategoria de aparelhos eletroeletrônicos recuou 0,86%, ecoando as quedas expressivas nos preços de celulares e eletrodomésticos que já haviam sido observadas no fim de outubro. Também houve deflação em artigos de residência (-0,34%) e em habitação (-0,30%), refletindo a tendência na energia elétrica (-2,39%), impactada pela ativação da bandeira vermelha patamar 1.

O grupo de alimentação no domicílio também mostrou queda, com deflação de 0,16%, abaixo da estimativa de 0,13% da Warren. O movimento foi impulsionado pela queda de cereais e leguminosas (-1,83%), com destaque para o arroz (-1,37%), que acumula deflação desde o fim de 2024. Por outro lado, os alimentos in natura voltaram a subir (0,24%), puxados pela batata-inglesa (+8,56%).

A XP Investimentos destacou a composição mais favorável do índice. “Os preços de alimentos e bens duráveis novamente vieram em território negativo, com os núcleos de inflação arrefecendo”, afirma o economista Alexandre Maluf. Segundo cálculos da casa, a média dos núcleos subiu 0,25% em outubro, mas o ritmo trimestral anualizado recuou para 3,9%, o menor desde junho de 2024.

Maluf aponta ainda que a valorização do real e os preços industriais no atacado, ainda em terreno deflacionário, deverão manter o alívio no varejo nos próximos meses. “O fortalecimento do câmbio e o fluxo de importações mais baratas da China têm contribuído para reduzir o custo dos duráveis, consolidando o processo de desinflação”, disse.

Serviços ainda são desafio

Apesar da melhora geral, os serviços intensivos em mão de obra continuam sendo foco de atenção. A Warren calcula que a média móvel trimestral anualizada desses itens acelerou de 6,2% para 7,2% em outubro, mesmo com os serviços subjacentes recuando de 4,86% para 4,59%.

Na mesma direção, a XP identificou alta de 0,57% nos serviços de mão de obra, acima da estimativa de 0,49%. “Vemos espaço limitado para a convergência da inflação de serviços à meta, uma vez que o custo unitário do trabalho segue em trajetória ascendente e a taxa de desemprego permanece em patamares historicamente baixos”, avalia Maluf.

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Entre os componentes de maior pressão, alimentação fora do domicílio avançou 0,46%, enquanto as passagens aéreas subiram 4,48%.

Diante do resultado, a Warren manteve suas projeções de IPCA em 4,3% em 2025 e 4,5% em 2026, revisando levemente as estimativas para os próximos meses (+0,20% em novembro e +0,31% em dezembro). A XP também manteve previsão semelhante, com inflação de 4,5% e 4,2%, respectivamente.

Para André Perfeito, economista da Garantia Capital, o dado de outubro “deve alterar as projeções de Selic no relatório Focus”. Segundo ele, “acabaram as desculpas para manter a taxa tão contracionista”, embora o cenário fiscal ainda imponha cautela. “O resultado reforça que a inflação está muito moderada e que a tendência aponta desaceleração sustentada do ritmo de alta de preços”, afirmou.

A divulgação do IPCA coincidiu com a publicação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve o tom cauteloso do comunicado pós-reunião. O documento destacou que o cenário econômico “tem se materializado conforme o esperado”, o que, para o colegiado, justifica manter a taxa Selic inalterada por período bastante prolongado, mas sem antecipar o início de cortes.

Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, a ata “mostra que o Copom não está disposto a adotar uma postura mais dura, mas também não vê espaço, neste momento, para discutir flexibilização”.

A XP reforçou que o Banco Central busca evitar qualquer especulação de mercado sobre cortes no curto prazo, destacando a “persistência da desancoragem parcial das expectativas” e o “ambiente global ainda incerto”. O Copom mencionou preocupações com o cenário fiscal em diversas economias e com a política monetária dos Estados Unidos em meio à paralisação do governo americano.

Com o quadro de desinflação se consolidando e a atividade doméstica em trajetória de moderação, economistas veem espaço para uma política monetária menos restritiva ao longo de 2026. A XP projeta o início de um ciclo gradual de cortes em março, com a Selic caindo de 15% ao ano até 12% após seis reduções de 0,50%.

Ainda assim, o Banco Central deve manter o tom de cautela nas próximas comunicações. “A combinação de melhora inflacionária e resiliência dos serviços justifica a manutenção da taxa por mais tempo, garantindo convergência sustentável à meta”, avalia Vital, da Warren.


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