ETFs ganham espaço, mas barreira cultural ainda é grande, dizem analistas
A indústria brasileira de ETFs (exchange-traded funds) tem crescido e ganhado espaço, mas ainda representa menos de 1% do patrimônio total dos fundos de investimento no país — uma diferença considerável diante dos mais de R$ 10 trilhões administrados pela indústria tradicional. Essa dificuldade de estabelecer o ETF como protagonista do mercado foi o grande tema de um dos painéis do Encontro Anual de Índices e ETFs, realizado nesta quinta-feira (30) em São Paulo, que reuniu gestores, distribuidores e especialistas do setor.
O consenso entre os participantes — Guilherme Nascimento, head do canal institucional da XP Banco de Atacado; Leonardo Maranhão, sócio da Invés Finance; Mariana Negri, superintendente comercial de investimentos do Itaú; e Tiago Lima, head de asset management do BTG Pactual — foi claro: o mercado de ETFs avança, mas ainda enfrenta barreiras culturais, estruturais e regulatórias que impedem uma consolidação mais firme.
“O ETF cresce, mas ainda é pequeno porque nasce dentro de uma indústria de fundos gigantesca, que se beneficia naturalmente do juro alto e da cultura de renda fixa do brasileiro”, afirmou Nascimento.
A questão cultural e de hábito também foi amplamente discutida entre os integrantes do painel. No entendimento compartilhado por eles, o Brasil é um país onde a poupança do investidor está concentrada em produtos de renda fixa, o que historicamente reduziu o espaço para instrumentos passivos e de bolsa.
Em comparação, usaram como exemplo os Estados Unidos, onde os ETFs somam mais de US$ 17 trilhões em ativos, muito em função de contar com uma base de investidores que investe diretamente em ações desde muito cedo — diferentemente do Brasil, onde o ETF ainda é visto como um produto “sofisticado” ou “estranho”.
“O investidor brasileiro ainda se incomoda em comprar renda fixa via ticker na bolsa”, analisou Mariana. “Nos eventos com clientes, eles saem encantados com o conceito de ETF, mas se perguntam: qual é a vantagem disso frente ao Tesouro Direto ou a um CDB?”

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Também foi destacado pelos painelistas que, embora os ETFs de renda fixa estejam crescendo, o volume de negociação ainda é modesto — em parte, por questões operacionais: dado que muitos produtos são recentes, surgem desafios técnicos na precificação e liquidez, além de questões tributárias e de classificação regulatória.
Outro ponto de discussão foi o avanço dos modelos de assessoria “fee-based”, que substituem a remuneração por comissão direta sobre produtos. Esse formato, na visão dos analistas, tende a favorecer o uso de ETFs ao alinhar o interesse do assessor ao do cliente, eliminando incentivos distorcidos para a venda de fundos com altas taxas.
“Quando o assessor passa a ser remunerado pelo cliente e não pela indústria, ele tende a priorizar produtos mais eficientes, e o ETF é naturalmente competitivo nesse aspecto”, avaliou Lima, do BTG Pactual.
Maranhão, por sua vez, explicou que nos modelos tradicionais (“commission-based”), o incentivo ainda está atrelado ao spread ou rebate pago por cada produto, o que limita o espaço para veículos passivos de baixo custo. Já as plataformas baseadas em fee-based e carteiras automatizadas alteram essa lógica, especialmente no varejo de alta renda.
“Com mais de 150 ETFs disponíveis, hoje já é possível montar carteiras completas, de perfis conservadores a agressivos, usando apenas esses produtos”, destacou Mariana.
Desafios para a popularização dos ETFs
Entre os principais gargalos apontados estão a falta de isonomia tributária, a baixa liquidez secundária e a necessidade de maior coordenação entre reguladores e participantes da indústria. Também foi apontado um entrave conceitual: mesmo gestores institucionais relatam dificuldades em enquadrar ETFs em limites de exposição de “bolsa”, ainda que o ativo tenha natureza de renda fixa.
Apesar disso, os painelistas são muito otimistas. Eles lembram que o número de produtos saltou de 40 para mais de 150 em cinco anos, e o patrimônio total, de R$ 1 bilhão para R$ 70 bilhões, com crescimento anual superior a 20%.
“Estamos num ponto de inflexão. O terreno está preparado, falta virar a chave cultural”, resumiu Lima.
Para os especialistas, o futuro do mercado passa por produtos simples e eficientes. ETFs de ouro e renda fixa ganharam tração recentemente, enquanto smart betas e fundos híbridos — que misturam classes de ativos, como Bolsa brasileira, S&P 500 e títulos indexados à inflação — aparecem como tendência.
“O arroz com feijão bem feito funciona. É ele que vai massificar o uso dos ETFs no Brasil”, concluiu Nascimento, da XP Banco de Atacado.


