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Gestoras estruturam ao menos dez FIDCs com foco em embedded finance

Érica Polo

Pedro da Matta, CEO da Audax Capital

O primeiro mês de 2025 não chegou ao fim, mas já caminham, por baixo, dez operações para estruturar Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC) destinadas a alimentar a necessidade por crédito de companhias, num modelo batizado como embedded finance. Trata-se de dinheiro que, via de regra, financia as cadeias de clientes ou fornecedores do negócio – ou seja, há a inclusão de soluções financeiras entre os produtos ou serviços oferecidos por uma companhia de um setor não financeiro. As dez operações somam, por ora, R$ 2 bilhões e devem fomentar companhias varejistas, de saúde, tecnologia e do agro, para citar apenas alguns segmentos alvo alimentados por esses fundos.

O conceito de embedded finance não é novo. É quando uma loja de roupas oferece um cartão de crédito exclusivo, ou, em um outro exemplo, um fabricante de automóveis abre uma linha de crédito própria para financiamento de seus veículos. Mas o modelo tende a avançar significativamente, sobretudo no atual contexto de juros altos – quando os bancos apertam os cintos e as companhias buscam alternativas para seguir adiante. João Baptista Peixoto Neto, CEO da Ouro Preto Investimentos, acredita em uma “explosão de FIDCs” com essa característica neste ano. Companhias conhecidas, a exemplo de ifood e Mercado Livre, para citar algumas, têm investido na estratégia, cita.


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Segundo ele, nesse modelo, sócios, controladores ou empresas coligadas, assim como investidores profissionais, qualificados e os de varejo poderão investir cada vez mais em FIDCs, com retornos mais atrativos que outros produtos do mercado. “Daqui a dez anos teremos gestoras de fundos de investimento maiores que bancos médios em ativos sob gestão”, acredita.

Um estudo da Ouro Preto aponta que o potencial de patrimônio líquido (PL) dos FIDCs poderá atingir R$ 2,8 trilhões em 2030 – em 2024, o PL somou R$ 589 bilhões. Peixoto Neto acredita que a onda do embedded finance poderá impulsionar grandes empresas a terem seus próprios FIDC nos próximos anos.

Três, das dez operações citadas, estão sendo conduzidas pela Ouro Preto e devem atender à necessidade de uma companhia de saúde e duas de tecnologia, somando volume financeiro de R$ 600 milhões. Por ora, a gestora não pode abrir mais detalhes. As outras sete estruturações caminham na REAG Asset, Audax Capital e no Edan Finance Group, fintech fundada em 2020.

O avanço dos FIDCs resulta de um processo de desbancarização em andamento no país. Mas num ano como 2025, o alto patamar de taxa de juros leva esses fundos a se apresentarem como uma alternativa importante para muitas companhias buscarem recursos fora do universo bancário, quando as instituições financeiras ficam ainda mais criteriosas na liberação de crédito.

Para o investidor, por sua vez, o FIDC pode ser mais atraente pela forma como o produto é estruturado, com pulverização do risco, em comparação a outros produtos, como debêntures.

A REAG estrutura novas operações com a característica e há outras já em operação nesse modelo que devem crescer a partir de novas emissões nos próximos meses, conta Leonardo Calixto, Co-CEO da REAG Asset. Um dos modelos que já operam, conta, está sendo “plugado” em um marketplace que, por sua vez, fomenta uma cadeia de fornecedores de um determinado segmento – ou seja, não atende à necessidade por crédito de uma só companhia.

“Não podemos abrir nomes agora, mas devemos totalizar três operações (de FIDCs com o perfil embedded finance) no primeiro semestre, até agora mandatadas, que devem somar cerca de R$ 300 milhões”, disse Calixto.

Fronteira agro

Há quem esteja colocando o pé nesse universo pela primeira vez. É o caso de um dos clientes da Audax Capital, sediada em Goiás. Uma revendedora de insumos de Rio Verde, grande polo produtor de grãos, estruturou um FDIC por meio da Audax para financiar produtores da região de Rio Verde e já clientes da rede.

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“Por enquanto é um fundo de R$ 40 milhões com capital próprio. Futuramente é possível que possa haver alavancagem com capital de terceiros”, disse Pedro da Matta, CEO da Audax. É a primeira operação de FIDC realizada pela gestora para os donos da rede de revendas, uma empresa pertencente a um grupo familiar. O nome não foi revelado. Por ora, a revenda optou por estruturar esse tipo de fundo por uma questão tributária, conta o gestor.

Trata-se de um FIDC pequeno para o potencial do negócio familiar, continua Matta. “Eles estão fazendo um teste por enquanto. Só uma operação, ou seja, um de cliente deles, é de R$ 8 milhões. Então, do total do fundo, 20% estarão nas mãos de um cliente”, exemplifica. “A revenda chegou a nós por meio do meu relacionamento na região, já que eles não têm conhecimento de quase nada do mercado financeiro”, complementa.

A Audax, com sede em Goiás, opera em 20 estados e tem a maior parte dos negócios ligada ao agro. A alavancagem do FIDC poderá ocorrer, mesmo que a revenda tenha ainda potencial para injetar mais capital próprio, dependendo da demanda setorial e, também, de um ajuste de expectativas por parte de investidores.

O gestor vê um horizonte de maior tração setorial a partir do segundo semestre de 2025. Ele reforça que bancos e securitizadoras que emitiram Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) ficaram “muito machucados” com a quantidade de recuperações judiciais que se viu no segmento, após anos difíceis devido a quebras de safra geradas por problemas climáticos.

“Analisar crédito no agro é extremamente complexo e o mercado deu uma filtrada. Para quem sabe fazer essa análise vão ocorrer oportunidades muito boas. Estamos de olho nisso”, disse. Há um horizonte mais positivo a partir do segundo semestre de 2025, acredita.

Crédito no varejo

Já a fintech Edan Finance Group acaba de estruturar um FIDC de R$ 60 milhões para atender à demanda por crédito de estabelecimentos comerciais e suas cadeias, como farmácias, supermercados e restaurantes. “A gente percebe que, no âmbito desse conceito, tem oportunidade grande para fazermos a antecipação de recebíveis para os nossos clientes e sua cadeia de valor, a exemplo de seus fornecedores”, diz Eduardo Sgobbi, CEO do grupo.

Uma das empresas do grupo que forma a fintech, a Edan Investment, atende os clientes não financeiros na estruturação de seus FIDCs, os quais, por fim, servem como braços financeiros em operações de antecipação de recursos para fornecedores, por exemplo.

A fintech busca os recursos também entre os seus próprios clientes, e tem conseguido “captar relativamente bem”, disse. O fundo deve ser constituído definitivamente em fevereiro. Por ora, a ideia é que mais dois FIDCs que atendam o modelo de embedded finance sejam estruturados ao longo do ano, num total de R$ 1 bilhão (R$ 500 milhões em cada um deles).

O FIDC de R$ 60 milhões está aprovado pelos investidores. Passa agora por uma fase final de validação de estruturas propostas pelo Edan, já que a ideia da fintech é destinar 70% dos recursos disponíveis para fazer a antecipação de recebíveis e outros 30% para investimentos em títulos públicos. “A ideia é garantir uma certa monetização enquanto fazemos o processo de colocação no mercado”, continua.

Para quem investe, a tese é a de que aportar recursos no FIDC é mais rentável se comparado a outros investimentos. O plano é trazer retorno de 1,5% ao mês.

Parte do capital é utilizado pelo grupo em operações de antecipação de recebíveis de cartão de crédito originadas pela Edan Pay, mais uma companhia que integra o Edan Finance Group. Sgobbi, ex-bancário de carreira, acrescenta ainda que, nessa atividade, o “risco é zero em default de inadimplentes”. Para quem vende a carteira, as operações ficam menos custosas em comparação a um empréstimo porque não há incidência de IOF e, o deságio, é de 2% - inferior aos juros médios cobrados em empréstimos, que podem ser de 7%, cita. “Temos um processo que leva liquidez para os lojistas, com menos custo. Por outro lado, a gente consegue monetizar adequadamente o investidor, mitigando o risco”, finaliza o executivo.


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