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Mercado vê reabertura da janela para emissão de debêntures, e ano traz mudanças na estratégia

Amanda Meneses

Marcos Oliveira Garcia, superintendente de mercado de capitais do banco BV

A oferta de debêntures (com e sem incentivo fiscal) somou R$ 473,66 bilhões no mercado primário até dezembro de 2024 – tornando este ano que passou o melhor da série histórica, iniciada em 2012, para o produto, em volume de emissão. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Apesar da boa safra, no final de 2024 houve uma contaminação dos spreads e uma acomodação das emissões. Já para o início de 2025, especialistas citam uma reabertura da janela de oportunidades, mas com algumas mudanças na estratégia, que incluem prazos mais curtos. Trata-se de uma tendência que deve se manter no primeiro semestre do ano.

A bonança recente ocorreu tanto para os títulos corporativos quanto para as debêntures incentivadas. As debêntures corporativas corresponderam a maior parte do total, mas as empresas captaram o valor recorde de R$ 135 bilhões com os títulos isentos, consolidando 2024 como o melhor ano da série histórica para o produto. Tal desempenho, bem como o de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), gerou uma captação que no acumulado até novembro já superava todos os anos completos anteriores no mercado de capitais.

Ao longo de 2024, os títulos de dívida se tornaram uma opção atrativa de funding em meio ao período de vacas magras da B3, devido ao cenário macroeconômico influenciado por juros a dois dígitos. Em um contexto não muito favorável à renda variável, boa parte do mercado recorreu ao crédito privado, gerando essa captação recorde.

“O volume de captações em crédito privado no Brasil foi muito forte no ano passado. No entanto, essa dinâmica impactou os spreads, que caíram ao longo do ano. Na reta final de 2024, os spreads começaram a abrir", comenta Camilla Dolle, head de renda fixa da XP. “Já notamos uma diminuição no volume emitido de papeis e também no captado pelos fundos de crédito. Esse movimento sugere uma tendência de redução ao longo de 2025, devido ao cenário macroeconômico desafiador e incerto no Brasil.”


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Marcos Garcia, superintendente de mercado de capitais do banco BV, afirma que houve uma acomodação natural das emissões no último trimestre, porque o mercado estava em um processo de fechamento de spreads e de emissões de volumes muito grandes. “Chegou uma hora que não remunerava nem o gestor, nem o cotista. Aliado a isso, também teve um fluxo um pouco negativo nos meses de novembro e dezembro na captação dos fundos, saiu um pouco de dinheiro. O que é natural também”, diz.

Janela se abre

Por ora, no entanto, há uma janela de oportunidade. O especialista menciona que sempre que o patamar de preço muda, há uma “entressafra” natural do mercado, e que hoje essa precificação já está mais equilibrada. “Veremos em janeiro, fevereiro, uma retomada do processo de emissões normal e natural. Claro, talvez não no mesmo patamar do ápice de 2024. Mas o que mudou um pouco diante de um cenário macroeconomicamente mais desafiador, foi, primeiro, o prazo. Os investidores, dada essa visão de longo prazo um pouco mais turva, estão menos propícios a alongar as carteiras”, opina.

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Como houve um processo de arrefecimento no final do ano, alguns emissores optaram em segurar a emissão até o cenário estabilizar um pouco para ver qual é o novo patamar de preço. Com isso as emissões têm voltado aos poucos no início deste ano. Companhias como CCR já anunciaram a emissão dos papéis logo no primeiro mês de 2025.

“As empresas estão emitindo, mantendo a velocidade do período inicial de ano, que é parte de uma sobra de emissões de 2024 que não integralizaram por tempo de registro de oferta ou acomodação da taxa de juros esperada para o fechamento do ciclo”, comenta Eugênia Souza, sócia e head de corporate trust da Vórtx, lembrando que taxa alta de juros traz, aos ativos de renda fixa, maior atratividade.

Segundo Garcia, do BV, existe demanda para comprar crédito privado, mas com um cenário de longo prazo um pouco mais turvo, traz principalmente aos gestores das assets um patamar de preço um pouco maior e prazos menores. “Acho que isso é uma tendência principalmente nesse primeiro trimestre/semestre de 2025. Para mim, o que vai ficar mais marcante são prazos menores de emissão, principalmente nas debêntures institucionais”, opina.

A tese do superintendente do BV é comprovada por Camila, da XP, que ressalta o cenário para 2025 como bastante delicado, com juros elevados e alta incerteza, o que exige cautela redobrada dos investidores ao escolher prazos, indexadores e emissores. “Estamos preferindo papéis indexados ao IPCA, com prazos de até 5 anos, para não alongar excessivamente a carteira, pois papéis mais longos tendem a oscilar mais diante de variações no mercado. Por fim, esperamos uma menor força no volume de emissões ao longo deste ano”, comenta. 

Embora taxas de juros elevadas atraiam investidores, também aumentam o custo de captação das empresas, que precisarão arcar com uma carga de juros bastante elevada para novas emissões. “Assim, esperamos ver uma retração no ímpeto observado em 2024”, lembra Camila. Já Garcia, do BV, está otimista para o ano, mas também acredita que deve ter um menor volume que 2024. 

A head da XP lembra que setores cíclicos, como varejo e locação de veículos, tendem a ser mais impactados pelo ambiente macroeconômico atual. Em contrapartida, setores defensivos, como energia elétrica, saneamento e rodovias, que possuem regulação e repassam a inflação para o preço, devem apresentar maior resiliência. 

Já nas debêntures incentivadas, a head de renda fixa da XP destaca setores defensivos, como energia e saneamento, especialmente por serem isentos de imposto de renda para investidores pessoa física, o que pode mitigar os impactos negativos. “Além disso, esses papéis frequentemente estão associados a investimentos públicos, o que pode favorecer sua demanda”, lembra.

Para Eugênia, da Vórtx, há uma perspectiva positiva de emissões, olhando as debêntures incentivadas e de infraestrutura, que necessitarão de captação para colocar os projetos em andamento. “Por outro lado, temos os geradores fazendo mais governança sobre as dívidas e emissores, e os respectivos covenants [cláusulas contratuais que estabelecem condições e limites para o pagamento das debêntures] da emissão, mais reflexivos sobre o momento certo de aportar em novos papéis”, pondera.

Para as debêntures incentivadas ainda há apetite e, do ponto de vista de rentabilidade, dado o patamar das NTN-Bs, é possível observar patamares recordes de preço. “É uma super oportunidade para pessoa física montar uma carteira de debêntures isentas para o longo prazo. Temos papéis com risco de crédito AAA negociando no patamar de IPCA+7, IPC+7,5%. Em pouquíssimos momentos, olhando para trás, você teve esse tipo de oportunidade”, opina Garcia. “Pegando bons emissores, ainda que no cenário desafiador, macroeconomicamente falando, você consegue ter um sucesso muito grande, uma demanda muito boa, justamente pelos atuais patamares da taxa de juros.”

Para a nova debênture de infraestrutura, no entanto, pode haver algum impacto devido ao cenário, segundo o superintendente do BV. Ainda não houve emissões do produto, porque como o público-alvo, que são os gestores, não tem isenção fiscal, ela concorre com os “papéis institucionais CDI normal”. O lastro é o mesmo, mas na debênture incentivada é possível alçar prazos maiores. 

“Ela tende a ser um pouco mais prejudicada. Nem nasceu, mas já tem um cenário um pouco mais complicado, porque ela não vai conseguir alçar prazos que a debênture incentivada, isenta, permite. Prazo de 10, 12, 15 anos é algo completamente factível na debênture isenta”, opina Garcia.