Aquém das expectativas, pacote fiscal impulsiona juros futuros e dólar

Com o anúncio do pacote fiscal, a curva de juros subiu desde ontem, indicando taxa Selic acima de 14% - com a probabilidade de alta de 100 pontos na próxima reunião crescendo. “Isso aconteceu porque o pacote ficou aquém do esperado pelo mercado”, disse Vagner Alves, estrategista de renda fixa da Kinea.
A reforma do Imposto de Renda, anunciada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estava no radar, mas era uma discussão para 2025 apenas. “A antecipação do anúncio é ruim e reforça uma percepção de que o governo tem dificuldade para fazer um ajuste fiscal relevante”, reiterou o gestor. O dólar já bate R$ 6.
“O pacote anunciado tem dimensões inferiores às necessárias para recobrar credibilidade e alcançar equilíbrio fiscal”, disse Felipe Salto, economista chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda paulista. Em nota, ele avalia que as ações são positivas, em geral, colaborando para o ajuste das contas.
“Entretanto, são insuficientes para produzir um resultado primário adequado à meta estabelecida em lei.” Para Salto, ademais, a mudança no Imposto de Renda “preocupa”, porque poderá representar perda de receita, a depender de como for desenhada a compensação anunciada pelo governo federal.
“Apesar da estimativa contida no pronunciamento indicar um efeito de R$ 70 bilhões, esse montante, incerto, se viabilizado, seria insuficiente para as necessidades do ajuste fiscal e do alcance das condições de sustentabilidade da dívida/PIB”, finaliza Salto. "Cálculo da Warren aponta que isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil custe perto de R$ 45,8 bilhões ao ano."
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Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências, o pacote não ataca o problema do país devido à excessiva participação dos gastos obrigatórios do orçamento brasileiro.
Os gastos obrigatórios, inclusa a vinculação de gastos em saúde, educação, e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – somam 96% dos gastos primários do governo federal. “É uma loucura, não tem nada igual no mundo. Um pacote fiscal de ajuste para ser analisado pelo lado do longo prazo precisa atacar o gasto obrigatório”, avalia.

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Mudança estrutural
Por volta de 17h da tarde desta quinta-feira (27), mais notícias sobre o aguardado pacote fiscal saíam aos poucos. Se a mudança (impopular) no reajuste de salário mínimo já era ventilada ao longo do último mês, passava a entrar na conta a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil, uma promessa de campanha presidente Luis Inácio Lula da Silva.
Os anúncios feitos – ontem pelo ministro por meio de vídeo veiculado em canais de televisão e hoje em coletiva de imprensa – indicam economia de R$ 71 bilhões em 2025 e 2026, e de R$ 327 bilhões entre 2025 e 2030.
O governo federal informou redução de despesas relacionadas ao reajuste de salário mínimo, limitado aos 2,5% do arcabouço fiscal, como já havia sido ventilado. Era a principal mudança estrutural vista pelo mercado.
As mudanças sugeridas por meio de proposta de emenda constitucional (PEC) envolvem abono salarial, Fundeb, DRU, subsídios e subvenções e Fundo Constitucional do Distrito Federal. Projeto de Lei deverá incluir alterações no salário mínimo, Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Lei Aldir Blanc, benefícios sociais e previdência dos militares.
O efeito para juros futuros, dólar e bolsa já eram precificados antes do anúncio oficial, com o vazamento sobre a economia que o pacote traria, de R$ 70 bilhões.
Reação antecipada e inflação
Na quarta (26), os juros futuros alcançavam patamar de 13,5% e 14% em meados de 2025. É que mesmo antes do anúncio oficial do pacote do governo federal, as mudanças sugeridas (economia que rondava R$ 70 bilhões em dois anos e alteração em salário mínimo, entre outras) já tinham sido absorvidas pelo mercado e balizavam os ‘preços’ de juros futuros, real e bolsa.
“O mercado sempre se antecipa. As promoções vão saindo, o mercado já vai colocando isso no preço e tentando, de uma forma ou de outra, se antecipar. O pacote ventilado mais ou menos dessa forma [como se apresentava antes do anúncio: R$ 70 bilhões de economia, mudanças no salário mínimo, etc] já está no preço [dos juros futuros, bolsa, real]”, disse Alves, da Kinea. “De tanto tempo que essa história se arrastou, vazou bastante coisa”, completou.
A principal alteração estrutural, segundo visão do mercado, era a do salário mínimo, disse Alves. “Só que ela não é tão positiva quanto mexer nos mínimos constitucionais de saúde e educação. E querendo ou não, ainda há um crescimento de 2,5% real [no salário mínimo], considerado crescimento do PIB”, continua o gestor da Kinea.
Na visão da gestora, o comportamento da inflação nos próximos quatro ou cinco meses é o principal vetor para observar os movimentos do Banco Central relacionados aos juros. “Estamos bem preocupados com essa inflação de curto prazo”, disse.
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