Crise do metanol expõe falha de governança na indústria de destilados
A recente crise do metanol no Brasil, com casos de intoxicação e mortes provocadas por bebidas adulteradas, expôs um problema antigo e recorrente, mas historicamente negligenciado pela indústria de destilados: a falsificação em larga escala. O episódio não é apenas de saúde pública, mas traz implicações econômicas, regulatórias e reputacionais que mostram como falhas de governança e de gestão de riscos podem agravar crises e abalar a confiança em todo um setor.
Estudos indicam que um em cada cinco rótulos de uísque ou vodca vendidos no Brasil é falsificado. Um levantamento da Euromonitor para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) mostrou que, em 2023, a distribuição do álcool adulterado por categoria era de 32% em uísque, 27% em vodca, 25% em cerveja, 5% em cachaça, 3% em gin e 2% em vinho. Globalmente, estima-se que entre 25% e 40% dos destilados consumidos possam ser ilegítimos, contrabandeados ou adulterados. Mesmo diante desses números expressivos, as grandes destilarias globais trataram o tema, por muito tempo, apenas como questão de contrabando e perda fiscal, mais ligada à arrecadação de impostos do que à segurança do consumidor. A falsificação aparecia, quando muito, diluída em matrizes de risco sob a rubrica de “mercado informal” ou illicit trade, sem conexão direta com o impacto reputacional e de saúde pública.
O surto de intoxicações em 2025 evidencia o custo dessa negligência. O impacto ultrapassa a tragédia humana: bares e restaurantes registraram perdas de até 50% no faturamento, o consumo de destilados despencou, e a confiança do consumidor foi abalada, atingindo inclusive marcas legítimas. Do lado regulatório, o governo precisou criar comitês emergenciais, importar antídotos não disponíveis no país e intensificar a fiscalização em caráter reativo, com alto custo econômico. A conjunção desses efeitos revela que a falsificação não é um risco periférico, mas sim sistêmico, capaz de comprometer cadeias inteiras de valor.

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Se olharmos sob a ótica da governança corporativa, a falsificação deveria ocupar lugar de destaque na matriz de risco das empresas, posicionada no quadrante de alta probabilidade e alto impacto, especialmente em mercados emergentes. Na prática, durante décadas, foi tratada como ameaça de baixo impacto reputacional e probabilidade moderada, inferior a riscos como carga tributária, câmbio ou mudanças regulatórias. Esse enquadramento equivocado levou ao subinvestimento em prevenção, à ausência de planos de contingência e à lacuna de cooperação público-privada. O resultado é claro: empresas e sociedade hoje pagam um preço muito mais alto do que pagariam se a falsificação tivesse sido tratada, desde cedo, como risco central de negócio.
A boa governança exige que conselhos de administração e comitês de risco revisitem suas matrizes e reconheçam que falsificação é um tema que ultrapassa a questão fiscal: trata-se de risco reputacional, de saúde pública e de continuidade operacional. Isso significa investir em rastreabilidade, tecnologias antifraude e sistemas de auditoria; aprofundar parcerias com autoridades públicas e associações setoriais; estabelecer planos de contingência para crises; e ser transparente na comunicação com consumidores e investidores.
A falsificação de bebidas não é nova, mas a crise do metanol mostrou de forma trágica o que acontece quando riscos óbvios não são incorporados à governança corporativa. Para o setor de destilados, o desafio não é apenas combater criminosos à margem da lei, mas assegurar que o consumidor confie que cada garrafa aberta é segura. Incorporar esse tema no centro da matriz de risco e tratá-lo com a devida seriedade deixou de ser opção. É, a partir de agora, uma questão de sobrevivência para empresas, marcas e para a credibilidade de toda a indústria.
Quando falta governança, o risco não é acidente, é destino.
*Jurema Aguiar de Araujo, conselheira de administração.
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