Investidores estão mudando o foco — e poucas empresas perceberam
O capital estratégico não se move por promessas generalistas, apresentações de powerpoint vibrantes, fluxos de caixas futuros mágicos ou modismos de mercado. Todo mundo se lembra das paletas mexicanas. O fluxo de capital se move quando enxerga uma boa ideia com alta capacidade de execução e bom aconselhamento de pessoas experientes e estratégicas que garantam que a oportunidade não seja engolida por buracos negros ao longo do caminho. Em outras palavras, ele segue a confiança. E confiança se constrói com estratégia, gente capaz e governança.
Vivemos em um país onde o custo de capital é um dos mais altos do mundo, o risco é parte do jogo e a alocação de recursos exige muito mais que planilhas: exige julgamento estratégico. A seleção de ativos se tornou mais sofisticada, porque os investidores sabem que oceano azul puro é exceção, mas bons mares navegáveis ainda existem. O problema é que, muitas vezes, deixamos de encontrá-los não por falta de visão, mas por excesso de hábito. Como propõe Adam Grant em Olhe de Novo, o maior desafio não é aprender algo novo, é desaprender o que achávamos que sabíamos. E isso vale para quem investe, para quem empreende e para quem governa. Oportunidades não se escondem, elas se disfarçam de terreno já conhecido. É por isso que, mais do que procurar com intenção, é preciso olhar de novo.
O caso mais recente que ilustra isso com clareza é o da Golf Soul, uma startup brasileira que captou R$ 700 milhões com uma proposta ousada: transformar o golfe, um esporte de nicho em uma plataforma de experiência, estilo de vida e comunidade. O capital investido não foi apenas uma aposta no mercado premium ou na sofisticação da marca e em um esporte que não para de crescer. Ele veio em resposta ao profissionalismo dos empreendedores para sustentar o crescimento: uma tese clara, um time sênior e apaixonado pelo esporte e sobretudo, uma governança que inspirou segurança para navegar ambições grandes sem perder o controle.
Outro exemplo é o da Asaas, fintech sediada em Joinville, Santa Catarina, que oferece soluções financeiras para pequenas e médias empresas. Em 2023, a empresa captou R$ 100 milhões em uma rodada de investimentos liderada por fundos como Bradesco Private Equity & Venture Capital, Parallax Ventures, Light Capital Group, Escala e TM3 Capital. No mesmo período, levantou também R$ 50 milhões por meio de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), ampliando sua oferta de crédito para clientes. O que atraiu os investidores não foi apenas a proposta de digitalização dos serviços financeiros, mas a forma como o Asaas estruturou sua governança desde cedo: conselho atuante, processos de conformidade bem definidos e um modelo de expansão sustentável, orientado por dados e tecnologia e estratégia.

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O investidor não compra o que a empresa é hoje. Ele compra o que ela pode vir a ser. Ele compra a capacidade de execução da liderança. Mas só o faz quando percebe que há estrutura suficiente para atravessar o tempo e a complexidade. E é aqui que entra o papel crítico dos conselhos de administração. Como conselheira, vejo diariamente que investidores estão mudando a forma como analisam risco e retorno. Não é mais suficiente apresentar um valuation agressivo ou um roadmap ambicioso. Eles querem entender quem está por trás das decisões estratégicas, como as dificuldades serão enfrentadas e em qual velocidade, quais são os freios e contrapesos da liderança. Querem conselhos que não sejam apenas órgãos de aprovação, mas mecanismos ágeis, capazes de tensionar, proteger e acelerar a execução com responsabilidade.
O erro mais comum nas empresas é tratar a governança como um ritual burocrático ou, pior, como um preço a pagar para atrair capital. Essa visão míope custa caro. A boa governança não limita a autonomia ela protege a ambição e transforma intenção em resultado real.
O capital estratégico não procura ideias geniais. Ele procura modelos mentais consistentes, gente preparada para tomar decisões difíceis e valores que resistam às inevitáveis pressões do crescimento. O dinheiro, afinal, não segue tendência, ele segue oportunidade e consistência. E só permanece onde existe uma governança que o faça valer a pena.
O arquiteto modernista Ludwig Mies van der Rohe dizia: “Deus está nos detalhes.” E ele estava certo. Mas o tempo e o mercado acrescentaram um contraponto igualmente verdadeiro: o diabo também. O que constrói ou compromete uma empresa no longo prazo raramente está nos grandes movimentos. Está nas escolhas que ninguém vê. Nos processos que não brilham. Na coerência entre discurso e prática.
Jurema Aguiar de Araujo é conselheira de administração e membro na Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC
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