Michaluá: Parceria com Caixa Asset busca alternativas à poupança

Com quase 30 anos operando no mercado de crédito alternativo, a gestora de recursos independente RB Asset conta atualmente com R$ 3 bilhões em ativos sob gestão.
Atuando em três verticais, incluindo imobiliário, infraestrutura e crédito consigando, a empresa foi selecionada pela Caixa Asset, braço de gestão de recursos da Caixa Econômica Federal, em maio de 2026, para constituir e cogerir novos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs).
O movimento acontece em meio ao enfraquecimento da poupança, tradicionalmente o carro-chefe no financiamento ao setor. Com isso, a Caixa alia vasta rede de distribuição e clientes à capacidade técnica da RB Asset de originar, analisar e gerenciar o risco desses créditos estruturados.
Este fundo é uma das formas encontradas pela Caixa de fazer uma captação a mercado para que através de um gestor especializado como RB Asset, a gente possa canalizar estes recursos para financiamento de projetos de perfil residencial.
Em entrevista à Capital Aberto, Marcelo Michaluá é sócio fundador e Co-CEO da RB Asset, comenta sobre os desdobramentos ao figurar na primeira posição entre as três gestoras selecionadas pela Caixa Asset. Michaluá comenta também sobre as perspectivas para os demais pilares da gestora que é uma das principais gestoras de investimentos alternativos e imobiliários do Brasil. Confira:

Marcelo, com esta bagagem de quase 30 anos em inúmeros projetos residenciais, como essa experiência ajuda a RB Asset a navegar neste mercado?
A RB Asset tem este histórico de 30 anos operando no mercado de crédito alternativo. Somos uma gestora constituída por três grandes verticais, imobiliário, infraestrutura e o crédito consignado. A nossa primeira vertical, aquela que é o nosso DNA lá de da década de 90 antes é focada no mercado de fundos imobiliários, com destaque particularmente do setor residencial, no qual temos muita experiência.
São mais de duas décadas de investimento nesse setor, mais de 150 projetos já realizados, mais de 50 incorporadores. Chegamos ao nosso oitavo fundo e agora vamos fazer um follow on. Queremos investir em estruturas de permuta, por exemplo, quando a gente compra um terreno para o incorporador e troca um percentual do Valor Geral de Vendas.
Acreditamos muito na necessidade desse capital alternativo que vem do mercado de capitais através da indústria dos fundos imobiliários ou mesmo através dos papéis de securitização do CRI. E dentro dessa nossa vertical imobiliária, a gente foi consagrado como primeiro colocado numa concorrência recente de diversos gestores chamada pela asset da Caixa. Fomos vencedores dessa concorrência e já estamos num processo para montar um fundo dedicado ao setor residencial, trazendo capital alternativo. Dentro do mote de desintermediação, que é o que fazemos, queremos trazer dinheiro de investidores para canalizar através de fundos ou de papéis no setor.

O que a Caixa Asset está buscando com esta parceria?
A Caixa está buscando uma alternativa ao sistema de poupança que está se exaurindo como fonte de financiamento habitacional e de financiamento da construção para moradias. Infelizmente, o sistema de poupança que sempre foi um carro-chefe do fomento do financiamento ao setor, está fadada de fato, a um processo paulatino de esvaziamento. E isso precisa, obviamente, ser preenchido por estruturas alternativas. Isso acontece por diversas razões, desde as baixas de remuneração comparadas ao CDI até a própria idade média do comprador, na medida em que as gerações mais novas hoje não coloca dinheiro na poupança.
Este fundo é exatamente uma das formas encontradas pela Caixa de fazer uma captação a mercado para que,através de um gestor especializado como RB Asset, a gente possa canalizar estes recursos para financiamento de projetos de perfil residencial.

E como está a estruturação deste fundo em parceria com a Caixa Asset?
Estamos na fase de estruturação do fundo, que é o que vai trazer o produto final, com informações sobre o tamanho, características, escopo, portfólio, parâmetros de elegibilidade, de projetos, etc. É uma discussão que está em curso já há algumas semanas.
Trata-se de um trabalho conjunto, com a RB e a Caixa Asset conosco, muito intenso para que a gente possa fazer um fundo de referência. Arrisco a dizer que somos a gestora com maior experiência e track record de mercado, com quase 20 anos atuando no setor residencial, tendo feito dezenas de operações nos mais diferentes setores.
Também fomos precursores no mercado de securitização. A nossa história se confunde com a própria história da indústria alternativa de crédito.

E como está o cenário para a vertical da RB Asset focada nas debêntures incentivadas?
O mercado de debêntures incentivadas já é um mercado muito importante do país, porque criou uma alternativa de funding ao BNDES e bancos de fomento para projetos de infraestrutura. E é uma indústria já de centenas de centenas de bilhões de reais já emitidos, na qual os fundos de investimento de debêntures incentivadas são grandes compradores desses papéis nas emissões primárias. E são grandes transacionantes do mercado secundário desses papéis.
Essa é uma estratégia muito importante para a RB Asset. Nós temos nessa estratégia mais de R$ 1 bilhão de fundos abertos, distribuídos em plataformas. São fundos que compram debêntures dentro de uma teoria de portfólio, assumindo riscos de crédito, assumindo os riscos regulatórios, porque nós estamos falando de projetos de infraestrutura que cada setor tem a sua regulação.
Temos no nosso histórico de securitização, também uma experiência vasta, tendo feito bilhões de reais em CRIs para financiar diversos projetos de infraestrutura aliada a uma análise de crédito de risco de contraparte. Já atuamos neste setor como os primeiros gestores pelo menos há mais de 10 anos. Nosso fundo de referência, que é o DI resgate D+30, fez 10 anos agora em março deste ano.
E ainda nesta linha temos, um FOF, que é um fundo de fundos, multiestratégia imobiliária. Este é um fundo que investe em cotas de outros fundos imobiliários, em CRI diretamente e pode até investir diretamente em imóveis.
É um fundo antigo que nós reestruturamos: a partir de assembleias aprovamos essa reestruturação e criamos esse fundo novo dentro de um escopo de mandato de gestão mais moderno do que as versões anteriores.

No caso das debêntures incentivadas, a RB tem algum segmento ou foco específico?

PUBLICIDADE
A nossa filosofia de gestão é sempre teoria de portfólio, portanto, diversificação de risco. Então, por exemplo, o nosso fundo, ele tem mais de 100 ativos exatamente para não se concentrar em risco individualizado ou setorial. Então, a gente tem praticamente todos os subsetores da infraestrutura representados nessa carteira de mais de 100 papéis.
Obviamente, o setor de saneamento é uma parcela importante, porque depois do marco regulatório do saneamento, a segurança jurídica trazida pelo marco é uma mudança absolutamente fundamental que trouxe o setor de saneamento para o mercado de capitais.
A debênture passou a ser um instrumento da construção dessa ponte. Porque sem o marco regulatório do saneamento, os investimentos dependiam da capacidade dos orçamentos municipais ou estaduais e mesmo do próprio BNDES ou do FGTS que também era usado para esse tipo de projeto.
Hoje, além destas fontes tradicionais mais subsidiadas e públicas você tem agora o mercado de capitais através das debentures financiando grandes projetos em volumes de atacado no setor de água e esgoto, então é uma mudança.

Qual foi o impacto mais evidente das mudanças regulatórias para o setor de infraestrutura?
O setor de saneamento foi o que mais se beneficiou, e eu acho que aqui tem uma mensagem: Quando você tem a legislação pró-mercado, com um marco regulatório robusto, saudável, previsível, o investimento acontece. Então, isso foi transformacional para a indústria da infraestrutura no setor de água e esgoto.
Nos projetos de infraestrutura, a maturação é muito longa. Então, a estrutura ideal tem que combinar o duration, ou seja, o prazo médio do ativo com um passivo também que seja longo. E essas debêntures de infraestrutura saem com 15-20 anos de prazo, criando uma estrutura saudável de financiamento para os projetos.
Não adianta um projeto de infraestrutura que vai maturar em 20 anos tomar uma nota comercial com duration de quatro anos. Não vai dar certo, porque vai vencer antes do projeto e, em algum momento acaba tendo que reperfilar, esta dvida. Então, o mercado de capitais trouxe essa combinação eficiente de casamento de prazos entre o ativo sobre os projetos e o funding que o investidor consegue alocar dentro de prazo.
Além disso, dentro de um índice de correção adequado também. Porque na indústria bancária, a moeda é o CDI. Na indústria de infraestrutura, é inflação+, porque os contratos, inclusive imobiliários, sempre são atrelados a inflação+. Os nossos fundos que são ‘CDIzados’, a gente compra inflação+ mais na debênture, mas a gente faz um hedge, troca por inflação mais por CDI+.
Porque é natural os contratos de infra nas concessões que exista um ajuste pelo menos pela inflação e quando você levanta o dinheiro com inflação o projeto nasce casado com o índice. O ativo que é o recebível das contas de luz, por exemplo, corrige por inflação e ele tem uma debênture que é a inflação mais, então tá casado.

E como está o cenário na terceira grande estratégia da RB Asset, que é a divisão de consignados?
Começamos a estudar esse mercado muito fortemente entre 2017 e 2018. Avaliando os riscos, as esteiras e todas as variáveis que impactavam essa indústria, que era dominada pelos bancos. Basicamente, no consignado público, que foi onde começamos. Em 2020, a gente conseguiu reinaugurar, inclusive através de um FIDIC, em uma grande operação que era para levantar R$ 300 milhões, e conseguimos levantar R$ 1,3 bilhão, tamanha era a demanda.
Nesta operação, levantamos capital com investidores para democratizar o acesso ao crédito consignado para investidores institucionais do mercado brasileiro que sempre quiseram ter acesso a essa classe de ativos mas nunca conseguiram. Então, a gente também foi um grande precursor dessa indústria através da estruturação e distribuição desses FIDCs. Isso começou, então a gente fez todo o estudo de risco, até que em 2020 a gente lançou quando na pandemia, o CDI caiu demais. E aí os investidores estavam procurando alternativas, a gente veio com esse produto e aí foi um sucesso.
A partir disso, a gente montou outros fundos e, mais recentemente, depois de algumas mudanças societárias que aconteceram na antiga RB Capital, da qual nós somos um spinoff, montamos uma joint venture que é uma gestora especializada em crédito consignado.

E como esta JV atua dentro da estrutura da gestora?
É uma JV entre RB Asset e o ex-diretor executivo do Banco Safra, que era o responsável pela carta de crédito consignado do banco. O Marcelo Xisto, que se juntou aqui, nessa combinação de competências. A gente trouxe toda a nossa expertise de subscrição de risco, estruturação de fundo, gestão de fundo e distribuição.
Ele, com o time que a gente também contratou para dentro dessa JV, que chama Simplix, trouxe a capacidade de originar ativos de uma maneira mais sistemática. Atuamos diferentemente de tudo o que vinha sendo feito na indústria de comprar uma carteira estática, esperar essa carteira morrer e o fundo acabar.
Pelo nosso modelo, a RB Asset se diferencia no mercado pela sua expertise nessas três verticais, mas principalmente pela nossa capacidade de originar e selecionar os melhores ativos, tanto no imobiliário quanto nas debêntures de infraestrutura, como no no FOF de FII, quanto nos FIDCs de consignado.

Que perspectiva você enxerga para a divisão de consignados da gestora?
Nós vínhamos estudando o marco inicial da inflação do consignado privado, que é o CLT. E a gente entendeu que essa classe de ativos, é tão importante ou maior do que o consignado público, que é uma indústria de uns R$ 700 bilhões, e 90% dela nos grandes bancos.
Mas no caso do crédito consignado CLT, estamos falando de 46 milhões de trabalhadores elegíveis com carteira assinada, uma indústria que pode ser igual ou até maior do que o consignado público.
Então, é uma indústria que está começando e que é centrada nos bancos, mas que nós, como gestores, também estamos querendo um pedaço desse mercado para oferecer a nossos investidores uma forma diferente de alocação de crédito consignado. A partir dessa nossa decisão de entrar nesse mercado, nós lançamos dois fundos, dois FIDCs de CLT, que a gente ancorou com alguns investidores na Cota Sênior e Cota Mezanino.
Esses fundos estão preenchidos do ponto de vista de comprometimento, o que acabou criando uma inteligência nova, numa classe de ativo que é altamente atrativa. Porém, o consignado CLT tem o risco operacional do trabalhador e do empregador que recolhe o FGTS e que tem que fazer a dedução da parcela quando o cara toma essa consignação.
Então, aqui tem uma variável de crédito privado que o outro não tinha. É aí que fica mais interessante, porque aí vai da sua capacidade e inteligência de avaliar crédito e selecionar aquele que é bom. É preciso criar critério de elegibilidade para a formação dessas carteiras com filtros para resguardar a saúde da qualidade da carteira, mas dentro de uma estrutura de FIDC, que é ‘trancheada’. Isso é exatamente um tipo de tecnologia de estruturação que a gente tem, que resguardamos desde os primórdios da securitização, porque o FIDC é um veículo de securitização e a gente faz isso há mais de 25 anos.
Leia também: Com R$ 1,1 bi no exterior, ARZ Capital olha agora para o crédito local


