Com R$ 1,1 bi no exterior, ARZ Capital olha agora para o crédito local

Fundada em julho de 2024, a ARZ Capital já acumula R$ 1,1 bilhão sob gestão. O número, por si só, chama atenção. Mas é o modelo que a gestora adota que realmente distingue a casa num mercado repleto de concorrentes.
A proposta da ARZ é simples de enunciar e difícil de executar: captar recursos de investidores brasileiros e alocá-los em ativos de crédito privado americano, entregando retornos em dólar que chegam a 10% ou 11% ao ano e ainda convertendo esse resultado para o real por meio de uma operação de carry trade.
Quem comanda essa operação é Frederico Maluf, fundador da gestora e ex-sócio da XP, onde ficou por nove anos e ajudou a construir o modelo de escritórios de assessoria de investimentos que se tornaria referência no país.
A tese nasceu de um diagnóstico claro sobre o mercado local. Com a Selic em patamar restritivo por tempo prolongado, os spreads de crédito privado no Brasil foram comprimidos pela demanda excessiva, não por melhora dos fundamentos das empresas. Para Maluf, o risco aumentou enquanto o prêmio diminuiu.
A solução foi olhar para fora. Nos Estados Unidos, a ARZ acessa gestores do mercado de middle market e de crédito imobiliário, monta veículos locais que absorvem o capital pulverizado de dezenas de milhares de clientes, e repassa ao investidor brasileiro um produto com volatilidade baixa, prazo definido e retorno previsível.
O modelo resolve dois problemas ao mesmo tempo: o gestor estrangeiro não precisa montar estrutura local para acessar o capital brasileiro, e o investidor nacional ganha acesso a teses que antes exigiam investimento mínimo de US$ 1 milhão, hoje disponíveis a partir de R$ 1.000. Além da estratégia internacional, a ARZ está prestes a lançar sua primeira vertical de crédito local, focada em ativos pulverizados, como processos judiciais de pequeno valor e cartas de consórcio, que dependem menos das variáveis macroeconômicas que a gestora prefere não controlar. Confira:

Como você está vendo o atual momento do mercado de crédito local e qual a estratégia da ARZ para o segundo semestre?
A leitura que fazemos é que o juro elevado, combinado com mudanças tributárias nos fundos exclusivos, aumentou muito a demanda por crédito privado local nos últimos anos. O problema é que essa demanda comprimiu os spreads por excesso de capital, não por melhora do cenário de crédito.
Ao mesmo tempo, as perspectivas de queda de juros que existiam no início do ano foram se dissipando. A convicção que muita gente tinha de uma redução expressiva da Selic já não existe. O mercado passou a precificar um juro terminal muito mais alto do que se esperava.
Isso cria um cenário muito conturbado para as empresas. Com a taxa terminal perto de 13,5%, 14% por um período prolongado, quais setores conseguem pagar quase 20% ao ano de custo de dívida durante muito tempo? São poucos, especialmente os mais alavancados e com receita menos recorrente.
Então estamos muito céticos com o mercado de crédito local. De um lado, o spread comprimiu. Do outro, o risco real das empresas aumentou. O investidor continua querendo CDI, pouca volatilidade, duration curta, mas já não encontra aquela tranquilidade que encontrava antes.

Qual foi o caminho que a ARZ encontrou diante desse cenário?
A gente começou a explorar uma vertente diferente: o mercado internacional, ainda muito pouco acessado pelo investidor brasileiro. Temos preferido a jurisdição americana, que é mais madura, com mais opções de investimento e uma dinâmica saudável em termos de garantias e segurança jurídica.
Lá, você consegue acessar ativos de middle market que entregam dólar mais 9% ou 10% ao ano. No mercado de crédito imobiliário americano, dá para chegar a 10% ou 11% em dólar. São retornos em dólar, com garantias, e num mercado em que o investidor brasileiro praticamente não tem alocação.
Além da rentabilidade do ativo lá fora, ainda existe o carry trade, a conversão de dólar para real. Como o Brasil tem juros muito maiores que os EUA, o investidor recebe um prêmio adicional de 9% a 10% ao ano só para fazer essa troca de moeda. É o famoso carry.
No final das contas, você consegue entregar ao investidor brasileiro um retorno de CDI mais 4% ou 5% ao ano, com uma volatilidade bem menor do que a do crédito local. Ao mesmo tempo, ele está se expondo a um mercado mais estável, menos concentrado e com risco jurídico diferente.

Por que o investidor brasileiro ainda acessa tão pouco esse tipo de estratégia?
Há dois motivos principais. O primeiro é desconhecimento. O produto tem dois vetores de retorno: o ativo lá fora e o carry trade. E a história do carry não é nada óbvia para o investidor de varejo. Ela é conhecida por tesourarias e institucionais, mas para a pessoa física é uma novidade.
O segundo motivo é estrutural. Os ativos que entregam esse nível de retorno em dólar foram historicamente desenhados para grandes investidores, famílias de altíssimo patrimônio, no Brasil ou no exterior. Os mínimos de investimento para acessar esses produtos lá fora eram de US$ 1 milhão.
A ARZ trouxe isso para o mercado com aporte mínimo de R$ 1.000, mantendo o produto restrito a investidor qualificado. Isso foi possível porque a gente monta um veículo local e apresenta para o gestor estrangeiro como um único cliente institucional.

Como funciona essa estrutura operacionalmente?
A gente monta um fundo aqui no Brasil. Perante o gestor estrangeiro, a ARZ é o único cliente. Ele só precisa fazer a documentação do nosso fundo, não precisa lidar com dezenas de milhares de investidores individuais. Toda a burocracia de subscrição, que é a razão pela qual os mínimos lá fora são tão altos, é absorvida por nós.
Dentro do fundo local, a gente distribui para quantos investidores quiser. É a ARZ que responde perante o regulador brasileiro por tudo, regulamento, exigências de capital, relatórios, cartas aos cotistas. Toda a comunicação com essa base pulverizada também é nossa.
Há outros ajustes necessários. Muitos fundos estrangeiros têm chamada de capital ao longo de anos, o que é inviável para varejo. Imagina chamar capital de 10 mil clientes espalhados. A gente absorve esse capital de uma vez.
Também adaptamos o prazo, porque o investidor brasileiro não aceita facilmente um produto de 10 anos. E todos os nossos fundos são fechados, o que protege o gestor da volatilidade do passivo brasileiro.

Como o investidor brasileiro que já tem recursos no exterior deve pensar essa equação?
Para quem recebe remuneração em dólar lá fora e vai usar esse dinheiro no exterior, não faz sentido trazer para colocar no nosso fundo. A vantagem do veículo da ARZ é justamente o carry, que faz sentido para quem quer ter o retorno aqui.
Se o dinheiro já está lá, investe na mesma tese lá mesmo, em dólar, e recebe 10%, 10,5% ao ano em dólar. Está ótimo.
Agora, para o que vai ser efetivamente consumido no Brasil, não tem como fugir: tem que converter, pagar imposto e usar. A sugestão é fazer essa segregação com clareza, o que é poupança, deixa lá e investe lá, o que é consumo, converte e paga o tributo.

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No final, a pergunta relevante é: em qual moeda você quer preservar seu poder de compra? Dado que boa parte do que consumimos tem componente dolarizado, seja importado, seja indexado ao câmbio, faz sentido ter pelo menos uma parcela do patrimônio fora do real.

Como tem sido a relação com os gestores estrangeiros? Eles topam essa parceria?
A experiência tem sido muito positiva. A gente trabalhou com a Bain Capital, uma gestora americana com presença global e cerca de US$ 200 bilhões sob gestão.
Para uma gestora desse tamanho, o volume captado aqui não muda o planejamento estratégico, mas o valor estratégico de construir presença no mercado brasileiro é real.
O que muitos gestores globais perceberam é que montar estrutura local no Brasil, contratar time, entender regulação, lidar com uma dinâmica completamente diferente, tem um custo e um risco muito alto. Então preferem fazer parcerias com quem já conhece esse mercado.
A experiência que tivemos em 2018, quando fundos globais captaram muito com investidores brasileiros e depois viram tudo sair na primeira janela ruim de performance, deixou uma cicatriz.
Quando o fundo tem prazo fechado, o investidor que entra sabe onde está entrando. Ele fica durante o prazo, tem boa experiência e a franquia do gestor fica preservada.

Qual o tamanho atual da ARZ e quais são as estratégias que vocês já têm no mercado?
A ARZ foi fundada em julho de 2024 e nesse praticamente um ano captamos R$ 1,1 bilhão. Tudo em estratégias de crédito internacional, do modelo que descrevemos. Hoje, todo o patrimônio da gestora está nessa vertical.

Do que se trata essa vertical de crédito local que vocês estão desenvolvendo, já que o histórico de vocês sempre foi o exterior?
É o que chamamos de plataforma de crédito pulverizado. A ideia é evitar concentração. Em vez de apostar em grandes emissores corporativos, vamos atrás de ativos muito pulverizados, com tickets entre R$ 20 mil e R$ 100 mil, onde você tem centenas ou milhares de posições na mesma carteira.
São ativos como processos judiciais trabalhistas e cíveis de pequeno valor, cartas de consórcio, entre outros. Nesses casos, o risco principal não é o crédito do devedor, mas a qualidade jurídica do ativo, a certeza de que ele vai ser pago no prazo estimado.
Como são posições muito pequenas e pulverizadas, você analisa o comportamento estatístico da carteira como um todo: prazo médio de recebimento, índice de inadimplência histórico, dispersão. Não dá para analisar crédito por crédito e é justamente isso que reduz o risco de concentração.
O desafio desse tipo de estratégia é escala. Comprar processos de R$ 15 mil ou R$ 20 mil individualmente é operacionalmente pesado. Mas quando você olha o risco-retorno, a resiliência da tese frente a choques macroeconômicos é muito maior do que no crédito corporativo tradicional.

Por que a ARZ prefere buscar teses que fogem do mainstream em vez de competir no que todo mundo já faz?
Há dois motivos. O primeiro é que tem gente melhor do que a gente para fazer isso e em volume muito maior. Seria uma desvantagem competitiva entrar num mercado já lotado tentando se diferenciar apenas por quem somos.
O segundo é que em mercados com menos capital disponível você bebe uma água mais limpa. A assimetria de retorno é maior justamente porque não há concorrência suficiente para comprimir o prêmio. A gente quer estar onde o capital é escasso e onde entramos resolvendo um problema real do ecossistema.
No fundo, o que buscamos é ser menos dependentes de variáveis que não controlamos, como PIB, inflação, curva de juros. Não que elas não importem, mas quanto menos o retorno da estratégia depender delas, mais resiliente é o portfólio.

Hoje vocês alocam essencialmente nos EUA. Já pensam em outras geografias?
Sim. Começamos pelos Estados Unidos pelo motivo mais simples: é o mercado mais conhecido, a referência para o investidor brasileiro, e tem profundidade enorme, muita coisa para explorar antes de precisar ir para outro lugar.
Mas já temos projetos em outras jurisdições. Europa, Ásia, Oriente Médio, tudo está no radar. A análise é criteriosa: quais são as classes de ativos mais interessantes em cada região, quem são os gestores mais bem posicionados para capturar esse retorno, como estruturar o acesso.
A resposta é sim para tudo isso, mas uma peça do tabuleiro por vez. Ainda temos muito trabalho a fazer com a tese americana antes de abrir novas frentes com a mesma qualidade.

O investidor brasileiro tem potencial real para aumentar a alocação no exterior? Hoje, qual é o tamanho desse mercado?
O Brasil é um caso à parte na América Latina. No Chile, na Colômbia, no México, no Peru, a maior parte da poupança dos ricos está fora do país, dolarizada. Isso é histórico, cultural e econômico. No Brasil, o inverso: praticamente 95% da poupança brasileira está alocada aqui dentro.
Há razões para isso. O CDI alto aguenta muito desaforo, enquanto o juro é alto, é difícil justificar sair da renda fixa local. E o mercado financeiro brasileiro é surpreendentemente profundo: se você contar o número de gestoras registradas aqui vis-à-vis outros países emergentes, a diferença é enorme.
E existe um lado irracional. A economia brasileira representa cerca de 1,5% do PIB global. Ter 100% do patrimônio financeiro alocado numa economia que é 1,5% do mundo é uma concentração absurda de risco. A tendência é que esse número vá diminuindo, lentamente, mas vai.

Vocês cogitam o movimento inverso trazer capital estrangeiro para investir no Brasil?
Não fazemos isso, por dois motivos. O primeiro, conjuntural: o interesse do capital estrangeiro no Brasil é cíclico, e no momento atual está menor. Mas isso não seria razão suficiente para descartar a ideia de vez.
O segundo motivo é mais relevante e duradouro: não é o que a gente sabe fazer. Nosso capital é o conhecimento profundo do mercado local, dos alocadores, das plataformas, da base de clientes.
Fui sócio da XP por nove anos e ajudei a construir o mercado de assessoria de investimentos no Brasil. Esse conhecimento tem valor real aqui.
Com uma base de investidores estrangeiros, não temos o mesmo diferencial. Poderíamos tentar importar esse conhecimento, contratar pessoas, fazer parcerias, mas estamos na fase inicial, o mercado local ainda é amplo, e faz mais sentido aprofundar o que já fazemos bem antes de sair para algo diferente.
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