Com 10 anos de estrada e R$ 1,7 tri na plataforma, Vórtx mira DTVM as a service e renda variável em 2026

O sonho de criar uma empresa que usasse tecnologia para simplificar os serviços de backoffice do mercado de capitais virou uma realidade sustentada em números expressivos, mas que não “atingiu seu objetivo, ainda”. A Vórtx completa sua primeira década de vida com R$ 1,7 trilhão de ativos na plataforma, distribuídos em três áreas – fundos (R$ 62 bi), DCM/Corporate (899 bi) e Banking (R$ 701 bi). Nascida do sonho de dois advogados, Juliano Cornacchia e Alexandre Assolini, incomodados com o modelo até então analógico dos serviços voltados à indústria de fundos, a Vórtx foi além do planejado. “Os resultados que a gente atingiu, o tamanho da operação, foi uma grata surpresa. Temos mais de R$ 1 tri na plataforma, algo relevante, mas agora é que começamos um movimento de transformação em massa, com escala. Tem muito a fazer”, comenta Juliano Cornacchia, co-fundador e presidente da Vórtx.
Na entrevista ao Além do Capital, o executivo contou os planos da Vórtx, reforçados recentemente com a compra da Grafeno, que já atuava com BaaS e CaaS, duas apostas da companhia para 2026. “É onde tem uma avenida de crescimento gigante. BaaS e CaaS é um business de tecnologia puro. É mais fácil crescer com escala nestas atividades.” Também para 2026, a Vórtx planeja atuar como DTVM as a service e entrar no business de estruturação de renda variável.

Quando a Vórtx foi criada, há exatos 10 anos, vocês tinham ideia de onde a empresa
poderia chegar? Os números, hoje tão expressivos, surpreenderam?
A gente queria construir algo grande. Sempre foi um sonho. Talvez não desse tamanho. A Vórtx ficou maior do que eu acho que era o plano inicial. Nós olhávamos para o mercado e víamos uma lacuna para ser preenchida. Aonde chegamos hoje, realmente, não era exatamente o planejado, mas quando olho o filme de trás para frente, faz bastante sentido. A Vórtx tem cerca de R$ 1,7 trilhão de ativos em sua plataforma. Os resultados que a gente atingiu, o tamanho da operação, foi uma grata surpresa.

Quais foram os maiores desafios enfrentados nesta primeira década da histórica da Vórtx
e quais os pontos de virada de chave, que deram maturidade ao projeto?
Hoje, estamos na fase mais madura da companhia. No começo da trajetória, na infância da casa, era tudo muito legal. Um desafio para ser realizado, aquela filosofia de startup, com tecnologia, crescimento, gente jovem, pouco processo e muito crescimento. Como sou advogado, era uma quebra de paradigma. Quando começo a empreender, o risco é onde está a beleza do negócio. No começo, a ausência de processo, a ausência de estrutura, era uma rotina. Foi uma parte importante dos primeiros anos da companhia. A partir de 2018, quando passamos a ter sócio, entramos no estágio da adolescência. As coisas começaram a ter um pouco mais de seriedade, mas ainda tinha uma dose de crescimento exponencial e, por este avanço rápido, tinha, obviamente, muita coisa para ser organizada. Em 2021, entrou o FTV Capital na sociedade, sendo a nossa segunda rodada de captação com um volume maior de recurso, R$ 200 milhões.

Qual o impacto da chegada de sócios no crescimento da companhia?
Entre o primeiro movimento, de 2018, para este segundo, foram quase seis vezes de valorização da companhia em menos de dois anos. Isto mostrava que a atração era o mais importante naquele estágio. Sócios foram importantes nesse sentido. Cria uma rotina, uma dinâmica de entrega de resultado. Dali para frente, a coisa começou a crescer. E aquela desorganização que falei que um dia iria arrumar, teve que ser feita. Investimos tempo em processo, em pessoas mais sêniores e olhando para pautas mais estratégicas. Os competidores começaram a ver a Vórtx não mais como aquela startup, mas como alguém que poderia incomodar. Começamos também a fazer algumas aquisições. Começa a ser um negócio que precisa de mais estratégia, mais estatura, governança. No ano passado, tivemos a terceira rodada de captação, quando coroa essa senioridade da companhia.

O que, daquela filosofia inicial, cabeça de startup, a Vórtx ainda conserva 10
anos depois?
Acho que é o que era a energia inicial, essa inquietude do que queremos construir e ainda não está pronta. A infraestrutura que a gente sempre quis fazer para o mercado de capitais, conectada, integrada, simples, ainda não está no estágio que eu gostaria. O propósito de simplificar segue sendo perseguido. Gerar transformação é simplificar com muito (escala). Nós testamos várias funcionalidades, soluções. A jornada de transformação só é vencedora se tiver uma massa grande que você consegue transformar. Temos na plataforma mais de R$ 1 trilhão, algo relevante. Mas agora é que começamos um movimento de transformação em massa. Tudo que a gente faz tem um impacto muito grande. São mais de mil companhias, 5 mil séries no Corporate. Hoje é que a gente está nesse estágio em que as transformações são relevantes.

Das três grandes áreas da Vórtx - Fundos, Corporate (DCM) e Banking – qual a
distribuição da receita? Onde vocês colocam mais energia para crescer?
Não consigo dizer que tem uma área específica. Eu descobri ao longo dessa jornada que, às vezes, um serviço pequeno é porta de entrada de outros grandes serviços dentro da companhia. Uma asset que contrata uma operação de agente fiduciário, de uma debênture, testa a plataforma, gosta do serviço, e traz uma número expressivo de fundos, que é onde temos um business gigante. No fim, acho que as áreas estão bem conectadas. E descobrimos que uma área é hedge para outra. Com juro alto, o mercado de dívidas fica menos aquecido, mas o mercado de FIDC para originar novos financiamentos vai bem. Ele complementa a receita que outra área deixa de gerar. Falando de receita, por incrível que pareça, hoje a companhia é bem dividida, com um terço vindo de cada uma das áreas.

A perspectiva para o universo de FIDCs segue positiva, na sua visão?
Neste momento, a área de fundos, especialmente FIDC, sopra a favor. Só para você ter uma ideia, o mercado de FIDC, hoje, é maior que o mercado de fundos de ações. Estamos chegando em R$ 1 trilhão e, com consignado privado, crédito com FGTS, vai crescer mais ainda. Já tem especialistas projetando que esse mercado vai chegar, em um curto espaço de tempo, em R$ 2 trilhões. É bem relevante. Na Vórtx, temos um pipeline bem grande desse produto específico na área de fundos.

Além dos FIDCs, qual outro produto ou serviço vem puxando o crescimento da operação?
A parte de BaaS (Banking as a Service) e CaaS (Crédito as a Service) que a aquisição da Grafeno, neste ano, vem fortalecendo. Foi a nossa melhor aquisição ao longo da nossa história. Ter adquirido a Grafeno foi um momento bem importante. Estávamos mais maduros, mais preparados para fazer esse tipo de integração, que foi a mais rápida que conseguimos fazer. A Grafeno, hoje, já está operando 100% Vórtx, infraestrutura conectada, time de vendas conectado. Já estamos em uma fase mais avançada na integração, que é o debate de abandonar algumas coisas que fazíamos na Vórtx e usar a Grafeno, ou ao contrário, deixar coisas feitas na Grafeno, alguns serviços, para usar a Vórtx. A marca permanece (Grafeno), mas como um produto aqui dentro. Porque a Grafeno construiu um branding bem legal.

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Ano passado, a Vórtx conseguiu a licença para atuar Sociedade de Crédito Direto
(SCD). Como caminha o projeto?
A operação da Grafeno complementa os nossos planos e muito. A Grafeno é uma empresa que faz banking e credit as a service. E tudo se conecta. O FIDC é um negócio que está crescendo exponencialmente e que demanda serviços de contas Escrow, emissão de boletos, bancarização, emissão de notas comerciais. Tudo faz parte desse pacote e a Grafeno traz pronto para desenvolvermos em cima da nossa SCD. A Vórtx tinha a licença SCD e caminhava para oferecer BaaS e CaaS. A Grafeno, na terra dela, buscando ter autorização da SCD. A união foi perfeita com a Grafeno. Agora que o negócio está totalmente integrado, a gente vai botar muita força no BaaS, que a Grafeno já é bem forte, e no CaaS, que depende de homologação nos entes, no FGTS, INSS, Dataprev. Agora que estamos concluindo essas homologações, vamos botar força total no produto. É onde tem uma avenida de crescimento gigante. BaaS e CaaS é um business de tecnologia puro. É mais fácil crescer com escala nestas atividades.

A compra da Grafeno trouxe também a Galápagos Capital como sócia da Vórtx. Além de
alterar a composição societária, há outros ganhos com a mudança?
Os últimos sócios que entraram na Vórtx são do universo da Faria Lima. São gestores, estão no mercado. Não só a Galápagos, mas a Hix Capital e a Treecorp também, que entraram praticamente na mesma rodada. Os sócios botaram dinheiro, com que compramos a Grafeno. Parte do pagamento foi em ações. Todos têm ajudado bastante em várias coisas. Desde originação de negócios, abertura de portas com outros clientes, integrações tecnológicas. O fato de trazer sócios que estão na Faria Lima, são nativos da Faria Lima, ajudou bastante a navegar nesse mundo.

Setembro foi um mês muito difícil para a Faria Lima, com operação Carbono Oculto e
suspeitas de práticas irregulares. O que dá para tirar dessa história?
A gente sempre tem aprendizado deste momentos difíceis. Mesmo aqui no nosso mundo, tivemos eventos envolvendo CVM, como em 2018 (CVM suspendeu temporariamente a autorização da casa para atuar em ofertas públicas). O evento subiu a nossa barra de compliance, governança. Entendemos que só crescer o preço pode custar caríssimo, se for um problema desses de governança, de compliance. Os eventos de setembro não vou dizer que são irreparáveis, mas vai levar tempo para reparar. O mercado sempre pode ter um melhor nível de governança, controles melhores, regras mais claras, porque, no fim, boa parte dessas discussões tem uma zona regulatória cinzenta que alguns desses andaram. O que dificulta para os players que não estão envolvidos diretamente no escândalo, porque eles veem uma estrutura que em algum momento está descumprindo alguma regra.

Como está o desempenho da Vórtx no ano, em termos de metas e números alcançados?
A Vórtx tem várias coisas que podem ficar melhor, mas se tem uma coisa que acho que fazemos bem-feito é bater meta. A gente tem uma empresa muito orientada para resultado desde sempre. Em 10 anos de companhia, a gente tem uma média de mais 90% de atingimento em grandes linhas nos nossos orçamentos. Receita, custos e despesas e Ebitda. A gente vem, ferozmente, ano após ano, trabalhando para bater metas e este ano não será diferente. A gente está acima do orçamento/Ebitda (102%), está 3% abaixo do orçamento de receita, custos e despesas, super encaixado. Vamos entregar o ano com um crescimento fantástico, e em um ano que teve muito vento contra. Teve hacker no Banco Central, crise de credibilidade na Faria Lima. Mas vamos muito bem.

De onde virá o crescimento daqui em diante, será todo orgânico ou a Vórtx segue
olhando aquisições?
A gente tem uma meta orgânica de crescer entre 30% e 40% ao ano, que é o nosso objetivo, e isso a gente mantém. Tem uma série de conversas em andamento, a gente está sempre falando com potenciais parceiros, é um movimento que a gente não parou. Tem um pipeline grande de coisas que podem acontecer. Para este ano, acho difícil, mais para 2026. A gente olha dois grandes grupos. A gente olha novos produtos. Por exemplo, vamos entrar em estruturação de renda variável no ano que vem, e desenvolver tudo do zero é sempre um desafio. Se a gente achar alguém que faz isso bem-feito, pode ser um movimento (compra). Outro fator importante é o market share, com a aquisições de carteiras ou de eventuais competidores com potencial. Novos produtos e ganho de market share são dois lugares que a gente olha.

Além da estruturação de renda variável, o que está na esteira da Vórtx, em
produtos/serviços, para 2026?
A esteira de CaaS vai estar, em 2026, bem estruturada e operando. A gente já faz algumas coisas hoje e queremos jogar mais força em 2026. Estruturação de renda variável, como disse, será importante. E tem um outro serviço importante que está nos planos, que é a DTVM as a service, ou seja, fazer com que nossos players possam oferecer além de serviços bancários, investimentos nas plataformas deles. Eu já tenho isto internamente, na Vórtx, mas quero oferecer aos clientes. Vou dar um exemplo. Uma plataforma, tipo iFood, já oferece abertura de contas, cartão de benefício. E se ele pudesse oferecer investimentos? Por exemplo, um CDB dentro do iFood, ofertado para sua rede. Não precisa ser uma DTVM, mas pode utilizar uma DTVM as a service e da Vórtx para custodiar os ativos. Um restaurante que opera com iFood que tem excedente caixa a gerenciar poderia investir em um título, sem transferir para outro local. A proposta vai junto com a tese da Grafeno, que já oferece o banking (BaaS), sem o investimento, agora podemos oferecer algo mais completo. Este tipo de serviço (DTVM as a service) vai bem em toda atividade que demanda gestão de caixa.

Onde você imagina a Vórtx daqui a 10 anos? Fazer um IPO está nos planos?
A gente é jovem ainda, tem muita coisa para fazer. Como disse, agora é a hora de implementar as transformações em escala. É nosso grande desafio, até porque muda a liga, tem competidores que estão nessa primeira linha, tem atividades que eu já esbarro nos grandes conglomerados. Entra em outro nível de demanda, requisito de cliente. Outro dia eu vi até o Benchimol (Guilherme Benchimol, da XP) falando que o IPO deve ser o plano Z. Eu concordo com ele. No fim, não é o plano número um porque o nosso business já é extremamente regulado. Claro que eu tenho que dar uma saída para todos os investidores que estão no meu captable. Na jornada de longo prazo, pode ser sim uma etapa importante, mas que demanda um nível de maturidade da companhia que a gente ainda precisa construir. Assim, o IPO vira um benefício e não uma distração. Se eu gastar mais tempo com a governança do que trabalhando na minha atividade, esse pode ser o maior erro do empreendedor.
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