BlackRock planeja fundos quantitativos no Brasil e busca “encaixar” ETFs ativos nas regras locais
Com um currículo que dispensa apresentações e construído em mais de duas décadas de trabalho em casas como UBS e HSBC, Bruno Barino assumiu a BlackRock no Brasil há um ano com uma missão: construir os alicerces para uma nova fase de crescimento no país, em que a casa tem presença consolidada, mas ainda “não tem um market share absurdo”. Com impressionantes US$ 13,46 trilhões de ativos sob gestão, no Brasil, a casa conta com R$ 19 bilhões de AUM (dado da Anbima). No primeiro ano à frente da BlackRock, Barino destravou a oferta de ETFs, com a retomada de lançamentos locais após 11 anos sem novidades, e ampliou a oferta de BDRs de ETFs com 29 novos produtos, chegando a 181 ETFs globais e 5 locais no Brasil. Em outra frente, o CEO passou a ofertar os serviços do braço da BlackRock que lida com “problemas grandes e complexos” – a Financial Market Advisory – também no país. O primeiro contrato já foi fechado, com o governo do Paraná, e outros dois estão na esteira. Na entrevista ao Além do Capital, o CEO Bruno Barino contou um pouco dos trabalhos neste primeiro ano de BlackRock e deu detalhes de planos para o futuro que incluem trazer para o país fundos sistemáticos, estratégia com US$ 350 bilhões alocados na BlackRock, e “encaixar” algum ETF ativo da casa nas regras da CVM, com adaptações.

Você acaba de completar um ano à frente da operação da BlackRock no Brasil. Quais
eram os seus planos iniciais quando chegou à casa?
Acho que, conceitualmente, quem vai tocar qualquer business global deveria se comprometer a trazer para o Brasil novidades, inovação. Acredito que todo mundo deveria ter uma missão como essa. Quando eu decidi vir para a BlackRock, tinha um racional por trás. A BlackRock já tem uma posição muito relevante em termos de market share na Europa, Estados Unidos, Ásia. Claro que mais concentrada em algumas classes de ativos, como ETFs, nos alternativos e reforçados com as aquisições feitas em 2024. Quando você olha globalmente esse quebra-cabeça, o único lugar que a BlackRock tem presença, mas não tem um market share absurdo, é o Brasil, mesmo estando aqui desde 2008. O Brasil vai ser a maior fronteira para crescer, porque é onde tem mais potencial de upside. Foi basicamente este o racional de como entrar no navio que já está andando bem, com uma estratégia focada em alguns segmentos, produtos, e trabalhar para acelerar.

O que foi feito, de prático neste primeiro ano, para acelerar as diferentes
estratégias da BlackRock no Brasil? Houve mudanças organizacionais após sua
chegada?
Quando eu comecei na casa, fiquei muito impressionado com o nível de materialidade, de complexidade operacional e de tamanho, muito maior do que eu via de fora. O nosso business é B2B, basicamente, e precisamos trabalhar na comunicação e no posicionamento para fora do nosso ecossistema. Foi o primeiro ponto. Depois, fomos olhando para trazer inovação para a operação local. Você entra numa BlackRock hoje, o volume de sofisticação, de inovação, de conteúdo, de research que tem dentro de casa, é muito grande. Temos uma equipe muito boa, bem segmentada, um modelo escalável e fomos redesenhando como atender os canais para o cliente institucional, para banco, para tesouraria, para multifamily office, single family office. Contratamos uma pessoa para atender assets, que usam cada vez mais nossos ETFs. Focando em entender a demanda e desenhar a solução. Se você começa a competir por produto, por grade, é commodity. Os resultados começaram a vir nisso.

No universo dos ETFs ou dos ETFs globais, o que foi feito neste primeiro ano?
Em paralelo a esta reorganização, foquei junto com a equipe em destravar a grade da plataforma local. A gente tem, no mercado de asset, hoje, US$ 1,4 trilhão, dado Anbima, e no offshore são os US$ 300 bi mais ou menos, muito menor. Na grade onshore, o último ETF local que a BlackRock lançou foi em 2014. De lá para cá, a casa focou em fomentar a grade que existia e, para gerar escala e dar acesso, buscamos o cross-listing, dando acesso ao investidor brasileiro ao que temos lá fora, via BDR de ETFs, ou ETF Global. O primeiro objetivo foi voltar a lançar ETFs aqui. Lançamos este ano dois ETFs de bolsa que entendemos ter uma complementariedade com o que a BlackRock já tem, o Equal Weight B3 (EWBZ11) e o Cap 5% B3 (CAPE11). Além de destravar o valor dos canais, de voltar a lançar ETFs e de reforçar a grade de BDR de ETFs, a gente começou a ter um pipeline de lançamentos de produto local, falando de gestão de investimentos, que está pegando tração.

Quais os produtos, falando em gestão, que a BlackRock trouxe para o mercado
brasileiro?
A BlackRock tem uma área chamada Financial Market Advisory, que lida só com problemas grandes e complexos. Quando eu conheci, logo pensei: grande e complexo é o Brasil, e decidi trazer para cá. Os clientes potenciais são governos, ministérios, bancos de desenvolvimento, órgãos governamentais que têm como missão resolver problemas grandes e complexos. Esta área da BlackRock, por exemplo, está trabalhando com o governo da Arábia Saudita para mudar a matriz econômica do país e reduzir a dependência do petróleo. São vários problemas complexos que não necessariamente envolvem investimento da BlackRock. A gente começou a desenvolver um trabalho junto com a área aqui, com alguns governos no Brasil, em maio deste ano. Já assinamos o primeiro mandato com o governo do Paraná, que pode levar ao investimento com a gente ou não. Foi o primeiro mandato da área na América Latina, o primeiro mandato de subsoberano de Brasil para alavancar o desenvolvimento econômico. A gente já tem mais uns dois ou três no pipeline que a gente está discutindo, que talvez possam materializar. Outro pilar é o de tecnologia. A gente tem uma oferta de tecnologia cujo core é o Aladdin, ferramenta desenvolvida dentro da BlackRock e depois oferecida ao mercado. Hoje, ela responde a 15% da receita do Grupo. É a ferramenta de gestão, de execução, de investimento mais sofisticada do mercado. Gerencia desde a simulação do impacto de uma ordem no portfólio até a liquidação e a criação do relatório regulatório no final. É uma ferramenta que é capaz de gerar alpha pelo nível de informação. Os clientes são assets, tesouraria de banco, seguradora. A gente já tem um cliente que é público, o Santander. É um processo que demora, mas estamos conseguindo ter uma tração boa com alguns clientes.

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No ano passado, a BlackRock fez três aquisições importantes. Elas têm sinergia
como mercado brasileiro, há algum incremento na atuação local da casa?
As três compras ajudam também a destravar valor. A nossa tese é que o mundo vai mudar. O déficit americano é o que é, e mesmo assim, a fortaleza da economia americana continua como está. Se a gente ver o nível de volatilidade que temos aqui, em nossa bolha, os juros onde estão, ex-presidente na situação que está, déficit fiscal crescendo, o dólar caindo e bolsa subindo, na nossa visão, algumas dessas âncoras macros se perderam e a gente vai ter alguns pilares de desenvolvimento. Investimentos alternativos é um deles. Temos visto demanda grande de nossos clientes. Ano passado foi um movimento transformacional nosso nesse sentido. A gente comprou primeiro o Global Infrastructure Partners, um business de infraestrutura, um fundo, por exemplo, que fez a compra do aeroporto de Heathrow, em Londres, e que comprou a participação da Aliança Energia, da Vale. Uma segunda tendência muito forte é uma transformação do mercado financeiro, de como as empresas e as pessoas vão se financiar. Compramos um business que se chama HPS Investment Partners (EUA), que é uma das plataformas mais sofisticadas de oferta de crédito privado no mercado americano. Quando pensamos em como atender a demanda de clientes no mercado brasileiro, temos uma oferta de alternativos muito mais sólida na mesa. E o terceiro ponto, acho que é mais transformacional, é a Preqin, um provedor de dados de mercados alternativos não listados. A gente vai ter um road show agora para mostrar o HPS para clientes selecionados. O cliente brasileiro que quer investir no exterior em estruturas, veículos de investimento, com perfis líquido, ilíquido, semilíquido de crédito privado, vai ter uma alternativa em nossa prateleira.

Como você avalia o crescimento do mercado de ETFs no Brasil, que ainda é pequeno,
mas tem avançado nos últimos anos?
Acho que os ETFs locais cresceram, mas eu acho que não cresceram tanto quanto poderiam nem no segmento onde deveria. O ETF deveria crescer na ponta, no varejo, no cliente que precisa. Tem que ter acesso a coisas que ele não tem, para o cliente que precisa ter um produto mais barato, mais eficiente. O ETF ainda está num ponto onde quem mais compra é quem tem mais acesso e conhecimento. Acho que é uma evolução. Essa mudança do fee based agora vai ajudar. Nos Estados Unidos, metade dos ETFs são comprados via model portfólios, que são a base do fee based. Você montar sozinho uma estratégia de alocação é difícil. Com essa evolução do fee based, vemos muito escritório de todos os players acelerando rápido nessa direção. O ETF deve começar a ter o crescimento que deveria.

O que você à frente em termos de produtos que a BlackRock pretende trazer ao
mercado brasileiro?
Uma coisa que eu quero focar em trazer aqui no próximo ano, ou no seguinte, é uma oferta de fundos sistemáticos. Temos uma grade grande de fundos sistemáticos internacionais, uma estratégia com US$ 350 bilhões alocados. É uma estratégia que a BlackRock começou a construir 25 anos atrás. Acho muito interessante esse ponto estratégico da BlackRock, de como vamos conectando as peças. O Alladin é o coração da nossa grade de fundos sistemáticos (quantitativos). A gente combina o Alladin com um nível de machine learning que está fora da curva, porque começou lá atrás, com IA. Nos US$ 350 bi em fundos sistemáticos, tem de tudo. O retorno é extremamente competitivo. Fica cada dia mais difícil competir contra um modelo desse com avanço de tecnologia e a profundidade dos data lakes que a gente tem. Hoje, a gente tem mil fatores de decisão mapeados e que crescem todo ano com mais 150 fatores. Fazemos um screening real time de 15 mil ações e 3 mil emissores. Um volume gigante. É humanamente impossível. Não temos nenhum fundo quantitativo local no Brasil.

Nos Estados Unidos, a classe que mais cresce são os ETFs ativos, ainda não
regulamentados no Brasil. Já é hora de abrir esta possibilidade?
Isto ainda depende de uma evolução regulatória. Mas tem alguns que você consegue encaixar o ‘círculo no nosso quadrado’. A gente tem tido algumas discussões com a CVM, que estão sendo positivas. Um exemplo são os ETFs buffers, que têm teto e piso (para a rentabilidade), coisas diferentes que agregam mais valor. A CVM, em um evento na B3, já deixou claro que ETF ativo está na agenda de evolução regulatória, mas não neste ano. Não foi priorizado ainda para esse ano. Tivemos uma reunião, um tempo atrás, com a Marina Copola, e a CVM foi muito aberta a discutir com o mercado soluções como encaixar o que você quer fazer, no arcabouço atual. Alguns ETFs ativos com adaptações pequenas dá para encaixar no ambiente regulatório atual. A gente tem feito esse trabalho aqui. Ainda não estamos divulgando ainda quais poderiam ser adaptados.

Tem lançamento de curto prazo na agenda, para a reta final de 2025?
Vamos lançar um fundo de money market para gerir nossa liquidez, nosso caixa. A gente vai, em paralelo, avaliar como criar os veículos de investimento para gerenciar o que pode vir de liquidez, ou não, nesses mandatos de Advisory que estamos criando. Temos os feeders fund offshore, que são customizados para o cliente, temos uma demanda crescente para fazer. São estratégias customizadas. Alguns compram só um fundo, outros dois, três. Até o final do ano devemos lançar uns dois feeders. Em renda fixa, a gente está agora na jornada de encaixar o modelo de gestão do ETF de renda fixa no nosso modelo operacional, para destravar um pouco mais para frente.
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