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A meta de inflação de 3% é ambiciosa, mas necessária para ancoragem, afirma Braz, da FGV Ibre

Jiane Carvalho

André Braz, superintendente Adjunto para Inflação da FGV Ibre
André Braz, superintendente Adjunto para Inflação da FGV Ibre

Com um juro básico elevado, a 15% ao ano, e inflação em queda, mas ainda rodando acima da meta do Banco Central (BC) de 3%, o mercado segue projetando primeiro corte na Selic em janeiro de 2026. Isto, claro, se nenhuma novidade que dificulte ainda mais os esforços para controlar o índice de preços. A inflação dos últimos anos não é um fenômeno apenas local, mas afetou diferentes países e mudou o patamar de juros globais. Para entender a nova dinâmica de preços e os limites, hoje maiores, para controle da inflação via política monetária restritiva, a Capital Aberto conversou com André Braz, superintendente Adjunto para Inflação da FGV Ibre. O especialista destaca que hoje há “resistências” maiores que dificultam os efeitos do juro alto no controle da inflação e defendeu a manutenção da meta de 3%. Acompanhe:

Os últimos anos foram de índices de preços pressionados globalmente. A dinâmica de
formação preços mudou, tornando mais difícil conter a inflação?

Sim. Embora choques de oferta globais (commodities, cadeias, tarifas) estejam cedendo, os itens de núcleo, especialmente os serviços livres, mostram maior rigidez. Com o mercado de trabalho aquecido e salários subindo, a inflação desacelera mais lentamente, o que reduz o alcance da política monetária.

Neste contexto, a política de juros tem menos efeito do que no passado?

Parcialmente. A política monetária funciona, mas enfrenta “resistências” maiores. Uma parcela significativa da inflação é doméstica e tem origem inercial, em serviços, contratos. Choques externos agora têm alcance direto maior, em combustíveis, tarifas, logística. Além disso, as expectativas têm influência cada vez mais decisiva e se elas estiverem desalinhadas, o efeito de um ajuste de juros demora a se propagar.

Qual é a avaliação da dinâmica recente de preços, nos meses de agosto e setembro? 

Em agosto, o IPCA teve deflação de 0,11 % frente a julho, o menor resultado desde 2022 e puxado por habitação, alimentos e transporte. Em setembro, a prévia, o IPCA-15, já subiu 0,48%, sinalizando recomposição. A favor da descompressão temos a desaceleração da atividade econômica e a deflação pontual de bens. Por outro lado, temos contra a pressão de serviços e a “volta” de itens administrados ou sensíveis, como energia.

No Brasil, houve mudanças setoriais que dificultam o controle do IPCA?

Tivemos sim. Eu destaco duas transformações estruturais. A primeira é o maior peso relativo da inflação de serviços e contratos anuais (aluguéis, planos, educação) — que reagem de forma mais lenta. Também é importante a maior participação de itens administrados, como tarifas, energia, combustíveis, sujeitos a choques externos, muitas vezes fora do alcance direto da Selic.

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Quais componentes do IPCA ainda são motivo de preocupação no curto e no médio prazo?

No curto prazo, temos o setor de serviços ainda firme, componentes administrados, energia, combustíveis, e alimentos, especialmente dependendo do clima. No médio prazo: as expectativas inflacionárias, se permanecerem acima da meta, tendem a reforçar repasses e reajustes. A “inércia” dos preços pode capturar correções adicionais.

A melhora nas expectativas do mercado, apresentadas no Boletim Focus, já deveria
pesar nas próximas reuniões do BC? 

A queda recente nas projeções é um sinal encorajador e deve entrar no radar do Comitê. Mas ainda é cedo para basear decisões apenas nisso. O BC tende a aguardar confirmação nos dados correntes (IPCA cheio, núcleo, serviços) e no comportamento da atividade. Ou seja: será um fator considerado, mas não decisivo isoladamente.

O que esperar para o IPCA nos próximos meses? 

Prevê-se uma trajetória oscilante com possibilidade de recomposição em alguns meses — especialmente por itens administrados, mas com tendência moderada, dada a fraqueza gradual da atividade. Em 12 meses, poderão oscilar ao redor de 4,5% a 5,5% enquanto a desinflação de serviços e o alinhamento das expectativas não se consolidarem.

A meta de IPCA de 3% hoje é adequada? Faz sentido revisá-la?

A meta de 3% é ambiciosa, mas necessária para ancoragem. Revisá-la para cima corroeria a credibilidade; para baixo, exigiria intervenção muito mais forte. No estágio atual, manter o compromisso com 3% fortalece o regime monetário e sinaliza consistência, desde que o BCB demonstre firmeza e gradualismo.

Um corte na taxa Selic em janeiro de 2026, como prevê boa parte do mercado, é plausível?
O que pode atrapalhar?

Esta é a expectativa de mercado, mas depende de condições concretas. Para que aconteça, é necessário desaceleração convincente dos serviços, expectativas próximas da meta, e inflação corrente sob controle. Entre os riscos que podem inviabilizar, temos choques externos (commodities, energia), deterioração fiscal, pressões salariais inesperadas, serviços resistindo à descompressão. Se tudo caminhar bem, a trajetória do IPCA pode abrir espaço para cortes em 2026 — mas o timing está sujeito à confirmação dos dados.


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