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Casa com R$ 8,2 bi sob gestão, Orram prepara entrada em FIDC de consórcios

Jiane Carvalho

Leandro Andrade, CEO da Orram Investimentos
Leandro Andrade, CEO da Orram Investimentos

Com R$ 8,2 bilhões de patrimônio alocados em 45 FIDCs, a Orram Investimentos foca na concessão de crédito para o Middle market com a maior parte dos produtos na modalidade multicedente multisacado. Na realidade, a gestora criada em 2021 já nasceu relativamente grande, com R$ 2 bilhões de patrimônio oriundos do acordo para gestão dos fundos do Sifra, que oferece soluções de crédito. As duas casas são investidas do Grupo Osher, liderado por Marco Rennó. Esta sinergia entre as companhias do grupo, que incluem a Okno, de crédito estressado, e a Vero, que origina e estrutura CRIs e CRAs, é parte da estratégia que dá suporte à Orram. “São casas independentes, mas com um cross selling forte. Se uma empresa que tem FIDC conosco tem problema, posso acionar a Okno para me ajudar numa estratégia de NPL”, explica Leandro Andrade, CEO da Orram. Na entrevista ao Além do Capital, o executivo contou um pouco do racional por trás das escolhas da gestora, da decisão de, “por enquanto”, apenas observar o crédito consignado privado pelas novas regras, e do novo FIDC em estruturação, que marca a entrada da Orram no segmento de consórcios. Acompanhe:

Como a casa vem se diferenciado em um ambiente, dos FIDCs, cada vez mais competitivo?

Hoje, nós já temos R$ 8,2 bilhões na carteira em 45 fundos de crédito, pessoa jurídica. A casa, quando surgiu, foi com essa especialidade que chamamos de multicedente/multisacado, com uma pulverização muito alta. Conforme a gente foi criando aprendizado e agrupando dados, porque a gente acaba sendo também um hub de muitas operações de crédito, fomos ampliando a atuação. Hoje, tem fundo de um único cedente, vários sacados, outros fundos de vários cedentes e um único sacado, e assim por diante. É preciso ficar muito atento não só ao crédito, mas também à estrutura do FIDC. Nesta modalidade, são FIDCs com carteiras que mudam a cada 30, 45 dias. Títulos de curtíssimo prazo. Em estruturas pulverizadas, é preciso ter não só uma visão de crédito, mas uma visão de controle, de monitoria daquele crédito para evitar riscos de fraude ou outras naturezas. Sem falar na qualidade da empresa patrocinadora. É preciso ter uma análise de crédito muito profunda e uma robustez da empresa. Além da estrutura de subordinação. A Orram investiu numa base muito forte de tecnologia para acompanhar o crédito de forma sistêmica. E à medida que a gente consolidou essa primeira fase da empresa, nós notamos oportunidades para estruturar os FIDCs monocedentes, já usando uma estrutura de monitoria e tecnologia muito similar à que eu controlo nos multicedentes e nos multisacados.  

Dentro da estrutura de subordinação característica dos FIDCs, como a Orram atua?

A gente divide esse capital em três classes de risco. Na Orram, a gente estrutura o FIDC com as empresas parceiras ou os originadores alocando capital na cota júnior e assumem toda a primeira perda. É superimportante para alinhamento de interesse, que o participante, originador, consultor de crédito, a empresa esteja no risco junto. Isto evita uma relação muito assimétrica. Como, em geral, são os donos das empresas ou as próprias empresas, como cotista, ele tem total interesse alinhado na saúde financeira do fundo. Para patrocinar, ele entra na cota júnior. A gente faz a estrutura de alavancagem através dos nossos fundos de fundo, dos FIDCs, investindo em suas cotas sênior ou mezanino. E complementa a estrutura de capital para que esse FIDC possa operar dentro dos aquários que ele se propõe, sempre em teses específicas.

Você mencionou 45 fundos, mas dos diferentes tipos de cedente e sacado, qual é o
principal produto e quem é o público PJ? 

Mais ou menos 60% é multicedente e multisacado. Temos outras teses na Orram, mas o grosso está no crédito PJ. Sobre o perfil dos nossos clientes, a gente percebe na base, em termos de faturamento e de posicionamento das empresas em suas cadeias, que faturam entre R$ 500 milhões e R$ 15 bilhões por ano. São empresas médias e grandes, em geral, líderes no seu segmento de atuação ou na região geográfica que atua. Especialmente quando você fala de fundos multicedente e multisacado, a gente olha muito empresas que acabam sendo líderes e têm uma robustez financeira muito forte. Preferimos empresas que, eventualmente, já são mais preparadas financeiramente, entendem que ter um FIDC pode ser um diferencial estratégico para o negócio dela. É tudo muito baseado no relacionamento e na originação própria que a gente tem.

Quem é, hoje, o investidor dos fundos da Orram? Há interesse na casa em estruturar
FIDC para o investidor de varejo, conforme possibilita a CVM 175?

Hoje, 95% da nossa base é de investidor institucional. A gente, enquanto sócio da empresa, investe R$ 1,8 bilhão de capital próprio dos R$ 8,2 bi que temos de patrimônio. A gente acaba sendo um grande investidor dos nossos produtos. O restante, são Family offices, private banks, gestoras de recursos que alocam capital em nossos FIDCs, desde casas que investem em renda fixa, até multimercado e crédito. Uma parte também nas tesourarias dos bancos. Agora, quando falamos do público que a CVM 175 permitiu, o chamado varejo tradicional, existe uma série de regras específicas que o fundo tem que ter. Nosso foco hoje é o institucional. Toda nossa cadeia de produtos, de atendimento, foi criada para atender a este público e temos, ainda, muita oportunidade para trabalhar nesta faixa. Os FIDCs ultrapassaram R$ 700 bilhões de PL, mas numa indústria que movimenta mais de R$ 7 trilhões. Tem um espaço grande para crescer. A gente estuda, obviamente, esta possibilidade (FIDC para o varejo), acompanha os parceiros, mas não nos posicionamos de forma explícita sobre o tema. Ao menos por enquanto, não.

O número de FIDCs cresce de forma acelerada nos últimos anos, assim como casas
que não tinham expertise no tema, mas que decidem criar seus produtos. Quais os
cuidados neste movimento?

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O arcabouço regulatório para os FIDCs é muito forte, bom. Quando você olha mesmo a 175, que é super nova, ela traz para esse investidor de varejo uma série de proteções, cota sênior, ativos com rating, padronizados etc. Existe, porém, um distanciamento das casas que originam, estruturam esses ativos, em relação ao investidor. Elas têm trabalhado o educacional, investem em lives, eventos. Quando você fala com o investidor institucional, a gente senta e explica. No varejo não tem isto. A estrutura regulatória hoje é muito bem feita, acho que isso protege muito quem está participando dessa indústria. Do lado das novas casas que estão criando seus primeiros FIDCs, há questões importantes. A primeira é ter proximidade do ativo, a originação. Por isso que não entramos nesse mar aberto para procurar as empresas. Sempre estou com alguma empresa âncora, algum parceiro âncora, que tenha relacionamentos naquele círculo. A segunda, eu diria, é que estruturar FIDC dá muito trabalho. Não é uma prateleira, uma impressora de FIDC, é quase uma alfaiataria. A casa tem que ter expertise e não é barato desenvolver. Sem falar de um processo para monitorar aquele credito. A gente processa por dia, em termos de volume financeiro, de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões em operações de crédito. Eu diria que esses três pilares, originação de qualidade, estruturação e monitoria são pré-requisitos para quem pretende atuar em FIDC.  

A Osher tem outros braços, além da Orram, como a Vero, de crédito privado, e a Okno
Capital, de special sit. Tem algum tipo de sinergia entre as investidas? 

O grupo Osher é uma casa de coinvestimentos. Dentro do tema de crédito, a Osher tem três empresas investidas. A Orram é a mais antiga. A segunda é a Okno, de crédito estressado (NPL). A outra é a Vero que atua na originação e estruturação de títulos e valores mobiliários, especialmente CRIs e CRAs. As casas têm estruturas próprias, mas podemos ter um cross selling bastante forte. Por exemplo, eu estou aqui no mercado High Yield, que é o meu mundo, e se uma empresa que a gente tem um FIDC tem algum problema, eu posso acionar a Okno para me ajudar numa estratégia de NPL. Virou um distressed. E no contrato também. Uma empresa que a gente atende, que melhorou o risco, deixou de ser uma empresa High Yield, e tem, por exemplo, ativos imobilizados, e quer fazer uma operação via mercado de capitais, como um CRI, podemos acionar a Vero que dá suporte. Cada empresa, obviamente, tem as suas decisões de crédito e comitês separados, mas acaba sendo um hub de originação bastante interessante para nós e complementa dentro, digamos, de uma visão de crédito, desde operações mais estruturadas, como o CRI, o High Grade, passando pelo meu mundo High Yield, até o mundo do NPL.

Dentro da realidade dos FIDC, o que ainda falta na grade da Orram? Vocês atuam, por
exemplo, com consignado? 

Temos sim, mas em temos percentuais do portfólio é muito pequeno. A gente tem, hoje uma carteira de R$ 90 milhões de consignado privado, construído antes da nova regra. A gente está olhando muito esse tema. Tentamos entender melhor questões que estão sendo resolvidas no âmbito do novo sistema, da Dataprev, sobre garantia etc. A gente conhece muito o tema. Tem que ter a segurança operacional. Na nossa visão, o sistema ainda tem melhorias para serem feitas como, por exemplo, acessar as garantias de FGTS, que hoje você não acessa, da rescisão, e assim por diante. Tem riscos operacionais a serem entendidos. Precisa estar mais sólido e não temos pressa. Quando a gente olha para os números, cerca de R$ 40 bilhões já foram originados na modalidade nova, é o mesmo número de todo o consignado gerado antes da nova norma. Nos interessa sim, mas vamos aguardar um pouco.

A mudança no IOF para FIDCs atrapalhou, de alguma forma, a busca por capital para
os produtos?

Acho que teve um instante, no começo, de choque. Obviamente, depois disso, você começa a ver o fluxo e, se perdemos negócio, foi zero ou muito pouco. Mas tem algumas questões importantes. Tem um FIC de FIDC, por exemplo, que acaba tendo IOF nessa primeira camada e na segunda camada do FIDC. E atrapalha a indústria. Estruturas de FICs precisam ser reestudadas, de como vão ser feitas as próximas alocações para evitar você pagar duas vezes o IOF.

Quanto a Orram deve captar nos FIDCs até o final do ano? Qual a perspectiva para os
próximos meses?

Metas são ter sempre produtos com rentabilidade boa para o investidor e não perder dinheiro. Se fecharmos o ano com R$ 9 bi, R$ 8,5 bi, vai ser uma consequência. Eu sempre gosto de olhar a estrutura que temos, o quanto dá para crescer. A estrutura está preparada para chegarmos a R$ 9 bi. Não seria surpresa a gente ultrapassar este volume. O trabalho de estruturação do FIDC, naquele conceito de alfaiataria, gasta tempo, energia e pessoas para depois ter algo escalável. Trabalhamos com safras, ponho no ar tantos FIDCs este ano e libero o espaço do time para novos produtos. Neste conceito, a Orram está terminando algumas safras nos próximos meses. Tem um fundo novo que a gente está em uma fase já mais avançada no tema de consórcio, que é novo na casa. É um fundo novo que vai sair logo. Estamos estruturando o produto.

Nos últimos anos, várias gestoras mono produtos ampliaram o leque de modalidades fundos
ofertados no mercado. A Orram pensa em atuar além dos FIDCs?

Sempre olhamos oportunidades no mercado, mas a gente acha que tem tanto espaço no mundo de FIDCs que agora seria desviar o foco. Estamos na primeira onda, digamos, dos FIDCs. Desfocar e ir para uma outra frente nesse instante, eu não acho que é uma estratégia que vamos buscar. No nosso entendimento, o FIDC é um veículo de crédito privado estruturado, pode ser de natureza imobiliária, de natureza do agronegócio, consignado, pode ser um crédito pessoa física. Eu diria para você que nós estamos muito mais olhando os ativos o ponto de vista de crédito e que isso eventualmente 95% vira FIDC do que necessariamente olhar para outros tipos de fundos. Nos Estados Unidos, mais de 85% das operações de crédito estão nas mãos dos fundos e mercado de capitais e 15% nas mãos dos bancos. No Brasil, os dados mais recentes mostram que, na margem, esse ano o mercado de capitais foi superior à concessão de crédito bancária. Vamos explorar um pouco mais as oportunidades no mundo do FIDC.


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