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Corano Capital planeja levar carteiras dos super ricos para clientes com menos capital replicarem

Jiane Carvalho

São 20 anos atuando no mercado americano e uma história que inclui mais de uma década como piloto de motovelocidade, após uma doença que o fez repensar seus passos, e uma vida de trabalho iniciada aos 15 anos depois de uma “lição de moral do avô”. Simplificando bastante, esta é parte da trajetória de Bruno Corano, CEO da Corano Capital, uma wealth management e gestora com sede em Nova York. Embora comece a entrevista ao Além do Capital afirmando que “não tem aquelas histórias tristes, que a família era pobre”, sua história foge do corriqueiro. Formado em economia pela Universidade da Pensilvânia, Corano tem uma wealth com US$ 2,2 bilhões administrados e um braço no Brasil, reforçado após fusão com outra wealth local. Na entrevista, o executivo conta um pouco da sua trajetória, iniciada em uma cantina de colégio e que indiretamente o levou a Nova York, e dos desafios para desenvolvimento de uma nova cultura de investimentos no Brasil. Acompanhe:

Você é um ex-piloto de motovelocidade que atua no mercado financeiro, no comando da
Corano Capital. Como estes dois universos se conectaram?

Não tenho aquelas histórias tristes, que a família era pobre e passava dificuldade. Minha vida era muito boa, só que eu era terrível e o meu avô cortou a grana, me deu uma lição de moral e eu resolvi trabalhar na cantina de um colégio, aos 15 anos. Nesse primeiro emprego, eu conheci o presidente do sindicato das escolas particulares de ensino, o José Aurélio de Camargo (Zé Aurélio), que era um megainvestidor. Comecei a trabalhar para ele em tarefas simples. Ele comprava empresas, gerenciava o próprio patrimônio e fui aprendendo. Depois de cinco anos, assumi a parte de investimentos, que contemplava o Wealth Management e alguns fundos. Eu me tornei o braço direito dele. Um tempo depois ele faleceu, em 2004, mas antes tinha deixado tudo muito preparado. Eu simplesmente transferi as operações que já cuidava para o meu CNPJ novo, da Corano. Eu nasci herdando um legado que foi começado por ele.

E onde entra a motovelocidade nesta história e sua atuação no mercado americano?

Fui fazer faculdade de economia por influência dele, que era economista. Eu tinha concluído o ensino médio no supletivo e sabia que não conseguiria passar em uma Fuvest, para fazer uma boa faculdade. Foi quando ele sugeriu que eu me aplicasse em alguma universidade de fora e foi o que fiz. Neste momento, já no exterior, descobri um tumor ósseo. Decidi voltar ao Brasil, foi tudo muito rápido. Operei, cuidei e repensei várias coisas. Eu trabalhava como  um maníaco. Como não morri, decidi “curtir” um pouco e correr de moto, mas profissionalmente, porque sou muito competitivo. Eu tinha 25 anos na época. Nunca deixei de trabalhar no mercado financeiro, mas me tornei piloto profissional por 17 anos.

O que você herdou exatamente da empresa do Zé Aurelio e o que foi depois
adicionado na Corano? 

Ele tinha o escritório no Brasil, mas com alguns investimentos no exterior. Eu passei a atuar de Nova York, onde a Corano está baseada. Um dos fundos que o Zé Aurélio já tinha instituído e que continuei foi um private equity. Muitas pessoas me conhecem por causa de alguns negócios. Eu, como pessoa física, sempre gostei de tentar dar minhas tacadas. A Corano tem, hoje, uma área de wealth e outra de asset management. Eu nasci (Corano) de portas fechadas, atendendo as famílias herdadas. Eram sete. E eles foram indicando outros clientes. Até hoje, eu não faço prospecção. Até dois anos e meio atrás, todos os investidores que nós atendíamos eram pessoas com muito recurso, mas a gente tem ampliado o acesso a outro público.

Vocês reduziram a barreira de entrada para ser atendido na Corano? Foi este o
movimento?

Foi quando eu comecei a me expor mais nas redes sociais e criar um podcast. Naquele momento, começou a ter procura de pessoas que não necessariamente têm muito dinheiro. Eu brinco que, para o cliente que me procura com R$ 50 mil, ter a assessoria é mais importante do que quem tem R$ 10 milhões. A margem para um erro é muito menor. Eu tentava dar um amparo, mas eu não tinha estrutura. Foi quando comprei outra Wealth no Brasil para começarmos a atender um perfil menos exigente de clientes. A operação tem um ano e meio e não é fácil ter viabilidade atendendo cliente com menos recurso. Mas temos conseguido. Nosso trabalho é diferente. Uma pessoa que tem R$ 10 mil é atendida pelo gerente do banco. Se tem um pouco mais, vira private no banco ou em outras estruturas, de plataformas como XP, BTG. De qualquer jeito, quem te atende é um vendedor, tem viés de vendedor. Ele não é um gestor. Não entende de planejamento financeiro, blindagem de patrimônio, sucessão, não sabe da parte fiscal e suas estratégias. Nos bancos tem muita gente boa, que faz gestão, mas quem oferta o produto não tem acesso a ele. Eu não sou grande, mas tenho gente altamente qualificada para atender o cliente.

Quanto vocês têm, hoje, de recursos administrados na Corano Capital e qual a estrutura
que vocês utilizam?

Hoje, temos US$ 2,2 bilhões e eu consegui, ao longo destes 20 anos, ir montando aos poucos uma estrutura de sócios e um time ultra especialistas. Se um cliente chega, por exemplo, com R$ 10 milhões para investir, todos aqui vão parar para ouvir as demandas, e propor soluções. Na verdade, eu brinco que sou o mais burrinho, o único sem mestrado da turma. Não tem tantas camadas entre nós, sócios, e os clientes. O Danilo Santiago, meu sócio, tem um currículo monstro. Ele roda uma das nossas estratégias de equities. São estas pessoas que atendem o cliente e depois põem a mão na massa. Não é uma estrutura comum.

Você falou que há dois anos e meio comprou um family office. É este, hoje, o braço
que vocês têm no Brasil? 

Eu já tinha escritório em São Paulo, mas para atender só os clientes que já tinha, em torno de 80 pessoas. Eu comprei o family office para ampliar. O Daniel Faria era um grande amigo e tinha montado o escritório, e conversando, eu disse que tinha interesse em montar um no Brasil. A conclusão foi que seria mais interessante atuarmos juntos e fundirmos as operações. Hoje, o braço da Corano em São Paulo capta os clientes locais. No braço de Nova York, tem tanto clientes brasileiros quanto estrangeiros. No Brasil, que é relativamente novo, temos perto de R$ 480 milhões sob administração atendendo a uma camada de renda inferior.

O que os investidores brasileiros procuram para investir? Quais as tendências de
alocação? 

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A primeira coisa que eu diria é que até uns cinco anos atrás só pessoas com muito dinheiro investiam fora do Brasil. Desse tempo para cá, mudou. Mais pessoas querem investir em dólar e quando pensam neste movimento têm dúvidas sobre segurança, ativos, etc. São poucos players brasileiros aqui nos Estados Unidos, pouquíssimos, com alcance global, que podem comprar ativos em qualquer lugar. A legislação brasileira é um tanto quanto restrita. Aqui, por exemplo, uma Interactive Brokers, que é nosso principal parceiro, compra ativo de qualquer lugar do mundo. Tudo isso significa que a gente fica pulverizando. Recursos em dólar americano e em produtos vendidos aqui (EUA), mas do mundo todo.

A posse do Donald Trump mudou de alguma forma o interesse do investidor americano
por diferentes ativos ou mercados? Ele está mais cauteloso nos movimentos?

Desde que o Trump entrou, ele vem causando um sentimento de insegurança. O investidor olha, a bolsa cai, a tarifa sobe, e ao mesmo tempo em que há no Brasil um sentimento de deterioração. Acaba tendo mais procura por investimento dolarizado. Muitos querendo mandar recursos para os Estados Unidos, mas isto só depois de entenderem princípios básicos. Aqui não existe CDI. A primeira coisa que ele tem que entender é o seguinte: colocar dinheiro em algo que é seguro, e não é volátil, e que só cresce, e que não cresce pouco, não existe em moeda forte. Não existe aqui, não existe na Europa, não vai ter em lugar nenhum. Ah, mas existe na Turquia. Mas na Turquia não é moeda forte. Quando falamos de bons investimentos, a resposta é mais complexa. Depende do perfil do investidor, com o momento de vida dele. O que faz sentido para alguém com 30 anos, solteiro e com casa própria, talvez nao faça para alguém filhos criados, em outro momento.

A Corano tem um braço de gestão, uma asset. Qual é a estratégia, são fundos
apenas para os clientes, exclusivos?

Os fundos exclusivos aqui não funcionam bem, não tem benefício com esta estrutura. Temos fundos de ações e um de hedge. Quando a gente fala hedge fund, aqui é um pouco diferente do Brasil. No mercado americano não tem qualquer restrição, pode fazer de tudo. Quando eu falo que a gente tem um hedge fund, é porque ele não se limita só a ações. A gente compra REITs, ativos imobiliários, compra ouro, compra o que a gente achar que tem que comprar. É mais ou menos semelhante ao multimercado no Brasil. É um produto só com oferta interna, até por uma questão de estrutura de custo. Este poder discricionário é muito importante, tanto que alguns fundos viraram ícones de mercado, como o Ray Dalio, que avançou muito, em especial na crise de 2008, porque tinha este poder discricionário e soube aproveitar.

Qual a principal tendência do mercado brasileiro, falando em investimentos. O que
vem pela frente?

Eu vejo que tudo que acontece aqui (EUA), chega no Brasil uns 10 anos depois. A grande mudança que teve aqui nos últimos 20 anos é a compreensão por parte do investidor, médio e grande, de que não faz sentido nenhum ele estar em grandes instituições. É preciso ter alguém independente para a alocação dos recursos. Precisa ter alguém profissional que trabalhe para montar o seu portfólio. Só em Nova York tem 5 mil wealth managements. Eu vejo que, no Brasil, há uma oportunidade de mercado para várias casas se profissionalizarem e acabarem com esta concentração ainda grande nos bancões tipo Bradesco, Itaú, Santander. Ao longo da próxima década, se apenas 5% desse montante migrar para esse mundo dos independentes, a gente já está falando de bilhões e bilhões de reais. O brasileiro ainda se sente seguro nos bancos, mas ele tem que entender a diferença entre risco e custódia. Se você tem conta em um banco e ele quebra, é problema, se você tem ações da Coca-Cola e se o banco ou corretora quebrou, não muda nada. O grande ponto no Brasil é que tem poucas oportunidades e limitadas em termos de tamanho, e isso dificulta o trabalho de alocação. Tem muito a evoluir.

Quais os planos da Corano para o futuro? Quais oportunidades você visualiza para a
operação? 

Eu vejo que a gente tem grandes chances de expandir explorando essa mudança de mercado que está em curso, falando da operação no Brasil. Esse é um ponto. Outro ponto é que eu acho que tecnologia sempre é disruptiva, então a gente já vem trabalhando para criar um modelo de suporte para pessoas que têm pouco dinheiro através de tecnologia. Tem um caso real de um cliente que tem US$ 100 milhões e a gente conseguiu de forma diversificada entregar um retorno de 24% o ano passado, em dólar. Uma pessoa com R$ 10 mil consegue replicar 98% da carteira dele, o que ela não consegue copiar é o timing. Se eu dissesse a ele “me dá um voto de confiança” e tudo que eu fizer aqui, eu vou disparar um e-mail cópia para ele. Por  causa dos oito gestores que temos, estamos o tempo inteiro olhando como um sniper. Eu posso replicar através de um sistema tecnológico para que ele, com os R$ 10 mil, siga o roteiro e replica a carteira. É o tipo de serviço que queremos criar, baseado em IA. Estamos vendo como estruturar e criar uma espécie de comunidade para que seja algo como “faça você mesmo”. A gente dá o caminho, com um manual, e ele replica. E eu cobraria por esta comunidade, para quem for participar deste ecossistema. É algo para 2026.

Quanto dá para crescer em volume administrado pela Corano no curto e médio prazo?

É lógico que eu quero crescer um monte, mas eu também não sou aquele cara maluco que fica falando que vou projetar US$ 10 bilhões em três anos, porque eu não sei se é possível. Tem um custo pessoal muito grande um crescimento nessa proporção, porque a gente realmente põe a mão na massa. Acho que nos próximos 5 anos dá para dobrar de tamanho, para uns US$ 5 bilhões. Eu acho que o parâmetro é ser melhor amanhã do que nós somos hoje, e isso vai naturalmente se refletir em um processo orgânico de crescimento.  

E onde você, pessoa física, investe seu dinheiro?

Eu tenho 46 anos, já tenho residência própria e outras fontes de renda. O meu dinheiro está 60% em renda variável e 40%, by de book. Mas ele se move muito, porque mesmo na renda fixa americana, não é como no Brasil, que você compra, senta e espera a data de vencimento. Aqui, você usa muito a marcação a mercado para ficar liquidando e voltando para papel. Fiz com o meu dinheiro o que eu fiz com o dinheiro dos clientes.


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