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Selic a dois dígitos avança até 2027, projeta economista-chefe do BMG

Jiane Carvalho

Flavio Serrano: economista-chefe do BMG
Flavio Serrano: economista-chefe do BMG

Um “quase não evento”, nas palavras do economista-chefe do banco BMG, Flavio Serrano, o que se espera da reunião do Banco Central nesta quarta-feira (30), que para 10 entre 10 economistas irá manter a Selic em 15% ao ano. O movimento marca a confirmação do fim do ciclo de alta da taxa básica da economia. Na visão de Serrado, que conversou com a Capital Aberto, começa nesta data um período de observação da economia que deve durar até o primeiro trimestre do ano que vem. “É quando creio que o BC irá dar início a um afrouxamento da política monetária, com corte de 25 pontos-base, depois acelerando, levando a Selic até 12% ao ano”, comenta Serrano. Na entrevista ao Além do Capital, o economista-chefe do BMG defendeu a manutenção da meta de inflação em 3% e projetou primeiros cortes na taxa básica no começo de 2026. Acompanhe:

A projeção do BMG está em linha com o mercado, de uma Selic mantida em 15% ao
ano. Quais pontos justificam o fim do ciclo de alta na taxa?

A gente vinha de um cenário com inflação corrente alta, com a economia crescendo bastante e expectativas de inflação desancoradas. Quando a gente olha o cenário externo, temos incertezas mapeadas pelo Banco Central. O BC já vem sinalizando que se tudo ocorrer conforme ele espera, manteria a taxa de juros nesse patamar. Pegando a evolução do cenário, não mudou a ponto de você imaginar que seria necessário algum ajuste adicional de política monetária. Ele deixou aberta a possibilidade ao afirmar que não hesitará em retomar o ciclo. A inflação melhorou na margem o que favorece o fim do ciclo de alta. Começamos a ver mudanças marginais na Focus, que favorecem a Selic mantida em 15%. A expectativa é um componente importante na modelagem do Banco Central. Estava desancorada e começa a melhorar olhando para 2026. A reunião desta quarta-feira (30) é quase um não-evento. Ninguém espera novidades.

Nem mesmo no comunicado do BC após a reunião você espera alguma novidade?

Não. Vai ser tudo muito parecido. Ele vai manter o juro, esta é a diferença em relação a reunião anterior, mas vai dizer novamente que não vai hesitar se precisar subir. Vai ficar hawkish ainda, com uma comunicação dura. E pensando em prós e contras da decisão, temos contra o fato de ter um nível de juros muito alto. Isto é indiscutível e terá efeitos sobre atividade e desemprego, mas isso é algo necessário, porque a gente está com um problema maior que é uma inflação que está alta, persistente e com perspectiva desancorada. Esta é a parte boa. Agora não tem muito mais o que fazer. É esperar o tempo passar um pouco e avaliar a evolução do cenário. Se ele caminhar para o que se imagina, com uma desaceleração no segundo semestre de atividade econômica, pode iniciar corte em dezembro, porém, o mais provável é no primeiro trimestre de 2026.

As tarifas do Trump contra o Brasil começam a valer na sexta (01). Como este risco
deve ser incorporado no cenário do BC? 

Nos cenários do BC já tem um pouco desta visão, das incertezas em relação às tarifas, falando mais sobre impactos globais. Já tinha acontecido uma elevação onde estava naquela taxa mínima de 10%, e agora veio a de 50%. No curto prazo, isto pode favorecer a inflação de alguns produtos, por exemplo, o café. Se o país deixa de mandar café para os Estados Unidos, vai acabar sobrando café no mercado doméstico. Isso pode fazer com que alguns produtos de curto prazo melhorem, principalmente no agro. Por outro lado, há produtos que podem subir de valor. Bens industriais, por exemplo. E tem o impacto da desaceleração da atividade. A gente vai deixar de exportar para um mercado importante, o nosso segundo principal parceiro comercial. Eles compram produtos importantes, de maior valor, como aviões, da Embraer. Quando olhamos para as exportações de bens de valor agregado, manufaturados, o mercado dos Estados Unidos é o grande comprador. O BC vai dizer que continua monitorando com atenção os efeitos dessa guerra comercial. No comunicado deve citar algo mais pontual e talvez detalhar na ata da próxima semana.

4-Qual o efeito, na economia, desta tarifa de 50%, caso se materialize?

Ainda não está incorporado nos preços, até pelo nível de incerteza. Eu espero uma desaceleração da economia, mas o Brasil também tem capacidade de buscar novos mercados. A exportação brasileira, se você tira a China, é bastante diversificada em termos de produtos e de países. A gente consegue realocar uma coisa ou outra. Mas a tendência é de arrefecimento da atividade e ainda mais após a alta na Selic de 25 bases. Os juros reais estão altos há bastante tempo. A gente está rodando entre 9% e 10% já há algum tempo. O que a gente tem errado nas projeções é sobre o mercado de trabalho. Achava que ia começar a virar já ano passado. Não virou. A próxima reunião é em setembro e a outra em novembro. Em dezembro abre alguma janela para corte (Selic), mas acho que ainda vai precisar de uma evolução adicional, o que leva os cortes para 2026.

Qual a dificuldade em transmitir esse juro real tão alto para a inflação, para o PIB
e o mercado de trabalho?

O mercado de trabalho passou por mudanças importantes nos últimos tempos. A própria pandemia afetou os modelos de trabalho. A gente pode estar errado. Pode ser que o desemprego seja realmente mais baixo agora. O fato é que a atividade desacelerou um pouco e a inflação também, principalmente a de serviços. Tem vários canais de transmissão dos juros, e um deles é o das expectativas. Nos últimos meses, a gente tem visto redução da concessão de crédito, aumento da taxa de juros para o tomador final e, principalmente, aumento da inadimplência. Esses fatos somados mostram que a transmissão do juro via canal de crédito está funcionando, mas talvez os efeitos estejam mais espaçados. Eu não acho que a gente perdeu a eficácia da política monetária, mas vínhamos com um mercado de trabalho muito forte e ele é mais defasado. No segundo semestre, a economia vai ficar bem parada. Olhando para o terceiro e quarto trimestres, já vai ser uma economia meio de lado, ficando, eu diria, entre zero e meio de crescimento, e até com a chance de ter algo negativo.

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O ano de 2026 é de eleição, que sempre impacta preços dos ativos no mercado e as
expectativas. Qual o peso do processo na política monetária? 

Existe um receio, uma preocupação de que o Banco Central possa atuar de uma maneira que poderia ajudar o atual governo. Mas eu não acho que isso vai acontecer. Toda a diretoria do Banco Central tem se mostrado muito técnica e tomado as decisões que precisam ser tomadas. A gente acabou de ter um aumento de 25 pontos quando já havia muita gente gritando, que já era um absurdo e deveria começar a cortar. O BC está fazendo um trabalho muito bom e acho que isso vai continuar em curso. Dado isso, eu não antecipo nenhum corte adicional por conta do processo eleitoral. Nossa projeção para 2026 é corte no juro, mas nada muito grande. Deve cair ao longo do ano, de 15% para 12%. Menos que isto pode dar errado. Ou teria de ocorrer algo novo, um choque deflacionário global que altere o cenário.  

Há riscos de, em um processo eleitoral, o governo expandir gastos e isto afetar
negativamente preços e a trajetória de corte projetada para 2026? 

É um risco que pode limitar a queda. Tivemos medidas contrárias que impediram que todos os canais de transmissão da política monetária estivessem desobstruídos. Se não fosse assim, talvez tivéssemos cortado o juro mais rápido. O consignado privado, por exemplo, é importante, mas veio em um momento que não é adequado. A gente está tentando segurar a economia e tem outro mecanismo que pode ajudar a fomentar a concessão de crédito. É uma preocupação, sim, a gente não ignora. Ainda está cedo, mas vai ganhar importância no próximo ano.

Você citou Selic a 12%, mas com uma inflação perto de 4%, o juro real seguirá muito
alto. Corre o risco de um erro na política monetária afetar em excesso a
atividade?

O que importa, na verdade, é o juro neutro, de equilíbrio, que não faz a economia nem acelerar, nem desacelerar, e que a inflação está na meta. A gente estima, e ele muda ao longo do tempo. Economistas já estimaram o juro real neutro do Brasil de 3,5%. Também já estimaram em 8%. O juro real neutro tem piorado, a dívida no Brasil está subindo, o próprio nível de juros globais subiu, assim como a inflação global. Ter um juro real de 8% não quer dizer muito aperto monetário. Se o juro real neutro for 8%, o aperto é zero. Nossas projeções, e as do BC, não mudam muito, é que no Brasil o juro neutro está entre 5% e 6%. Por isso a política monetária tem que ser produzida com cautela. Se você tomar ações com base em grandes certezas, a chance de errar é grande. A gente projeta que o juro real caia de 10% para um nível de 8%, o que significa reduzir o aperto monetário. O BC já olha para 2027 com inflação ainda desancorada. Hoje está em 4% (projeção IPCA), e essa desencorajem de um ponto percentual para a meta, de 3%, custa, em termos de política monetária, entre um ponto e um ponto e meio de Selic. Se imaginarmos um juro neutro de 6%, eu preciso de 7,5% para compensar esse desvio. Esse desvio vai me gerar, mais ou menos, 40 bps de inflação. O trabalho do BC com a expectativa de inflação a 3% é um, com expectativa de inflação a 4% é outro.  

Hoje, a meta é 3%, com 1,5 ponto para cima ou para baixo. É adequada a meta para o
Brasil?

Acredito que sim. Eu não sou um dos que acreditam que é muito baixa. Ao longo do tempo, a economia brasileira teve mecanismos de indexação muito rígidos. E isso é ruim. Porque isso perpetua a inflação alta. Se tem um nível de indexação baixo na economia, a inércia tende a ser menor. Nível de indexação alta, como tem a brasileira, a inércia tende a ser maior. Esta indexação vinha diminuindo, mas após a pandemia subiu com inflação alta e gerou esta inércia. No mundo desenvolvido, o padrão é 2%, no mundo em desenvolvimento, o padrão é 3%. A gente precisa insistir ainda em uma inflação mais baixa para que a gente consiga, de fato, ter uma inflação mais baixa. Tem uma vantagem de ter inflação mais baixa. A volatilidade da inflação está associada ao nível. Uma inflação de 3% tem uma volatilidade menor do que uma inflação de 5%. Eu não sei por que a gente fica sempre nessa discussão. Qualquer problema que aparece é a meta que está errada. Não tem como mudar a meta. Tem que fazer o certo.

Nas suas projeções, a Selic começa a cair quando e em que ritmo até chegar aos 12%?

Até o fim deste ano é 15%, sem cortes. No comecinho do ano que vem, o BC reduz em 0,25 ponto percentual, depois acelera para 0,50 ponto até atingir os 12%, e para. São 250 pontos de corte. Vai acabar este movimento no terceiro trimestre do ano que vem. Isto é positivo, porque interrompe o corte antes do processo eleitoral. E demonstra estar isento. Aí começa o trabalho adicional que são políticas fiscais mais contracionistas, que vão resultar em continuidade de melhoria na expectativa de inflação. Com isto, o BC pode ter espaço para, eventualmente, voltar a cortar em 2027. Levando a taxa para perto de 10%, com inflação de 4%, leva o juro real a 6%, próximo da taxa de equilíbrio de 5%. Ou seja, o juro vai continuar alto por muito tempo.

Quais suas projeções para as principais variáveis da econômica? 

Inflação a gente tem, para este ano, 5%, e para 2026, 4,1%. Estou um pouco mais otimista do que o boletim Focus. Confio na desaceleração da economia no segundo semestre. Para o PIB, estou mais pessimista, com algo entre 2,1% e 2,3% este ano e de 1,5% de crescimento em 2026. No câmbio, eu não mexi na minha previsão, que é de R$ 5,50. Agora deu uma piorada, mas ainda acho que fica neste patamar. O câmbio é muito volátil e incorpora muita variável, por isto é difícil prever.


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