Pressão tarifária sobre câmbio é ponto de atenção, mas Copom deve manter Selic
Fato novo desde a mais recente reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), em junho, quando a Selic chegou a 15% ao ano, a elevação da tarifa anunciada por Donald Trump ao Brasil é importante elemento a ser monitorado pelo Banco Central (BC) no âmbito da política monetária. Os EUA, vale lembrar, anunciaram elevação da taxa de 10% para 50% em 10 de julho último – a qual deve entrar em vigor a partir da próxima sexta (1). O efeito ao câmbio, e consequentemente à inflação, estará na mesa nesta terça e quarta quando a autoridade monetária brasileira se reúne.
Apesar disso, ao menos por enquanto, economistas consultados pela Capital Aberto acreditam em manutenção da atual taxa de juros básica – atualmente no mais alto nível desde 2006. “A tarifa [americana, de 50%] por ora não altera o cenário. Houve um estresse no câmbio no dia do anúncio [em 10 de julho], mas ele voltou a se comportar de modo relativamente favorável”, opina Roberto Padovani, economista chefe do BV. Mas, continua, o câmbio é “o principal termômetro que poderia afetar a estratégia do BC”.
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Há uma visão consensual entre os analistas, diz Padovani, de que, se a tarifa produzir efeito, tende a ser desinflacionário. Ou seja: haverá excedente no mercado local, derrubando preços, devido ao redirecionamento de embarques que seriam destinados aos EUA. Caso se mantenha em 50%, o BC terá de aguardar – e observar – a confirmação desse quadro. Se de fato esse efeito for concretizado, poderia abrir um espaço para a decisão de juros mais baixos pelo Copom – mas ainda não é o caso.

“Dada a magnitude da economia e da pauta brasileira, não acho que tenha muito impacto”, comentou Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo, durante evento promovido pela XP na última sexta (25). Woelz e outros participantes da Expert, promovida na capital paulista, enxergam um reflexo tarifário de caráter temporário, embora admitam que os efeitos ainda não são óbvios.
Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, como a manutenção da taxa já é amplamente precificada, o foco estará no conteúdo e no tom da mensagem. “Acreditamos que o Copom deve manter o discurso prudente, reiterando a necessidade de observar os efeitos defasados da política monetária e a importância de manter a taxa em nível restritivo por tempo suficientemente prolongado”, disse.

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No cenário da Warren, o BC só estará em condições de cortar juros após o primeiro trimestre de 2026. Horizonte similar foi citado pelo Itaú Unibanco e XP. Caio Megale, economista chefe da XP, acredita que uma reforma fiscal deve ditar o prazo e ritmo das reduções. Nesse campo, muitos agentes esperam a manutenção do diagnóstico da última ata, com ênfase nos desafios estruturais do orçamento e na importância da redução de gastos tributários para a sustentabilidade da dívida.
George Sales, especialista em mercado financeiro na Fipecafi – para quem o quadro atual de formulação da política monetária é “um dos mais complexos” –, opina que a tentativa do governo de ampliar receitas por meio da taxação de fundos exclusivos, offshores e revisão de incentivos tributários pode ter impacto positivo no curto prazo. “Mas sem uma sinalização clara de contenção estrutural de gastos, o prêmio de risco segue elevado”, diz. “Isso pressiona a curva de juros e fragiliza a eficácia da política monetária”, continua.
Sales lembra que na última ata, o Copom foi enfático em reforçar que a harmonia entre política fiscal e monetária é uma condição indispensável para a eficácia do controle inflacionário. O especialista descreve o Brasil em uma “encruzilhada” entre pressões inflacionárias que persistem, expectativas desancoradas, e um ambiente internacional adverso, quadro agravado por incerteza fiscal e sinais de desaceleração em setores relevantes da economia, como agro e indústria.
“A ancoragem das expectativas não é apenas uma questão técnica, é uma questão de confiança”, disse, ainda, Sales. Para ele, enquanto agentes econômicos duvidarem da capacidade do governo de entregar estabilidade fiscal, o custo da desinflação vai continuar alto.
Segundo o Focus do dia 21 de julho, o mais recente disponível quando este texto foi elaborado, mesmo em alto patamar, a inflação está recuando. Para 2025, caiu pela oitava vez nesta semana (agora a projeção de IPCA é de 5,10%, uma semana antes disso era de 5,17%); para o ano que vem, a expectativa caiu pela primeira vez em semanas e o mercado agora projeta IPCA a 4,45% em 2026, abaixo dos 4,50% projetados anteriormente – patamar estável há no mínimo quatro semanas.
Em relatório divulgado na última sexta, o Itaú listou melhora marginal na inflação corrente, “que mostrou sinais qualitativos positivos, as expectativas de 12 meses e implícitas recuaram, e o real teve leve apreciação, mesmo diante de ruídos fiscais e tarifários”. Ainda segundo o banco, a atividade econômica segue em desaceleração gradual, com sinais mais claros de inflexão nos segmentos sensíveis ao crédito.
“O mercado de trabalho, no entanto, permanece resiliente. A comunicação do Copom deve reforçar a estratégia de manutenção da taxa Selic em patamar contracionista por período bastante prolongado, em meio a um cenário de inflação prospectiva acima da meta até 2027 – mesmo após o último Relatório de Política Monetária ter revelado que as autoridades ainda não incorporaram em seu cenário um hiato do produto possivelmente menos benigno para a inflação”, segue o texto do Itaú.
