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Com FIDCs e securitização, Blackbird quer dobrar concessão de crédito a empresas em 2025

Jiane Carvalho

Beatrice Ferrari, sócia-fundadora e CEO da Blackbird Investimentos
Beatrice Ferrari, sócia-fundadora e CEO da Blackbird Investimentos

Casa que caminha para completar sua primeira década no mercado, a Blackbird sempre soube o que queria ser: um banco de investimentos. Fundada em 2016, um de seus primeiros passos foi como consultoria a empresas, depois incluiu o atendimento à pessoa física alta renda, que hoje respondem por R$ 2,5 bilhões administrados pela Blackbird, e foi avançando na direção da Pessoa Jurídica com antecipação de recebíveis e, mais recentemente, FIDCs para empresários e um FIDC proprietário. Na entrevista ao Além do Capital, quem conta os planos da Blackbird Investimentos é Beatrice Ferrari, sócia-fundadora e CEO da casa. “Na pessoa jurídica, o foco sempre foi atender empresas de middle market, que não conseguem acesso a outras estruturas de financiamento porque o volume que eles precisam não faz sentido para um grande banco”, comenta Beatrice, egressa do BTG Pactual. Na entrevista, a executiva fala sobre o ano de juro alto e boas perspectivas para a casa, que “busca encontrar soluções para acesso a crédito pelas empresas de middle, principalmente fora de São Paulo”. Acompanhe:

Como surgiu a ideia de criar uma casa que dedicasse parte dos esforços para atender
fora da Faria Lima?

Sou advogada de formação, mas queria fazer uma transição de carreira e quando fui para o BTG me apaixonei pelo dinamismo do mercado financeiro. Eu sou do interior e via a diferença de tratamento da capital para as cidades menores. Minha família é toda de empresários e eu percebia a diferença de acesso a outras modalidades de crédito. A primeira motivação foi levar esse acesso além da Faria Lima. Quando falamos de grandes bancos, do BTG, o foco é em clientes com R$ 50 milhões, R$100 milhões de patrimônio e de empresas mais corporate. Nosso objetivo era focar mais no middle market e em pessoas físicas com patrimônio entre R$ 10 milhões até R$ 60 milhões. É um público que até tem lugar num Itaú, no Santander, mas com um atendimento de varejo. O foco era levar soluções a esse público que entendo que não é bem atendido.

Os primeiros passos já foram como banco de investimento? 

Na época, a gente começou fazendo uma parte de consultoria para empresas do interior, olhando muito para turnaround. A XP, naquele momento, estava crescendo bastante, havia um movimento de desbancarização. Vimos oportunidade para começar esse mercado e evoluir para soluções de uma maneira geral. Inicialmente como assessoria, depois com gestão efetiva de carteiras, até começarmos a olhar para o mercado de capitais com soluções de crédito, financiamento para empresas. Na pessoa física, a ideia é planejamento. Fazemos toda a parte de gestão efetiva por meio de parceiros, com alocação onshore e offshore. A partir de 2019, 2020 ganhamos mais tração na pessoa jurídica.

Naquela época, pré-pandemia, qual era a estratégia para atender a pessoa jurídica?

Depois de 2020, voltamos a trabalhar e estruturar operações para PJ com mais força. Nosso grande objetivo é levar soluções cada vez mais estruturadas e específicas para cada tipo de cliente. Não buscamos ser uma empresa com 200, 300 pessoas. Se um dia caminhar nesse sentido, tudo bem. Mas foco é trabalhar para um público específico de uma maneira com qualidade. O que não mudou desde que criamos a Blackbird foi o público alvo, de middle e de pessoas com patrimônio entre R$ 10 milhões e R$ 60 milhões.  Trabalhamos com diversos instrumentos, com valores imobiliários, tokenização de ativos, financiamento, seguro, offshore, só não fazemos concierge.  

Depois que a Blackbird retomou seus esforços na PJ, a partir de 2020, o que mudou na
estratégia?

O nosso grande foco é melhorar a estrutura de capital da empresa. Quando falamos em acesso a produtos do mercado de capitais, o middle market sofre muito mais do que o corporate. A gente entende que algumas empresas não seriam aprovadas, por exemplo, dentro de um banco para tomar um crédito ou não têm um volume necessário para fazer uma emissão de dívida no mercado de capitais. A gente faz este diagnóstico e propõe uma solução. A casa faz, por exemplo, desde uma parte de antecipação de recebíveis até operações de mercado de capitais mesmo, de emitir dívida e levar a mercado. Outra coisa que a gente tem utilizado para financiar as empresas é um FIDC proprietário, de capital nosso.

Desde quando a casa trabalha com FIDC como parte dos serviços para a pessoa jurídica? 

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Estruturamos o primeiro FIDC em 2023 com capital de terceiros, investidores, e no ano passado lançamos o FIDC proprietário. Antes disto, a gente fazia para a pessoa jurídica a antecipação de recebíveis, dentro do modelo de securitizadora e não através do FIDC. A gente presta o serviço de securitização desde 2018, mas só começamos a colocar dentro do FIDC em 2023. Desde o começo, tínhamos claro o que iríamos fazer, mas como somos conservadores e com foco na qualidade, fomos com calma. Na securitizadora, começamos com capital 100% proprietário, depois abrimos para family and friends, e a ideia é em algum momento abrir para investidores, mas não agora. Também estruturamos FIDC para o próprio empresário. Tem muita vantagem quando a empresa vende os recebíveis para esse FIDC, que é dela, com o imposto caindo de 34% para 15%. Tem uma eficiência tributária enorme. E neste modelo o capital pode ser 100% do empresário ou ter investidor também. Já o nosso FDIC proprietário é basicamente os recursos dos sócios fazendo a securitização de recebíveis de empresas. É esse FIDC proprietário que a gente pretende abrir para investidores.

De onde vem as empresas atendidas pela Blackbird? 

A maior parte é do interior de São Paulo. A gente até tem algumas empresas de São Paulo, capital, mas o grosso é do interior e grande São Paulo. Esse middle market, no geral, não consegue acesso a outras estruturas de financiamento porque o volume que eles precisam não faz sentido para um grande banco. Se você pega BTG, XP, eles vão olhar pelo menos acima de R$ 100 milhões, R$ 200 milhões de necessidade de giro.

Quanto a Blackbird tem hoje sob administração?

Nós temos sob assessoria perto de R$ 2,5 bilhões, basicamente pessoa física, 17% de crescimento sobre 2024.Quando falamos de volume de crédito concedido à pessoa jurídica, fechamos o ano passado com R$ 120 milhões e neste ano temos a meta de entregar mais R$ 250 milhões em crédito. E na pessoa física, queremos encerrar 2025 com R$ 3 bi.

Qual foi o pior e o melhor momento destes nove anos da casa?

O período da pandemia, para a Blackbird, foi muito positivo. 2020 e 21 foram anos muito bons. Foi curioso porque, ao mesmo tempo que como pessoa física você sente aquele receio do que vai acontecer, no contato com empresários você percebia muitos ganhando dinheiro e aproveitando a oportunidade. A gente fez muita captação de recursos. Naquele momento, tínhamos a securitizadora e quando você entra em um cenário de estresse, o crédito seca. Agora, com juro alto, é outro momento muito bom. Dependendo dos impactos causados pelas medidas do Trump pode ser muito bom para a casa. Há uma fuga de investidores dos Estados Unidos, mas não necessariamente virão para o Brasil. Não é trivial que o dinheiro migre para o Brasil. Mesmo assim, a nossa taxa de juros está muito atrativa e pode atrair parte do capital. Além disso, o aperto é ruim para o middle market, que precisa de crédito e de soluções. É onde atuamos. Sobre anos difíceis, é sempre difícil quando se empreende. A grande dificuldade era conseguir uma validação, porque quando você não tem uma placa, precisa buscar esta validação. Naquele momento, no começo, tivemos dificuldade. 2024 também foi difícil. Tem um movimento que dificulta o nosso trabalho, porque você vê grandes players consolidando, por exemplo, o BTG tentando comprar a G5. Por outro lado, quando você consolida, ganha escala, massifica o serviço. Todos os players que tinham alguma individualidade vão se perder ao longo dos anos. Para a gente, que mantém uma individualidade, é uma oportunidade.  

Vocês já sofreram algum assédio de casas maiores nestes nove anos de existência? E
crescimento inorgânico, está nos planos?

Essas conversas acontecem muito, e há muitos anos, na verdade. Eu acho que esse mercado tenta fazer essa consolidação. Não é algo que hoje faz parte do nosso interesse (vender a empresa). Já o crescimento via aquisições é algo que a gente discute, invariavelmente, faz parte. Mas, por termos um DNA muito forte de cultura, a gente ainda tem um receio dessa fusão de pessoas. Querendo ou não, nosso mercado, tanto a pessoa jurídica quanto a pessoa física, depende de um relacionamento. Quando você faz uma aquisição, naturalmente, você precisa desses profissionais ou de parte deles. Tem um processo de integração de cultura importante. A gente acha isso hoje muito desafiador.

Olhando para o futuro, quem deve crescer mais na Blackbird, a PJ ou a pessoa física?
Como será a casa daqui a 10 anos? 

A pessoa jurídica vai ganhar espaço. É o que a gente tem olhado mais. A gente acha que tem uma grande oportunidade agora com juros altos. É um business que a gente acredita bastante. Somos um banco de investimentos e vamos ganhar espaço. Ao longo dos anos, uma coisa que a gente não mudou foi o plano original. Às vezes você dá mais um desvio para cá, para lá, mas o grande objetivo, que é ser um banco de investimentos, sempre se manteve. Era o plano original. E olhando para os próximos 10 anos, queremos ter essas linhas de crédito ainda mais estruturadas. A gente monta esses FIDCs para terceiros, tem o nosso FIDC proprietário, mas a gente não leva ainda para o investidor. E se tem algumas linhas de crédito que a gente ainda não faz, objetivo é conseguir de fato estar com essas linhas rodando efetivamente nos próximos 10 anos.  


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