BNP Paribas Asset, sob comando de Aquiles Mosca, estrutura seu 1º fundo ilíquido com prazo de 10 anos

Prestes a completar um ano como CEO do BNP Paribas Asset Management Brasil, Aquiles Mosca é um daqueles executivos que dispensa apresentação. Em resumo, são 27 anos de experiência na indústria de fundos e passagens por diversas casas, além da atuação na Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Ao assumir a asset do BNP em julho do ano passado, o desafio de Mosca era dar continuidade ao trabalho exitoso do antecessor e, ao mesmo tempo, imprimir sua marca na gestora, casa com R$ 84 bilhões de ativos sob gestão (AUM). Mosca promoveu mudanças, contratou executivos no mercado para áreas de Funds of funds (FOF) e de crédito privado, e já pensa na ampliação do portfólio da casa, sem descartar crescimento inorgânico, via aquisições. “A gente está olhando oportunidades no mercado. Estamos avançando em algumas conversas.”
Para o segundo semestre, Mosca planeja lançar o primeiro fundo ilíquido da casa, com prazo definido de 10 anos e amortização a partir do terceiro ano. “Estamos lançando também, no Chile, um fundo de renda fixa brasileira para fundos de pensão locais, atendendo a uma demanda”, comenta Mosca. Na entrevista à Capital Aberto, o executivo destacou o DNA da casa, com 53% dos recursos geridos oriundos dos fundos de pensão, e as negociações com plataformas, como a Avenue, para dar acesso ao investidor brasileiro a investimentos no exterior. Acompanhe:

O BNP Paribas asset está lançando um fundo no Chile, voltado ao institucional. Qual
a estratégia?
Hoje, o fundo de pensão responde a 53% do nosso patrimônio, é mais da metade. Está no DNA da empresa que faz a gestão de clientes internacionais, particularmente fundo de pensão, com os recursos para pagamento de benefício de aposentadoria. Nesse aspecto, o relacionamento com os consultores de fundo de pensão está cada vez mais importante. Eles jogam um papel central na escolha dos gestores. Estou falando aqui de Mercer, Towers, Aditus, as principais consultorias do Brasil. É preciso estar muito próximo deles. É um cliente extremamente qualificado, tem esse suporte técnico das consultorias. Hoje, a asset do BNP Paribas é a quinta maior gestora de fundo de pensão no Brasil. O investidor institucional para nós é extremamente importante. O BNP é um banco global e tem operações no mundo inteiro, e tem uma joint venture no Chile. Tinham uma demanda para renda fixa brasileira e lançamos um fundo de renda fixa brasileiro lá. O seed capital é deles. O fundo investe aqui em duas estratégias nossas: 65% do patrimônio está no nosso fundo IMA B5, inflação curta, e os outros 35% em IRFM, taxa pré. O fundo está sendo incubado desde outubro passado, criando histórico, e vamos fazer um roadshow dele em junho. Estamos esperando bater o máximo de juros no Brasil, algo perto de 15%. A gente está levando nossa expertise de gestão de fundos de pensão a fundos de pensão no exterior.

A asset é multiproduto, com um DNA forte na renda fixa. Hoje, falta algo na grade
da casa?
Falta sim. Tem uma coisa que é mais para o segundo semestre, que o BNP já faz muito no exterior e que vamos buscar fazer aqui no Brasil, que é ter um fundo ilíquido. A gente está preparando um fundo de debênture de infraestrutura. Vai ser para fundo de pensão, adaptado ao 4994, a legislação dos fundos de pensão. Vai ser o nosso primeiro fundo ilíquido, com prazo de 10 anos, fechado, para debênture de infraestrutura. É um fundo de renda fixa, dentro da nossa estratégia de renda fixa, mas vamos buscar nessa iliquidez, nesse prazo maior, retornos maiores. E buscar emissões de empresas menores, médias, que tendem a pagar um retorno maior, mas ainda assim dentro do universo das debêntures de infra. Fundo de debêntures de infra. Terá amortização a partir de três anos. A gente está registrando o fundo ainda. Vamos buscar inflação mais 9%, inflação mais 10%. Com as amortizações, o prazo médio do fundo cai para 7 anos. Essa colocação, correndo bem, podemos pensar em uma versão para o investidor qualificado, para jogar com as pessoas físicas.

Como caminha o acordo para união com a AXA e quais benefícios a asset local pode ter
com a negociação?
A AXA é uma das maiores seguradoras da França. Ela tem uma empresa de asset management, que é a AXA Investment. E é essa operação de asset management, a AXA seguradora, que nós estamos comprando. Essa aquisição está sendo feita com 5,1 bilhões de euros e já foi aprovada pelo regulador, pelo CADE da Europa, que analisa a concentração. Agora está na aprovação da CVM deles. Hoje, nós somos uma asset de 604 bilhões de euros, a BNP Asset, e a AXA tem mais de 860 bilhões de euros. Juntando, vamos administrar todos os recursos da seguradora do BNP, que é a Cardiff. Teremos uma asset de 1,5 trilhões de euros. Viramos a segunda maior asset da Europa e entramos nas top 10 do mundo. Tem coisas bem concretas para a gente. A Axa asset não existe no Brasil, então nós não temos essa integração aqui. Aqui, tem apenas a seguradora (Axa) e nós já administramos a maior parte das reservas dela no Brasil. Nós já somos o maior gestor deles. A negociação para nós é interessante não só pelo fato de o grupo BNP estar investindo ainda mais na gestora, na asset, mas porque a Axa Investment Management é muito forte nos Estados Unidos, e particularmente na renda fixa americana, que é algo que a BNP Asset não tem hoje. Nós vamos ganhar acesso a uma família de fundos de renda fixa americana, denominada em dólar, para o qual nós já temos demanda atualmente aqui no Brasil. As multinacionais brasileiras, Gerdau, WEG, Petrobras, que têm operações no exterior, sempre procuram alternativas de investimento. Hoje não temos, mas vamos passar a ter renda fixa americana. Para nós, vai complementar a nossa oferta de fundos no exterior de uma forma bastante interessante

Como foi o desempenho da asset do BNP em 2024, ano que você assume o comando da casa?
2024 foi mais um ano de renda fixa, assim como está sendo esse ano, por conta da alta de juros. Nós temos uma marca muito forte no mercado de renda fixa, particularmente em crédito privado. Foi um ano muito bom para a gente, de captação líquida, de crescimento do patrimônio e de aumento da relevância dessa parcela de ativos, no total que administramos. Temos R$ 84 bilhões sob gestão, sendo R$ 21 bi de crédito privado. No acumulado, foram R$ 8 bi a mais do que em 2023. Isso se deve, principalmente, ao crédito privado e ao fato de a gente ter conseguido ficar fora dos principais eventos de crédito. Nós não tínhamos Americanas na carteira, não tínhamos Light na carteira, eram créditos que não passaram na nossa aprovação. Simplesmente porque, do ponto de vista setorial, a gente estava fora do setor de varejo.

Quais foram os critérios que livraram a asset do BNP de ter ativos como Americanas e
Light na carteira?
Temos uma área de crédito muito sólida. Por exemplo, no setor de varejo, a gente estava fora porque é um setor que não gostamos. Aliás, até hoje, a asset segue fora deste setor que tem muita competição, margens muito baixas, competição no físico e no virtual, garantias muito frágeis. Nem os imóveis são mesmo deles, todos alugados. Por conta de tudo isso, a casa ficou fora desse setor de uma maneira geral.

De alguma forma, os eventos de crédito que você cita afetaram o dia a dia da asset?
Nós não perdemos investidores. Pelo contrário, recebemos institucionais, principalmente fundos de pensão, com mandatos de crédito privado para equacionar a carteira. Somos uma casa de high grade, de alta qualidade de crédito. Isto se mostrou bastante atraente para quem estava com os papéis e queria equacionar a carteira. Nós chegamos no investidor de varejo, de private banking, através de acordos de distribuição com o private banking, com as plataformas de investimento. E nesses canais, houve aumento da procura pelos nossos fundos de crédito privado, enquanto os outros caíram, tiveram sustos de rentabilidade. O nosso permaneceu estável. Isto fez com que a parcela de crédito privado crescesse.

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E os demais produtos do BNP Paribas, fundos de ações e multimercado, sofreram
como os demais pares da indústria?
Os multimercados continuam com uma performance difícil. Há quatro ou cinco anos que estamos em uma situação de performance não muito boa da indústria, de multimercados, de uma maneira geral. Bolsa, a mesma coisa. A demanda é muito baixa. Não dá para recriminar o investidor enquanto a renda fixa apresenta retornos tão altos, títulos pagando inflação mais 9%. Apesar disso, a gente cresceu bastante nos últimos dois anos em fundos de fundos. Inclusive, em fundos de fundos multimercados. Ou seja, alocando tanto nos multimercados da casa quanto no mercado, em terceiros. Os investidores que estavam trocando de gestor dentro de fundos de fundos, a gente recebeu uma parte desses recursos, ganhamos uma parte desse processo de seleção.

O que, na estratégia de FOF do BNP Paribas, atraiu investidores que estavam em
outros produtos?
É uma combinação de duas coisas. Uma delas foi a seleção das casas, que compõe as carteiras. Acho que essa foi a primeira coisa. E a segunda foi a visão de mercado mesmo. A gente estava no ano de 2024 um pouco mais pessimista do que a média do mercado. Tínhamos posições mais conservadoras também. Isto fez com que, no relativo à concorrência, a gente tenha ficado melhor. É uma categoria que, mesmo assim, sofreu. A maioria não bateu os seus benchmarks. Mas, dentro dos que sofreram, sofremos menos. E, até agora, nós estamos recebendo convites para o processo de seleção de troca de gestor de fundo de fundos. A gente tem uma série de processos, nesse momento, ocorrendo por conta da performance.

Qual a relevância das carteiras administradas na asset? Cresceram após mudanças na
tributação de fundos exclusivos em 2024?
As carteiras administradas são importantes na asset, mas não por esses motivos (mudanças tributárias). Elas são principalmente, porque o outro segmento muito importante para nós, que representa 10% do nosso patrimônio, são as seguradoras. As reservas técnicas das seguradoras, a grande maioria delas, utilizam carteiras administradas como instrumento de investimento, e não fundo exclusivo. Tem um custo menor, é mais baixa, é menos burocrática. Os recursos de seguradoras são muito relevantes em carteira administrada para nós. Tem várias seguradoras estrangeiras, inclusive, a gente administra todas as reservas internacionais delas. E os veículos são sempre carteiras administradas. Se eu somar fundo de pensão e as seguradoras, nas carteiras administradas, 63% dos recursos são voltados aos institucionais.

Olhando para o futuro, qual vertical de negócios deve puxar o crescimento?
Tem nas quais estamos investindo bastante. Acho que a gente vai ter destas verticais a dinâmica de crescimento de patrimônio para os próximos anos. A fechada dos fundos de pensão é um jogo de rouba-monte. É um mercado que já há mais de década não cresce como um todo. Pelo contrário. O número de fundos de pensão no Brasil só tem caído. Não tem mandatos novos entrando no mercado. Já na Previdência Aberta não. Neste caso, o jogo é de captação de recursos. É ali que está o esforço comercial dos bancos, corretoras, plataformas de investimento, dos agentes autônomos. E já é maior a Aberta do que a Fechada em tamanho de patrimônio. A Previdência Aberta com certeza é uma das verticais que a gente está buscando crescer e está investindo. A outra que está ganhando muito impulso é o investimento no exterior. Literalmente no exterior. É o brasileiro que remete dinheiro para o exterior, nos fundos globais que o BNP tem de ações americanas, ações europeias renda fixa americana, renda fixa europeia. Fundos globais mesmo em diferentes categorias de ativos. Para que o investidor brasileiro que já remeteu o recurso lá para fora invista lá fora. A gente acabou de incluir nossos fundos na Avenue.

A gestora tem acordo com outras plataformas para investimento no exterior?
Com a Avenue a gente já fechou e, com outras, que não posso mencionar o nome, estamos em negociação. São outras cinco plataformas que negociamos para incluir nossos fundos lá fora. E é muito interessante porque uma vez que o brasileiro remete o recurso para o exterior, a referência deixa de ser o CDI. Então ele investe mais em ações lá fora. Ele faz uma carteira muito mais diversificada. O que para nós é muito mais interessante também. Essa é uma segunda, junto com a Previdência aberta, o investimento no exterior dessa estratégia que já temos lá fora. Tem uma terceira que também vai continuar crescendo, que é o crédito privado, a renda fixa com mais risco. Com posicionamento em pré-fixado, em inflação. E combinando isso com crédito privado, no nosso caso high grade. Por exemplo, em debêntures de infra, você tem a isenção tributária. A renda fixa ativa no mercado local combinada com crédito privado, muitas vezes com crédito privado incentivado, como talvez um instrumento que vai ser de transição até que o investidor volte a sair do 100% de renda fixa e vá para o multimercado novamente. Estamos trabalhando para lançar um produto, se tudo correr bem, ainda este mês.

Como caminha a adaptação dos fundos do BNP Paribas à CVM 175? Já visualiza
oportunidades da nova regra?
A gente quer aproveitar, mas não está nessa fase ainda. Isso vai demorar para acontecer no Brasil. O mercado sequer está operacionalmente preparado para ter as classes, subclasses. A CVM sabe disso. A preocupação maior no curto prazo é atender ao prazo de junho 2025 para fazer o tombamento para a nova regulação. Já tombamos cerca de 30% dos fundos. Creio que, ao longo do segundo semestre, uma vez feito o tombamento e os ajustes que serão necessários após o tombamento, veremos o mercado se preparando, inclusive do ponto de vista tecnológico, de sistemas operacionais, para ter as classes e subclasses. É um avanço muito grande.

O quanto dá para avançar o AUM na asset neste ano?
Nosso orçamento de captação líquida para esse ano é em torno de R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões. É um crescimento menor do que em 2024. A gente vê uma economia com menos dinamismo, não está tendo nenhuma abertura de capital no Brasil. Empresas endividadas e com prioridade em desalavancar ou pagar as dívidas que já assumiram. Os fundos de pensão ainda não estão crescendo. Previdência aberta é uma fonte de crescimento, sim, e investimento no exterior.

E tem espaço para crescimento inorgânico?
Tem espaço, sim. A gente está olhando oportunidades no mercado. Mas nada engatilhado do curto prazo. Estamos sempre atentos. Estamos avançando em algumas conversas, tem várias em andamento. Tem algumas que são em estratégias complementares que a gente não tem e gostaria de desenvolver. Algumas são reforços, tanto de ativos quanto de equipe que a gente, em vez de contratar no mercado, pode trazer através de uma aquisição.
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