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Bolsa do Mubadala corre o mundo em busca de parceiros e entra em fase estratégica

Redação Capital Aberto

Claudio Pracownik, CEO da Base Exchange
Claudio Pracownik, CEO da Base Exchange

Se tudo correr como é esperado por seus controladores, a nova bolsa brasileira batizada Base Exchange – um acrônimo para Brazilian Stock Exchange –, dará o pontapé em suas operações no início de 2026. Ao menos, este é o plano. Mas a decisão não é da empresa, visto que o início das atividades depende de um processo de aprovação junto aos reguladores, que são o Banco Central do Brasil e a Companhia de Valores Mobiliários (CVM) – o qual está em curso – e um período de testes. É um momento em que as lideranças participam de roadshows nos EUA e no Brasil em busca de parceiros estratégicos. A concorrente da B3, instalada no Rio de Janeiro, vai tirar o Brasil do rol de países com apenas uma bolsa de valores. Mas por que o fundo árabe Mubadala, com capital soberano de Abu Dhabi, escolheu justamente o Brasil para ter seu primeiro investimento em uma bolsa de valores mobiliários? “Um fundo de private equity coloca o seu dinheiro onde o potencial de crescimento é muito maior. Há mais espaço para crescer, dada a imaturidade dos nossos mercados de capitais”, comenta Cláudio Pracownik, CEO da Base Exchange, com longa carreira em área financeira – Ágora, Genial Investimentos e o Clube de Regatas do Flamengo integram a lista.

Em entrevista à Capital Aberto, Pracownik, que define a bolsa de valores como uma espécie de “Tinder do mercado de capitais” (já que ajuda no “match” entre ordens de quem quer comprar e vender ativos), avalia que há espaço de sobra para a Base, B3 e outras bolsas no mercado brasileiro. A concorrência contribui com eficiência e custos, e por fim acaba atraindo investidores – sobretudo do varejo. Acompanhe:

A nova bolsa já foi lançada para o mercado, mas ainda não opera. Em que pé está o
projeto?

Estamos cumprindo o processo regulatório, que é previsto em lei. Através dos regulamentos das instituições da CVM e Resolução do Banco Central. E estamos absolutamente em linha com o processo lá previsto – prever prazo de aprovação e entrega de documentos. Nós estamos na fase final de troca de documentos. Todo o processo começa com uma bolsa no papel: tanto para a CVM, no que se refere à aprovação da bolsa em si, do casamento de ordens, quanto para o Banco Central, no que se refere à aprovação da clearing, que é a parte de liquidação. Você vai escrevendo quais são os seus processos, quais são as pessoas, qual é a sua governança, qual é a sua tecnologia, como é que os assuntos vão ser tratados. E eles vão devolvendo os pedidos, dúvidas, sugestões: tem que mudar aqui, não entendi isso, dessa forma acho que não funciona. E no começo as respostas são muitas – e as perguntas também. A gente está afunilando. Entendo que nós chegamos numa fase final das aprovações porque existem muito poucas dúvidas dos reguladores. Mas essa é uma definição do regulador. Estamos, espero eu, há poucos meses de começar os testes dos reguladores dentro das nossas companhias. Depois do processo de teste, eu tenho mais seis meses, em tese, para um go live. Ou seja, uma vez que a Base passe por todos os testes do Banco Central e da CVM, teremos o prazo de seis meses para iniciar as operações, para abrir a bolsa para receber investimentos.

Há uma projeção para operar?

Isso depende do desempenho na fase de testes, já que a decisão de autorização é do regulador. Nossa previsão é que a gente lance a bolsa no início do ano que vem. Havia uma previsão de lançar a Base no final deste ano (2025). Mas, como os testes não começaram, a gente tem a intenção de lançar no início do ano que vem.

Você falou em companhias. A quais se refere? 

São três empresas. A Flowa Technologies é a antiga Americas Trading Group (ATG). A empresa já existe há mais de 10 anos. Ela é líder no setor dela, de conectividade eletrônica, de execução de ordens eletrônicas. Ela tem 320 assets conectados a ela, 54 corretoras. O que ela faz? Tem um servidor nosso dentro da B3. Nós temos algoritmos nas nossas máquinas. Várias corretoras e assets usam a nossa tela para mandar as suas ordens para diversas corretoras. Nós cuidamos para que a execução seja rápida, aplicamos algoritmos de execução, aqueles robozinhos. Então essa é uma empresa constituída, que faz parte do grupo, que é a empresa que está provendo tecnologia para a bolsa e para a clearing. Ela é uma empresa 100% de tecnologia. A segunda empresa é a bolsa, é uma empresa que faz o casamento de ordens. Como eu gosto de brincar, ela é o Tinder do mercado de capitais: se alguém quer comprar ou quer vender, quando dá match, ela junta as ordens. Essa é a função de uma bolsa de valores. Existe uma clearing, também chamada de Base, ou Base Clearing. Uma vez que a ordem é casada, ela é o banco. Uma vez que ela faz essa liquidação e a compensação, ela instrui a depositária da B3, onde todos os ativos estão guardados, custodiados.

Então a Base Exchange usará um serviço da B3?

Isso. A depositária é da B3. Nós temos direito de acessá-la após a quebra do monopólio, por pedido nosso, via Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que determinou que a B3 é obrigada a abrir sua depositária para novos entrantes. Garantindo, assim, a fungibilidade das ações. Porque eu não posso ter uma ação de Petrobras na minha empresa e uma ação de Petrobras na dela, é a mesma ação. Então, ela garante que a ação seja fungível. E nós temos um contrato assinado com a B3, com o preço acertado, o mesmo preço que todo mundo paga no mercado. E já temos os testes de conectividade com a B3. Em suma, não haverá problema algum em trabalhar com a depositária, tanto nós quanto futuras bolsas que aqui entrem.

Qual é a fatia do Mubadala Capital, de Abu Dhabi, na nova bolsa?  E qual o volume investido pelo fundo árabe?

O Mubadala tem 73% da companhia e maioria da governança. O restante é de duas fundações, a Serpros (previdência do Serviço Federal de Processamento de Dados) e a Postalis (fundo de pensão dos Correios). Sobre o volume investido pelo fundo não posso revelar.

As lideranças da Base, assim como o controlador, o fundo Mubadala, têm participado
de roadshows no Brasil e EUA. Qual é o objetivo? 

É um movimento de busca por parceiros estratégicos, que está bem avançado. Nós somos uma empresa controlada pelo Mubadala, que é uma empresa próspera, com bastante dinheiro. Nós somos completamente fundeados, ou seja, a gente tem todo o dinheiro necessário para lançar a bolsa. A busca por parceiros estratégicos se dá para trazer para dentro da empresa instituições globais, os market makers, que têm capital próprio, e bancos globais, assim como bancos locais, para que assegurem volume de operações na nossa bolsa. Essas pessoas vão se comprometer em trazer ordens de compra e de venda para a bolsa.

E quem já topou? 

Não posso revelar. Até hoje (dia da realização da entrevista em 20/02), a gente já conversou com 20 parceiros e acho que estamos afunilando. Algo entre 12 a 15 já estão mais avançados. Todas essas empresas são líderes, são grandes empresas, são bem relevantes nos seus mercados, são sempre um grupo entre as maiores empresas, elas têm contratos de NDA (Non-Disclosure Agreement, ou, contrato de confidencialidade) assinado com a gente. Alguns deles são corretoras, outros são bancos globais, outros são market makers, que mandam dinheiro através de uma corretora.

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O mercado de capitais ainda é pequeno no Brasil. Por que uma bolsa e neste
momento?

Eu te respondo com uma pergunta: você gosta de comida japonesa? E quantos restaurantes de comida japonesa existem? Todos os anos surgem mais alguns, não? A concorrência é isso. A concorrência aumenta o volume: cada vez que alguém abre um concorrente, abre uma nova empresa, ela pode oferecer novos produtos, novo olhar. E ela traz mais pessoas para esse mercado. O Brasil é uma das poucas economias do mundo, ao lado da Espanha, que não possui duas bolsas. A Argentina possui duas bolsas. Em todas as experiências, quando se abre uma segunda bolsa, aumenta-se o volume do país, não diminui. E faz com que o primeiro incumbente, que tinha monopólio, melhore, já que agora ele tem concorrente. Se o preço reduz, traz mais gente para o mercado e a bolsa incumbente melhora os serviços dela, fica mais eficiente, ela também vai atrair mais clientes. Ela [Base] não está aqui para dividir o volume, ela está aqui para aumentar o mercado. Se os investidores olham para a economia de um país e só veem uma bolsa, leva inclusive a um downgrade na capacidade de investimento naquele país. Porque, entre outras coisas, há mais risco. Há uma bolsa, e se a bolsa sai do ar? Onde ‘hedgear’ a posição? Essa é a função da concorrência: aprimorar. Quando se aprimora, traz eficiência, reduz preço, você aumenta o volume. O varejo brasileiro responde, dependendo do mês, por 20%, 25% do mercado. Todo mercado maduro precisa ter mais investidores de varejo. A gente não chegou lá. Quanto mais eficiente se tornar o mercado, e mais barato, amplia a participação do varejo. O investidor institucional, que responde por mais da metade do volume da bolsa, é o pulmão de tudo. E as assets, os fundos gestores aqui do Brasil, respondem pelos outros 30%, 40%. Então, para estas pessoas, quanto mais bolsas, melhor. Pode ser que novos restaurantes competidores, de qualidade, reduzindo preços, atraiam um grupo de pessoas dispostas a experimentar a comida japonesa feita no Brasil.

Por que FIIs, ações e ETFs?

O que demora para a nossa aprovação não é o produto, a classe de ativos. É aprovar uma bolsa e uma clearing. É a primeira vez na história do Brasil que se aprova uma bolsa e uma clearing. Nunca nenhuma bolsa foi aprovada aqui porque não existia legislação para isso. O próprio regulador disse: comece com uma classe um pouco mais simples de ativos. O prazo de aprovação é muito mais simples, mais focado. Desde que aprovados esses, aí então se pode sistematicamente trazer novos produtos. Então, a ideia foi começar com um carrinho pequeno, tirar da garagem, e depois ir crescendo a frota. Se eu lançasse uma bolsa para competir com tudo que a B3 faz, hoje, o prazo de aprovação da minha bolsa ia ser de 10 anos

É o primeiro investimento do Mubadala numa bolsa de valores mobiliários. Por que o
Brasil?

Nós somos um país gigantesco, muito maior do que a Espanha (outro país com apenas uma bolsa de valores), com muito mais potencial, uma das maiores economias do mundo e muito pouco desenvolvido nos seus mercados de capitais. Um fundo de private equity regularmente coloca o seu dinheiro onde o potencial de crescimento é muito maior. Eles não entram num país onde o desenvolvimento já é grande. Os grandes ganhos vêm exatamente no crescimento acelerado. Há mais espaço para crescer, dada a imaturidade dos nossos mercados de capitais, do que em outros países. Um país do nosso tamanho ter uma bolsa só contra a Argentina, que é muito menor do que a gente e tem duas, mostra que faz mais sentido trazer dinheiro para cá.

Qual a meta para o volume de negócios no primeiro ano de operações ? O plano é
expandir os serviços futuramente para incluir negociação de futuros e
derivativos? 

Não posso abrir o business plan. Sobre expandir, é o passo seguinte. Uma vez que eles autorizem a bolsa para o mercado de ações, a gente vai imediatamente protocolar derivativo. Já está pronto. A gente espera que, entre dez 12 meses depois desta solicitação, este pedido também seja concedido.

A B3 incluiu renda fixa em seus negócios. A Base Exchange pode incluir esses
ativos nos negócios?

Esse é o terceiro passo. Mas eu não preciso acelerar isso. Eu vou olhar em que país a gente vai estar vivendo daqui a um ano, um ano e meio, para saber se vale a pena lançar esse mercado. A gente sabe que futuros derivativos têm que ser lançados, porque complementa o mercado à vista, são interconectados de certa forma. É certo que é o próximo passo. Mas, para o terceiro passo, temos o tempo como nosso aliado.

O momento não é bom para a renda variável no Brasil. Há um horizonte para janela
de IPOs na sua visão
?

Esse ano logicamente não vai acontecer. Ano que vem é ano de eleição, portanto é um ano de volatilidade. Não sei se é um ano mais propício, pode aparecer um IPO ou outro. Uma janela maior de IPOs eu imagino que só a partir de 2027.

A internalização de ordens deve ocorrer no Brasil. Em que medida afeta os planos
de uma nova bolsa? É concorrência?

Eu não enxergo como concorrência exatamente porque eu não me enxergo como mercado. Eu me enxergo como um operador do mercado. Os meus clientes, as corretoras, se eles vão internalizar, eles vão internalizar. Eles são meus clientes. Eu não internalizo ordens e não estou competindo com eles. Não necessariamente vai reduzir o meu volume (o da bolsa). Hoje em dia existe a internalização que é o Retail Liquidity Provider, o RLP. Ele já existe em ambiente de sandbox, vamos colocar assim, e ele só funcionou no mercado futuro, não no mercado à vista. Não afeta o meu business plan. E se diminuir o volume por causa disso, mas aumentar o volume por outros motivos, seja porque eu vou ser mais barato ou vou ser eficiente, é do mercado. Esse é o mercado com o qual eu terei de lidar. Para a B3 é um pouco diferente porque eles já operam. Quando eu começar a operar, isso já estará dado. É algo que está na mesa

A bolsa recebeu algum apoio ou parceria com a prefeitura ou o governo do Rio para
instalar-se por lá?
?

Ele (prefeito do Rio, Eduardo Paes) reduziu o nosso ISS de 5% para 2%, equiparando a gente à bolsa de São Paulo, a B3. Foi uma ajuda. Ele (Paes) levou a Maria Silvia Bastos, bastante competente, para a secretaria de assuntos estratégicos (Maria Silvia Bastos Marques comanda a Secretaria de Projetos Estratégicos do município do Rio) e disse que uma prioridade dela será ajudar a bolsa na cidade do Rio a crescer. O governo do estado reduziu o ICMS para a instalação de data centers no estado. Isso tudo contribuiu para ficarmos no Rio, o que já fazia mais sentido. Os funcionários estão aqui e é mais fácil de atrair talentos do que em São Paulo. A área administrativa financeira está no Rio. Mas a minha estrutura de ferramentas tecnológicas, meus servidores, estão em São Paulo, assim como também vários dos meus clientes.


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