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Galapagos Capital tem planos de levar a Galaticos, voltada ao segmento esportivo, para o exterior

Jiane Carvalho

Marco Bologna, sócio da Galapagos Capital

O ano de 2024 para a Galapagos Capital foi bom, no entanto, não como a casa esperava. Encerrou o ano com R$ 23 bilhões sob gestão nas três verticais de negócios – asset, Wealth e banco de investimento. "Diante de um cenário desafiador, ainda assim foi um ano de resultados positivos”, comenta o sócio Marco Bologna. O período foi marcado por movimentos importantes da casa. Consolidou seu multifamily office, após a chegada em 2023 de Mari Emmanouilides e da carteia do MFO Taler, e criou a Galaticos, em parceria com a R9 Gestão Patrimonial, do Ronaldo Fenômeno, para atender atletas. A Galaticos funciona como um cluster dentro da área de Wealth da Galapagos, vertical de melhor desempenho em 2024. “A Galaticos já atingiu R$ 2 bi de AUM e queremos levar a operação para fora do Brasil, oferecendo o serviço na base que temos em Miami e na Suíça, países em que temos presença física”, comenta Bologna.

Na entrevista à Capital Aberto, o executivo, com 40 anos de experiência no mercado financeiro e de empresas como CEO do Banco Fator e da Latam Linhas Aéreas Brasil, deu detalhes do modelo de negócio da Galapagos. A casa global de investimentos adota desde sua origem um modelo de soluções interconectadas que ligam investidores e empresas, além de estruturar produtos de dívida para oferta na base de clientes. Acompanhe:

No ano passado, vocês fizeram uma parceria com a R9 Gestão Patrimonial, do Ronaldo Fenômeno, criando a Galaticos Capital. Como está a operação e por que algo tão nichado?

É mais um segmento de mercado para atuarmos. A gente tem multifamily office, tem de private bank, tem de carteira administrada, o varejo, e tem um segmento que avança muito no Brasil e no mundo, dos esportistas. É uma dinâmica diferente, o trabalho tem que ser muito próximo deles para que entendam o mercado financeiro, porque muitos são jovens e ganham muito dinheiro e muito rápido. Precisam de aconselhamento. Juntamos o pessoal da R9, do Ronaldo, porque ele tem credibilidade junto aos atletas. Eles já faziam aconselhamento e um trabalho de concierge, que vai além da gestão financeira. Precisa oferecer de tudo, tem cash manager, planejamento tributário, um pacote completo com o que eles precisam até chegar aos investimentos. A gente faz muito aconselhamento de previdência, dado que o período de vida do esportista, como trabalhador, é curto. Queremos levar a Galaticos para fora do Brasil, oferecendo o serviço na base que temos em Miami e na Suíça, países em que temos presença física. Já atingimos R$ 2 bilhões sob gestão na Galaticos. O crescimento foi rápido. A gente acha que é um mercado que pode chegar a números expressivos. Pensar em R$ 5 bilhões pode parecer muito, mas são atletas que ganham em um ano R$ 700 milhões ou mais. A Galaticos é um segmento dentro da Wealth, um cluster voltado para atletas e jogadores, além de profissionais do segmento artístico, músicos, etc.

Ainda no universo do esporte, no final do ano passado, a Galapagos estruturou um FIDC para o São Paulo Futebol Clube. Como caminha o produto?

Lançamos e foi bastante positivo. É um FIDC inusitado. Vejo como uma tendência do mercado de futebol brasileiro uma maior profissionalização e a aproximação com o mercado de capitais. O FIDC do São Paulo foi inédito, um fundo dedicado, com recebíveis do clube, que teve uma boa aceitação junto aos investidores. A gente está operando com R$ 200 milhões e crescendo. O limite é o reperfilamento de dívida do clube, na faixa de R$ 600 milhões. Os recursos dão fôlego ao clube para voltar a investir, principalmente na formação de profissionais e na melhora do processo de gestão. Foi a primeira operação desse tipo no mercado de futebol brasileiro.

Há uns dias, o Blog do jornalista esportivo Jorge Nicola publicou a informação de que a Galapagos tenta fechar uma parceria para investir nas categorias de base do São Paulo. É verdade? 

Os meninos, quando bem formados, rendem. A gente olha o Palmeiras fazendo dinheiro com as categorias de base. O dinheiro do FIDC, que equaciona dívidas do clube, ajuda a ter mais recurso para investir na base. Sabemos que formação de base hoje é muito relevante. Teve uma mudança muito forte no futebol, na parte de profissionalização do próprio atleta e de sua formação. Agora, investir direto na base, olhamos para isso, mas não é o caso ainda. A gente tem um relacionamento muito grande com o São Paulo. Existe o interesse de vermos outras formas de participar desses investimentos, que não seja necessariamente diretamente com o clube, mas muito mais com atletas. Não temos nada no momento, mas a gente olha como algo que é normal, lá fora esses investimentos acontecem muito. O próprio lançamento do FIDC com o São Paulo e a Outfield, gestora dedicada ao universo do esporte, é um exemplo de outras formas de atuar no futebol.

O Multifamily da Galapagos tem perto de dois anos no mercado. Tem dado o resultado esperado?

O desempenho da área no ano passado foi bem significativo. Temos um aconselhamento a grandes fortunas importante. A ideia não é só vender produto, mas também fazer gestão de patrimônio, de carteira e aconselhamento, seja tributário ou sucessório. A gente trouxe em 2023 a Mari Emmanouilides (do MFO Taler), incorporamos na Galapagos e conseguimos reter a carteira. Mesmo com a mudança de casa, sem termos, na época, o know-how de lidar com famílias. A gente estava muito mais no varejo ou na alta renda. Quando você muda para um family office é outro tipo de atendimento. Foi um ano muito bom.

Das diferentes áreas da casa, qual apresentou no ano passado o melhor desempenho?

Em Wealth a gente teve um crescimento muito significativo, parte em função do choque de juros. A indústria de fundos, principalmente multimercado, sofreu muito porque os fundos estavam baseados no kit Brasil, que virou de ponta cabeça. Prejuízos nas carteiras, juros crescentes, tudo favorece a uma migração forte de recursos dos multimercados para produtos de crédito. Neste cenário, nossa área de Wealth, por ter uma proposta diferente e, desde o começo, fazermos mais gestão de carteiras baseado na oferta de crédito, ganhou espaço. O dinheiro foi para título público, na busca da segurança, ou foi para produtos de crédito que tenham boa estrutura de garantia e a uma taxa condizente para o investidor. Foi um ano muito positivo para Wealth. A casa estrutura operações de crédito e distribui na nossa base para os clientes ou na base de terceiros e isto fez a diferença. A Galapagos tem um segmento muito importante, que é a estruturação de dívida, que não passa pelos fundos, mas pela distribuição na base de clientes.

Mudanças na tributação offshore, nos fundos exclusivos também ajudaram a área de Wealth a crescer? 

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Primeiro, houve um desafio de entendimento, de aconselhamento, mas acho que, como foi universal, o Brasil caminhou para uma tributação que todo mundo tinha. No fim do dia, todos buscaram fugir do come cotas. Com o tempo absorveu. Foi exatamente esse choque invertido de expectativas que levou a indústria de fundos a ter uma migração muito grande. E boa parte procurou produtos que a gente estava fazendo sempre desde a nossa origem, que são produtos high yield ou high grade, sempre estruturados com garantia real, com monitoramento do crédito. Com isso, a gente teve uma geração de dinheiro novo, que chamamos de net new money. Crescemos a faixa de R$ 1,2 bilhão no ano passado, só em termos de gestão de carteiras. Já vinha num ritmo de crescimento desde 2020, quando a gente iniciou a atividade, mas no ano passado acabou se beneficiando desse movimento. E não só pelo movimento de mercado, mas também por estarmos posicionados adequadamente nesse aconselhamento financeiro e já ter um track record dentro da casa. Foi a atividade que mais cresceu na casa.

E a área da asset voltada a produtos líquidos, como foi enfrentar os desafios do cenário? 

Foi onde houve o maior sofrimento. A nossa gestora nunca foi focada em ações, mas voltada ao crédito. Como o mercado migrou para crédito, a gente sofreu menos, porque tínhamos baixa disposição em renda variável e baixa disposição em multimercado. Estávamos mais alocados em operações estruturadas de crédito, que é o nosso fundo Galapagos Evolution e o fundo Galapagos Dragon. Eles são basicamente fundos de renda fixa baseados em crédito. A gente conseguiu manter o ativo e tivemos um crescimento leve, mas tivemos. A gente não perdeu o volume, como todo o mercado acabou perdendo, principalmente para o título público. E, além do título público, havia um destino para operações de crédito e os nossos fundos acabaram se beneficiando dessa operação. A casa tem R$ 23 bilhões sob gestão. Eu dividiria mais ou menos, metade é asset, metade é wealth, carteira administrada.

A Galapagos tem um público institucional importante atendido pela asset. Como tem se comportado?

Na asset, é o que falamos, foi sofrido, mesmo tendo três atividades distintas na área. A primeira é o Institucional, com fundos de pensão, previdência com Advisory e produtos mais high yield. Atendemos 12 instituições fazendo a gestão de uma parte da carteira dos fundos. É uma tendência crescente. Foi um bom ano para nós. Na asset, temos ainda uma área de fundos de fundos, para o institucional, e a outra de gestão ativa mesmo, tanto ativos líquidos quanto ilíquidos. Os ilíquidos são os estruturados, basicamente FIDCs e Fiagros, que tiveram um ano bom. Quando você tem restrições de crédito, a indústria de FIDC cresce. A Galapagos nasceu com FIDC desde a origem. Nosso crescimento sempre foi fazendo fundos estruturados dedicados, no agro, no segmento de pequenas empresas, ou no multicedente e multisacado.  

Na virada do ano, a Galapagos recebeu autorização da Susep para emitir LRS como parte da operação de seguro da casa. Quanto pretendem captar?

Nós iniciamos nossas atividades no setor com corretagem e da corretagem a gente vai se aproximando do setor, vendo as carências de produtos. Em 2022, teve uma mudança de legislação da Susep que acabou gerando a oportunidade da emissão das LRS, que nada mais é que um resseguro. Lá fora, é um mercado expressivo, na faixa de US$ 150 bilhões, e aqui a gente vê um crescimento potencial grande. Na Galapagos, queremos emitir perto de R$ 3 bilhões nos próximos anos. Não deixa de ser um instrumento de investimentos. Começaremos com risco de crédito, de performance, esta é a ideia.

As asset, em especial as monoprodutos, sofreram com a virada nas perspectivas de juros e câmbio no ano passado. Qual o reflexo na Galapagos, em especial no banco de investimento?

Todo mundo estava no kit do juro caindo, trabalhando com a ideia de um câmbio controlado, a inflação controlada e, de repente, tivemos, por diversos motivos, mas principalmente pela política fiscal, uma mudança nas expectativas que levou à subida da Selic. Para nós, na área de estruturação de dívida, mesmo com a subida de juros, os produtos mais estruturados, uma emissão mais longa de certificado de agronegócio (CRA), de certificado imobiliário (CRI) ou de uma debênture longa, tiverem seu momento. A gente foi bastante seletivo, óbvio, mas, ao mesmo tempo, registramos um crescimento na estruturação desses negócios. Na área de fusões e aquisições foi um pouco diferente. Iniciou-se o ano de 2024 bem arrastado, em termos de geração de mandatos, e depois teve um rali, forte, de concretização a partir de setembro para o final do ano. Tivemos um quarto tri bastante significativo em termos de mandatos e execução de mandatos em fusões e aquisições, que faz sentido. Quando taxa de juros sobe, sempre aumenta. Tem um trade-off porque se alguém precisa de crédito e está caro, busca vender a empresa ou quer estruturar algum acordo societário para atrair capital, que não seja o capital de dívida. Esse foi o retrato do Banco de Investimento de 2024. Não foi um ano maravilhoso, mas foi um ano bom. A gente conseguiu quase entregar o nosso budget. As coisas entraram no final do ano passado. Os mandatos que a gente tinha conquistado acabaram sendo realizados de uma maneira satisfatória no quarto tri.

A Galapagos tem um projeto para utilizar Inteligência Artificial (IA). Como caminha e quais benefícios vocês esperam obter? 

Em termos de tecnologia, estamos fazendo um investimento significativo e vamos continuar neste ano. O que buscamos é a consolidação de um data lake proprietário, a implantação de todo o CRM na casa, que ocorreu o ano passado e com sucesso. Hoje, toda a nossa área comercial tem um sistema de gestão e relacionamento com cliente ativo que permite ter bastante informação. E estamos já iniciando um processo do uso da Inteligência Artificial a nosso favor, não sabemos se é a OpenAI ou se vai ser o Deepseek. Agora temos opção. Primeiro, não dá para ter IA sem ter dados, por isso o data lake é o mais importante. A inteligência artificial aprende com os dados, não nasce sabendo nada. A ideia é substituir processos repetitivos, que não fazem mais sentido, e podemos jogar nossa energia em coisas que geram valor. A inteligência artificial vem ajudar a analisar aspectos do cliente, perfil, tudo com o processamento do banco de dados. É um processo de learning, que a gente já iniciou no passado no onboarding do cliente. O objetivo principal da nossa IA é a melhoria dos processos, melhoria da inteligência de decisão e no crescimento de AUM. O retorno vai estar no crescimento da AUM.

Os R$ 23 bilhões de AUM da Galapagos no fim do ano passado representam quanto de crescimento?

É muito difícil comparar com o ano anterior porque não tínhamos o Multifamily Office, que sozinho trouxe uns R$ 4,5 bilhões. Também teve a vinda de institucional em que fizemos a integração, que acabou gerando essa incomparabilidade de números. São bases distintas. Foi um ano positivo em todos os negócios, porém aquém do que a gente planejava em função do mercado que ficou mais restritivo no crédito, teve problemas no agro, seca histórica relevante para o país. Um ano difícil.

De onde virá neste ano o crescimento dos recursos geridos?


A gente quer crescer nos três pilares – asset, wealth e banco de investimento - e acho que o ano de 25 vai ser desafiador. A gente quer consolidar mais os nossos negócios, mas sempre aberto a oportunidades. Não dizemos que isto ou aquilo não fazemos. A gente está aberto porque o mercado, quando tem muito risco, também tem muita oportunidade. É continuar na interconexão de pessoas e empresas utilizando o mercado de capitais que é crescente. Independentemente da taxa de juros, o mercado de capitais vai continuar crescendo até pela própria migração do sistema bancário para o mercado de capitais.


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