Rio Bravo estrutura seu primeiro ETF e um ativo tokenizado, informa o CEO Paulo Bilyk

A ideia inicial da Rio Bravo, criada há exatos 25 anos, era atender grandes clientes, as fundações. Mas foi com o crescimento dos investidores de varejo que a casa descobriu sua vocação e fincou o pé no mercado como uma asset especializada em fundos listados de renda, como os fundos imobiliários (FIIs) e os produtos de infra que possui. Com os juros altos e o menor apetite a risco do investidor, a carteira de fundos listados foi reprecificada, e como não permite resgates, sofreu menos do que outros fundos. A Rio Bravo encerrou 2024 com R$ 13,3 bilhões de AUM, discreto aumento sobre os R$ 13 bilhões de 2023. “Nosso modelo de negócio é muito estável. As áreas de Fund Service e a de Soluções dão previsibilidade de receita”, comenta o CEO e fundador Paulo Bilyk, destacando o rápido crescimento da área de Soluções, mais recente (2022) e que já conta com R$ 1,8 bilhão na carteira. “São produtos feitos em alfaiataria para atender demandas específicas de ALM de grandes fundos de pensão.”
Na entrevista à Capital Aberto, o CEO falou sobre oportunidades de compra em fundos imobiliários, citando um dos FIIs da casa, o Pátio Higienópolis (SHP11). Dono de 25% do Shopping Pátio Higienópolis, na capital paulista, o fundo já aprovou um follow on para captar recursos e adquirir uma fatia adicional do empreendimento, de até 19,77%. Tendo feito sua estreia no universo dos FIDCs em 2024, com dois produtos, há planos de crescer nesta classe de ativos, de ingressar no universo dos ETFs e de lançar um ativo tokenizado. Acompanhe:

Como foi o ano de 2024 para a Rio Bravo em suas diferentes verticais de negócios e o que vocês esperam para este ano?
A primeira coisa é que ninguém precisa sublinhar quão desafiador foi 2024 e não há o que dizer com relação ao ambiente econômico que já não tenha sido dito. De fato, houve um desafio grande para quem administra dinheiro. O que nos beneficia, neste momento de menor exposição a risco, é sermos gestora de grandes fundos listados focados em renda. As pessoas tendem a procurar menos fundos ativos, complexos e caros. A teoria e a prática mostram que muito poucos deles conseguem realmente entregar resultados consistentemente acima das suas medidas de risco. A lógica dos grandes fundos listados com renda, significativamente mais baratos, é crescer em tamanho e diversificação e manter muita especialização vertical.

O que você quer dizer com especialização vertical dos produtos ?
Por exemplo, se nós estamos falando de renda imobiliária, foco em renda logística, foco em renda corporativa, foco em renda residencial, ou alguns edifícios médicos, shopping centers. A equipes são mais circunscritas no seu trabalho a um ambiente que já tem um super desafio de acompanhamento. Para você administrar hoje um fundo de renda varejo, como a gente faz, precisa conhecer de varejo, que é muito mais do que entender do imóvel. Preço por metro quadrado, taxa de ocupação, cláusulas de contratos, na verdade, são menos importantes do que a qualidade do imóvel para certos tipos de varejo. Se é um imóvel de esquina, se é um imóvel de alto impacto visual, se é um imóvel discreto, enfim, bem mais complexo.

Qual o efeito prático, em um cenário como o atual, da Rio Bravo ser focada em fundos litados de renda?
A vasta maioria de nossa família são fundos listados de renda. E a maior parte do que fazemos são fundos de renda imobiliária. Mas poderiam ser fundos de crédito, crédito imobiliário, por exemplo, ou crédito de infraestrutura e outros tipos de crédito que vêm surgindo no mercado. Como gestora desse tipo de veículo, nós sofremos muito menos saques, porque não há saques, o investidor vende a posição na bolsa para outro. O que existe é uma reprecificação. A gente viu os fundos de imobiliário se reprecificando pelo juro mais alto. O fato é que esses fundos são muito mais resilientes em momentos de volatilidade, de permanência do que fundos menores e que são abertos.

Nos fundos listados da Rio Bravo, neste cenário de reprecificação de 2024, houve espaço para ir a mercado e captar?
Sim. O ano passado foi um ano que já plantou um pouco a história do mercado deste ano. Foi um período difícil, marcado por ofertas novas de crédito e com crescimento dos fundos de crédito imobiliário, de CRI, High Grade e High Yield, e dos fundos de infraestrutura. Nos fundos de renda imobiliária, o que houve foi o crescimento de alguns que tinham demandas específicas de crescimento e que já tinham muita reputação, entrega, base de cotistas, por exemplo, o Rio Bravo Renda Varejo (RBVA11). Esse ano, com a taxa de juros em alta e volatilidade, pode ser muito restritivo para os FIIs. Já o mercado de crédito privado tem mostrado muita pujança, liquidez e resiliência. É onde a gente acredita que haja mais possibilidades.

A reprecificação dos FIIs tem gerado oportunidade de compra, tanto de fundos quanto de ativos das carteiras?
Eu vou inclusive citar um terceiro, que é a Brookfield e a gente respeita muito a casa. Hoje a Brookfield é uma gestora internacional de altíssima qualidade, muita competência. A qualidade das plataformas imobiliárias deles é muito sofisticada. Eles dizem que é um bom momento para fazer aquisições de imóveis corporativos, dado que muitas empresas talvez queiram vender esses ativos e fazer liquidez num ambiente de custo de dinheiro muito alto. Outros fundos imobiliários, por exemplo, podem não ter mercado para levantar dinheiro para concorrer nessas aquisições e podem virar alvo. Claro que seria muito difícil, nesse momento, a gente conseguir ir ao mercado, fazer uma oferta e levantar recursos para fazer aquisições. É um apelo inteligente, positivo, mas que o investidor de varejo dificilmente vai comprar.

Apesar da dificuldade de captar, a Rio Bravo conseguiu a aprovação dos cotistas do FII Pátio Higienópolis (SHPH11) para captar recursos e elevar a participação no ativo.

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É fato que as pessoas estão muito desafeitas a risco. E está tudo certo. É muito importante a gente enfrentar a realidade dos fatos, de que, como gestores, não é um mercado para tomar risco e fazer novas captações. A não ser que você tenha um produto esplêndido e único que, por acaso, nós temos, que é o fundo Pátio Higienópolis. Eu não posso comentar muito, mas esse é um fundo onde você tem considerações que, a despeito do produto ser um produto de renda imobiliária, é um fundo que não tem paralelos. Ele tem uma qualidade tão excepcional e há uma demanda tão grande por entradas nesse fundo que a gente tem a possibilidade de se executar alguma coisa, elevar a participação. Tem muita oportunidade bacana no mercado, mas está difícil convencer o investidor de varejo a aportar recursos nesses produtos. Hoje, temos R$ 7,7 bilhões nos fundos listados. Em fundos de crédito e infraestrutura, sendo que a maior é fundos listados, dá mais R$ 900 milhões. Somando os demais negócios chega a R$ 13,3 bilhões.

No ano passado, a Rio Bravo estava captando para um Private Equity, mas a operação foi suspensa. O que ocorreu?
Foi uma experiência que nós decidimos pausar porque o mercado estava adverso, ficou difícil conseguir montar um pool de investidores da qualidade que nós queríamos, do tamanho que nós queríamos. A planta segue adiante com o grupo de investidores que eles têm. O ativo é bom, atrativo. O centro de São Paulo vai se transformar nos próximos cinco a dez anos porque tem um estoque de imóveis de alta qualidade arquitetônica num ambiente também de alta qualidade urbanística. Região com calçada, com fio enterrado, ruas bem feitas. As pessoas confundem um tipo de público com a realidade do local. Precisa de uma boa zeladoria e investimentos privados crescentes, como você vê, especialmente no entorno do Copan, onde a planta está localizada. Era um projeto de retrofit no centro. Não conseguimos achar investidores que precisavam ser tipo family offices, o tipo de perfil para esse negócio.

O ano de 2024 foi de forte crescimento dos fundos de crédito privado, mas com spreads caindo e problemas no agro. Qual a perspectiva para os produtos?
Os fundos que mais crescem no cenário atual são os fundos de CRI, os fundos agro e os fundos de infraestrutura. Porque estão 100% a favor do vento. A economia brasileira continua crescendo bem e não há nenhuma perspectiva de recessão. Há demanda por crédito imobiliário, mas os bancos não querem oferecer por prudência. Consequentemente, os fundos que sabem operar em nichos têm uma grande oportunidade. No agro, apesar de toda a competência dos gestores, a gente já viu que quando você empresta para o produtor, a volatilidade do recebimento é muito diferente do que o CRI. Muita gente entrou no mundo de recebíveis agrícolas (CRA) pensando que era parecido com o mundo de recebíveis imobiliários (CRI). E, absolutamente, não é. A produção agrícola é uma commodity altamente volátil, depende de variáveis climáticas. Além do que o devedor imobiliário está acostumado a um mercado mais rígido, a ser punido pela inadimplência, enquanto o grande produtor agrícola brasileiro, talvez o médio, não está. Os grandes bancos, tipo o Banco do Brasil, têm muita benevolência com renegociação em problemas de safra.

Dentro da operação da Rio Bravo, qual o peso do investidor institucional nos produtos?
A Rio Bravo nasceu como uma gestora de dinheiro para fundos institucionais ou de pensão. Mas no decorrer do tempo, os fundos imobiliários ganharam espaço e foram incorporando esse público de varejo. A gente tem muito mais dinheiro de clientes de varejo do que de fundo de pensão. Na Rio Bravo, as atividades principais de fundos de pensão estão na área do que a gente chama de Fund Services, de serviços fiduciários. Podemos atender os grandes institucionais, fundações, family office ou uma corporação. Temos uma outra área dedicada 100% a fundos de pensão, é o que a gente chama de Soluções. Hoje, a gente administra R$ 1,8 bilhão em soluções. São produtos feitos em alfaiataria para atender demandas específicas de ALM (asset liability management) de grandes fundos de pensão. Esta área é mais nova e já é maior do que a área de crédito, que tem perto de R$ 900 milhões. Vai muito bem. Os clientes da área de Soluções normalmente são grupos de fundos de pensão, para quem a gente cria um produto que dá uma exposição de natureza muito particular para certos tipos de risco com certos tipos de limites.

O que falta na grade de produtos e serviços oferecidos pela Rio Bravo? O que vem pela frente?
Nós vamos fazer algo voltado a ativos digitais, estamos perto de lançar. Teremos também um ETF e vamos ter um token. O ETF é na mesma linha do que descrevemos em fundos imobiliários, um produto de alta escala, onde existe um índice claramente estabelecido e que custa barato para a disposição dos clientes, com renda. As pessoas têm percebido cada vez mais nos mercados desenvolvidos o valor do ETF como o alocador simples de longo prazo de capital. Há gestores ativos de suprema competência e que podem muito bem fazer parte do portfólio de todo investidor inteligente, mas é muito difícil saber quem são. O ETF será de ações, principalmente no modelo quanti fatorial, junto com o modelo fundamentalista. Terá componentes de long & short e algum componente de juros. Já o token é só mais uma outra forma em que a tecnologia vai ser testada, o blockchain, que facilita a securitização de ativos. A gente quer tokenizar carteiras diversificadas. É o máximo que eu posso dizer. Lançamos neste primeiro semestre.

Vocês estrearam no ano passado no universo dos FIDCs. Pretendem expandir a atuação?
É atividade que está crescendo muito e queremos avançar mais neste ano. Temos o FIDC Agro, lançado em parceria com a Desenvolve São Paulo, para crédito ligado à logística agrícola. Temos um outro que é um FIDC que compra cotas canceladas de consórcio. É uma parceria com o Grupo Stefanini e a BRBB. A Stefanini faz a originação de varejo dessas oportunidades e depois a BRBB busca oportunidades mais de atacado. Este fundo nasceu com R$ 55 milhões, já está com R$ 60 milhões. É um fundo que a gente acredita muito. E nós queremos fazer mais fundos desse tipo, mais FIDCs.

Qual a meta de crescimento da Rio Bravo?
Temos hoje R$ 13,3 bilhões de ativos sob gestão. Nossa meta é crescer 30% ao ano. E sendo bem honesto, não é fácil fazer isso em 2025. Nós tivemos, acho que diferentemente da maioria do nosso segmento, resultados positivos em 2024. Avançamos sobre o ano anterior, enquanto muitas gestoras perderam patrimônio. Crescemos, mas teve também redução de certos fundos. Não quero contar vantagens. Nosso modelo de negócio é muito estável. Por outro lado, não temos aqueles grandes picos de performance que esses fundos mais ativos registram. Tem certos elementos importantes que dão total previsibilidade à operação, como a área de Fund Service e a de Soluções. Somos uma empresa constantemente rentável, mas com um crescimento incremental e cuidadoso.


