Vendo “crise como oportunidade”, Arton avalia comprar casas menores e acelerar crescimento

Uma curadoria de soluções financeiras 360º, bem ajustada, e um time muito sênior. Foi este o caminho trilhado pela Arton Advisors em seus primeiros três anos de estrada. Atendendo aos diferentes bolsos – pessoa física e jurídica – a Arton se intitula “casa de club deals” e tem em sua base R$ 8 bilhões assessorados em cinco verticais de negócios. “Somos rápidos para identificar oportunidades. Temos um excelente relacionamento com as contrapartes e conectamos todos de forma ágil”, comenta Bernardo Assumpção, CEO da Arton Advisors. Ele se refere aos 18 sócios que deram origem à casa, egressos de JP Morgan, Citibank, CreditSuisse e XP, que Assumpção chama de “excelente blended”.
Em entrevista à Capital Aberto, o CEO contou um pouco da história da casa e dos planos para chegar a R$ 15 bilhões sob consultoria em 2025. Até aqui, o crescimento foi inorgânico, mas segundo Assumpção, a casa está “de olho nas oportunidades” de aquisição de empresas menores e em bons negócios que devem surgir em um ano (2025) que será dos mais difíceis com Selic acima de 14%. Acompanhe:

Como foi o desenvolvimento da Arton Advisors nestes primeiros três anos no mercado? Desde o começo, a ideia foi olhar as cinco verticais de negócios e para pessoa física e jurídica?
A nossa cabeça, como empresários, era ser full service, um olhar 360º para o nosso cliente. Queremos atender os diferentes bolsos. No bolso esquerdo, a empresa tem as dores do dia a dia, tem recebíveis, fornecedores, tem que fechar câmbio, alongar o passivo. A própria empresa, às vezes, tem caixa para investir. A ideia é ter um olhar mais holístico sobre o nosso cliente, que era o empresário. Um pouco dos deals que a gente faz misturam muito a pessoa física com a pessoa jurídica.

Este ano, a Arton comprou parte do B32, complexo imobiliário icônico na Faria Lima que tem uma Baleia na parte externa. Como vocês estruturaram a operação?
Nós tínhamos, nesse grupo de sócios que veio do JP Morgan, Credit Swiss, Citibank e XP, muitos relacionamentos importantes com contrapartes. Isto ajuda nos negócios. Achamos um deal no setor imobiliário, a Baleia, e que tínhamos um excelente relacionamento com as contrapartes, com a gestora, com a família Birmann. Rapidamente entendemos que era uma grande oportunidade e decidimos ancorar a operação, de R$ 160 milhões. Nós fizemos um cheque de R$ 94 milhões e ancoramos a operação. Conseguimos ser muito rápidos para ligar para os nossos investidores, clientes e colocamos capital próprio. Esta é a filosofia, 100% de tudo aquilo que a gente mostra para os nossos investidores, a gente tem na pessoa física. Nós compramos 13,6% do prédio, o B32, da parte que pertencia à família Birmann, utilizando a estrutura de um fundo que levantamos às pressas. O prédio está todo alugado para empresas como Meta (Facebook), Boston Consulting Group, BR Partners, SPX e Jefferie. Naquela região, o metro quadrado está entre R$ 55 mil e R$ 65 mil. Compramos por R$ 43 mil. Aproveitamos rapidamente a oportunidade.

Olhando para 2025, tem perspectiva para novas oportunidades como esta, no setor imobiliário ou em outros segmentos?
Agora temos um juro caminhando para 14,25% ao ano a partir de março. Claro que, aluguéis, obviamente, não são nada sexy nesse momento. Produtos como fundos imobiliários têm muita competição do CDB, da LCA, do título público. Muitos investidores vão querer trocar o FII de tijolo pelo CDI. E vão surgir, na minha opinião, grandes oportunidades em 2025. Vamos ver gente vendendo prédio bom, excelente, com desconto maior. Ele fará a conta e vai preferir 14% ao ano, por ter uma visão de curto prazo, do que um percentual menor no aluguel. Mas se alongarmos a visão, para três anos, a gente não acha que o Brasil aguenta tanto tempo com juro a 14%. Salvo uma grande bobagem do governo, a economia desacelera e a inflação também, e a Selic lá na frente cairá, com o imobiliário voltando a ser alternativa. Todo investidor de maior renda é patrimonialista. Toda crise é um grande vetor de oportunidades no mercado financeiro. E essa não vai ser diferente. Este juro de 14% deveria ser suficiente para o pessoal deixar o dinheiro aqui. Porque vai render muito. Mas a desconfiança e o prêmio de risco são muito altos. Em 2025, com crise no agro, infraestrutura, bolsa de valores e no setor imobiliário, terá oportunidade por toda parte.

Para aproveitar ativos em baixa e comprar, é preciso ter sangue-frio, paciência e bolso. Como convencer o investidor a fazer este movimento?
Na Arton, nós temos hoje R$ 8 bilhões e aproximadamente 300 famílias com ticket médio, por cliente, na casa de R$ 10 milhões. Temos um público private que tem o capital mais paciente. Ele está fazendo conta e nós estamos ligando para esses investidores, primeiro, para orientá-los a não sair vendendo aquilo que não faz o menor sentido. Por exemplo, fundo imobiliário de recebíveis. Tem fundos que estão embutidos na cota, que caiu 30%, IPCA+15%, CDI+7%. E são recebíveis performados, imobiliários de prédio, de terreno, com aval do dono, da incorporadora, as obras já entregues têm um sobre colateral, muita garantia. Então, por que você compraria uma LCA com 100% de CDI, se você conseguir achar, e não comprar uma cota de um fundo imobiliário? Um fundo da Cyrela, por exemplo, tem cota a R$ 8, com queda de 20%, e paga IPCA mais 12%. É bem pulverizado e com belíssimo dividendo. Ninguém faz conta. E a maioria dos assessores querendo acalmar o cliente executa a venda. O fundo imobiliário desagiado hoje é uma operação prefixada sintética.

Este cenário vale também para Fiagros, que vivem um ano bem difícil?
É uma indústria nova, de R$ 40 bi, que está tendo algumas RJs, mas quando você analisa as RJs em relação ao tamanho do PIB do agro, é algo ínfimo. Só que cada semana tem uma RJ do produtor rural, de uma revenda, e todos querem vender. Mas são produtos com garantias reais, físicas, não justifica a venda. É só esperar um pouco. Essas oportunidades, à medida que os juros sobem, vão se empilhando.

Quais as principais teses que a Arton tem procurado e oferecido aos clientes?
A Arton se especializou como uma boutique com olhar 360° sobre o investidor. Investimos o nosso próprio dinheiro nessas teses, e ficamos procurando o tempo inteiro. Em 2024, fizemos uma série desses Club Deals. Há um ano, por exemplo, um pedaço do Cidade Jardim estava sendo vendido. O shopping pertencia à Gazit, dois terços dele, e tinha também como sócios um fundo imobiliário da XP e da própria JHSF. Quando houve a subida de taxas de juros nos Estados Unidos, ninguém sabia o que iria acontecer. O Gazit saiu correndo para vender alguns ativos e se desfez de um terço do shopping Cidade Jardim. Montamos um veículo, ancoramos a transação e compramos muito barato, com 25% de desconto. Shopping é um negócio resiliente, fatura uma barbaridade. Nós já vendemos toda essa participação para os nossos clientes, com um retorno de mais de 40% um ano depois. Esse é um club deal em shopping. Teve também o da Baleia, que já contei. A situação geral piorou de 60 dias para cá, mas estamos muito confiantes de que vai entregar um ganho de capital muito grande para os investidores mais adiante.


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O que a Arton está fazendo agora, quais oportunidades tem mapeadas?
Nesse exato momento, montamos um FIDC exclusivo para os nossos clientes. Buscamos beber na fonte das cadeias de recebíveis performados de grandes empresas como a Vivo e o Mercado Livre. Fazemos essa parceria com o BTG para originar os recebíveis e colocar à disposição para os nossos clientes. A Arton, de uma certa forma, terceiriza toda essa esteira de crédito, que é complexa. Fazemos a curadoria da solução que a gente gosta e, junto às empresas do BTG, colocamos o FIDC exclusivo de pé e oferecemos aos nossos clientes para buscar CDI+4%, CDI+ 5%, livre de taxas. Achamos que o CDI vai ficar alto e o prêmio de risco de crédito, para você ir direto no papel, vai exigir muito cuidado. Porque, imagine uma incorporadora hoje, que toma dinheiro a CDI+5%, uma taxa no próximo ano, ela vai pagar 20% ao ano. Se essa incorporadora não vender, a situação piorar, e ela tiver problemas de custo de construção, ela pode ter problemas para honrar o seu pagamento. Decidimos continuar procurando seletivamente créditos individuais que estão com muito desconto. Mas fazer uma estrutura, que é um FIDC exclusivo. Já temos R$ 20 milhões e, se der, vamos bater em R$ 100 milhões ou até R$ 200 milhões e depois fechamos. Com o FIDC, que não tem come cotas, dá para ter crédito pulverizado, bem estruturado, com excelentes sedentes e sacados. Nos próximos dois anos no Brasil, o CDI vai falar mais alto. Ainda assim, terá muita oportunidade, seja em renda variável, seja em ativos imobiliários e renda fixa. Testamos aquela tese com nosso dinheiro para depois oferecer ao cliente.

Hoje tem alguma tese em que vocês estejam testando para a oferta na base da Arton?
Temos um fundo quanti com aproximadamente R$ 15 milhões, só dinheiro dos sócios. É um fundo que andou de lado até pouco tempo atrás. E agora o robô pegou essa alta do dólar. O fundo está batendo com folga o CDI. Não é para o investidor cardíaco, porque o fundo é volátil. Testamos muito bem a tese e esse fundo, combinado com outros, acaba compondo um portfólio que faz muito sentido. É um fundo que só tem futuro de dólar, atualmente. A ideia é que ele inclua outras moedas, juros e, eventualmente, até commodity. A Arton é um pouco disso, uma boutique de negócios, onde às vezes assessoramos o empresário, até ele vender a empresa. Quando ele vende a empresa, ele fica meu cliente na parte de wealth management. Se ele quer mandar dinheiro para outros bancos, eu boto o chapéu de Family office. Se a empresa do cliente precisa de dinheiro, a gente levanta uma dívida diferente, eu posso estruturar um recebível e colocar em um FIDC. A gente não vende produto na Arton. O que fez a gente chegar com esses R$ 8 bi no mercado, que é hiper competitivo, é essa originação e curadoria de soluções financeiras e um time muito sênior.

Até aqui o crescimento foi orgânico. Vocês pensam em algum momento em acelerar inorganicamente este crescimento?
Fugimos do varejo e não compramos ninguém em três anos. Estamos de olho em 2025, porque crise é oportunidade. Estamos na ponta compradora, buscando encorpar as cinco linhas de negócio. Estamos de olho nas gestoras, tem muito capital humano, de primeiríssima qualidade. A turma está toda sofrendo. Mas estamos bem, a empresa cresceu 47% de receita este ano e em 2023, 40%. Surgindo oportunidade, a gente está de olho na compra de casas menores. Já olhamos mais de 10 operações, até agora. Tivemos dois noivados que não deram em nada, mas seguimos observando e algum destes namoros pode vingar.

Este foi o primeiro ano do braço de M&A que a Arton montou. Como foi o desempenho?
Das 300 famílias que temos na base, a gente tem hoje 14 mandatos de empresas que estão à venda. São empresas de tamanho médio, faturamento de R$ 100 milhões a R$ 300 milhões, em média. Estamos no sell side, na venda. O que buscamos fazer é ajudar um investidor, um empresário, às vezes, a preparar sua empresa para uma venda futura, porque ele não tem governança familiar, a estrutura de capital está toda errada. Temos empresas do setor de alimentos e bebidas, do setor de logística, farmacêutica. Desde que montamos a área, concluímos uma operação grande, mas não posso citar o nome ainda pelo acordo de confidencialidade, e temos 14 mandados. 95% dos mandatos vieram originados dos clientes que atendemos, que é justamente o complemento do negócio. A gente aproveita todas as avenidas.

E no braço de corporate, como foi o ano de 2024 para a Arton?
Executamos três operações de dívida em dezembro. Fizemos R$ 250 milhões em dívidas para três incorporadoras no Sul e sudeste. Com garantias de imóveis, recebíveis e aval dos donos. Fechamos bem o ano. Foram três CRIs. Talvez tenha sido o last dance. E curiosamente, foram três fundos imobiliários que tinham feito follow-on no começo do segundo semestre e estavam buscando operações. Foram emissões a CDI + 4%, CDI + 5%. Vimos oportunidades porque a gente tem ótimo relacionamento com as contrapartes. Sabemos quais fundos têm caixa e conhecemos as incorporadoras.

Vocês fecharam recentemente uma parceria com a Leste no mercado imobiliário. Qual é a ideia?
A Leste também foi uma operação oportunística. A gente entrou no terreno. Desde a época da pandemia, eles tinham um terreno na Brickell Avenue, em Miami. A opção ideal era construir um prédio de 500 unidades para alugar. E quando a vacância tiver 5%, vender e devolver o dinheiro para os investidores. Na nossa cabeça, seria bom entrar no terreno antes das aprovações, assumindo o risco do desenvolvimento imobiliário. E foi o que a gente fez. Criamos um FIP nosso, exclusivo, em cogestão com a Leste, aqui no Brasil, e investimos um dólar de R$ 5,60, levantando uns US$ 12 milhões. Foi uma chamada de capital única. Um mês e meio depois, saiu a aprovação para construção do prédio, já mudou de preço do projeto. O prédio vai ficar pronto daqui a dois, três anos. A gente busca uma taxa interna de retorno líquida (TIR) para os nossos clientes de 16%, 18% ou 20% ao ano em dólar. Conseguimos atrair aquele público de altíssima renda que busca ter uma exposição ao mercado internacional imobiliário, mas não quer comprar uma loja em Orlando. Ele compra uma fração do fundo, do FIP.

Quanto dá para crescer o volume sob assessoria na Arton em 2025 e, se dentro do conceito de atendimento 360º, falta algo na casa?
Hoje temos R$ 8 bilhões. Nosso objetivo é chegar a uns R$ 15 bilhões ano que vem. Seria algo que nos deixaria muito satisfeitos fechar o ano dificílimo que se apresenta (2025) com este crescimento orgânico e inorgânico. E a gente olhou vários negócios diferentes. Chegamos a olhar consórcio, câmbio, estamos estudando. Sinceramente, a nossa fatia dos clientes é de 20% a 25% do patrimônio que eles têm. Se formos competentes com os nossos próprios clientes, podemos crescer bastante no que já estamos fazendo bem. Todos os negócios podem crescer. No family office temos 22 famílias e perto de R$ 2 bilhões, com um ticket de R$ 100 milhões por família. A nossa área corporate patinou um pouco no começo do ano, mas o segundo semestre foi excelente. O wealth management e seguimos muito focados em club deals. Vai ter muita crise, muita oportunidade. Vamos ver se o apetite do investidor vai estar presente também, porque reconhecemos que o investidor fica mais tímido. Tem a máxima de que, ao som dos canhões, a maioria dos investidores vende, mas deveria vender ao som dos violinos e comprar ao som dos canhões. Quando a crise está dada, é quando você faz seus melhores negócios. O setor imobiliário tem oportunidade na crise. O momento é desafiador, mas a curadoria nunca se fez tão importante.
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