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Verde volta a ter ações locais e prepara entrada em produtos incentivados, diz o sócio Luiz Parreiras

Jiane Carvalho

Luiz Parreiras: sócio e gestor da Verde Asset Management
Luiz Parreiras: sócio e gestor da Verde Asset Management

Reconhecida como uma das mais importantes gestoras de fundos multimercados do Brasil, a Verde Asset Management não ficou imune à onda de saque de recursos da categoria, com o juro alto conduzindo investidores para a renda fixa e produtos isentos. Perdeu recurso como praticamente todos, mesmo que seu cartão de visita, o fundo Verde FIM, tenha batido o CDI no ano passado e possa repetir a dose em 2024. Se o ambiente macro não é “controlável”, nas palavras do sócio gestor Luiz Parreiras, os processos internos de alocação seguem sob controle. “Eu não gosto de afirmar que está mais difícil gerir macro do que foi historicamente. Todo ano é difícil, tem eventos que você não modelou. Acho que essa não é uma desculpa, não é uma boa explicação”, comenta, sem rodeios, o gestor da Verde.

Navegando em um mar revolto comum a gestores de multimercado e ações, a Verde segue trabalhando para se adequar à realidade. Criou seu primeiro FIDC este ano, entrando em crédito privado com um produto próprio, e prepara o ingresso em produtos incentivados. Na entrevista à Capital Aberto, Parreiras falou sobre o momento da Verde, que incluiu redução da equipe, do bom desempenho do FIDC, um D360, que “cuida da construção do passivo como cuida do ativo” e da competição, “que é quase desleal com ativos isentos”. Hoje, com R$ 19 bilhões de ativos sob gestão, queda de R$ 5 bilhões neste ano, a Verde acaba de retornar à bolsa brasileira, com uma posição pequena, e colhe os frutos da escolha acertada pré-eleição americana, com alocações em Bitcoin. Acompanhe:

São quase 10 anos da Verde Asset, fora o histórico anterior dos gestores. Qual foi o melhor e o pior momento da asset?

Um dos melhores momentos foi em 2015, logo após começarmos. Tínhamos aquela energia empreendedora, depois de oito anos onde ficamos dentro do Credit Suisse. Foi um ano especial para nós em termos de performance e dessa energia criativa empreendedora. Outro destaque foi o período entre 2020 e 2021, em que a companhia enfrentou o desafio de mandar todas as pessoas para casa [por conta do isolamento social] e gerir bem os recursos das pessoas. São dois marcos que gosto na nossa história. O momento mais difícil é este biênio, 2023/2024, por conta da condição de mercado. Os multimercados passam por um ciclo de resgate absolutamente sem precedente na história. Tem toda uma competição, que é quase desleal, com os ativos isentos. No ano passado, a gente conseguiu ter uma boa performance, fechamos o fundo Verde no primeiro quartil da indústria e batemos o CDI, mas menos do que gostaria. Neste ano, estamos um pouco abaixo do CDI, mas brigando para superá-lo.

Qual a maior dificuldade para um gestor de multimercado, hoje, gerar retorno ou conseguir estancar a saída de recursos?

Não gosto de afirmar que está mais difícil gerir macro do que foi historicamente. Todo ano é difícil, tem eventos que você não modelou. Eu acho que essa não é uma desculpa, não é uma boa explicação. No nosso caso, em 2023, fomos bem em macro, curiosamente. Ganhamos dinheiro em juros no Brasil e algum dinheiro em juros lá fora. A gente ganhou dinheiro em moedas, um bom dinheiro, em commodities, particularmente petróleo, e em crédito e bolsa no exterior. Mas perdemos dinheiro na bolsa brasileira. Falar que o macro foi difícil é uma explicação conveniente, mas como toda explicação conveniente, é simplista.

Neste ano, como está a alocação dos recursos do Verde e de onde vem o retorno perseguido? 

Estamos um pouquinho abaixo do CDI, mas chegando lá. Perdemos dinheiro com bolsa no Brasil, menos do que no ano passado, e com juros no Brasil. Até abril, tínhamos posições aplicadas em juros, quando teve uma espécie de cavalo-de-pau. Vinha no ciclo de cortes, puxa o freio de mão e depois o mercado começa a precificar outro ciclo de altas. Perdemos algum dinheiro com posições naquele momento e depois ganhamos algum dinheiro na alta. Por outro lado, fomos bem em moedas, de novo em commodities, juros e bolsa no exterior, um bom dinheiro. 

Vocês tinham zerado em setembro as posições na bolsa brasileira. Continuam sem exposição à renda variável local?

De setembro até uma semana atrás estávamos zerados. Já voltamos ao mercado local e hoje estamos levemente comprados. Uma posição pequena, entre 5% e 6% do portfólio. Voltamos a ficar comprados um pouco por expectativa de que tenha algum out come, alguma notícia positiva vinda do lado fiscal que dê um certo ânimo. É uma posição pequena, porque a bolsa brasileira continua bastante difícil nesse cenário de Banco Central subindo juros. Temos a expectativa do pacote, estamos ‘esperando Godot’ há pelo menos umas três semanas.

No contexto de juro em alta e permanecendo alto, qual a perspectiva para os multimercados?

Adoraria ter uma boa resposta para essa pergunta. A resposta sincera é: não sei. Esperamos que o juro vá até algo como 13%, talvez um pouco acima. Nos multimercados, o dinheiro sai e vai para algum lugar, normalmente crédito privado muito líquido e ativo de infraestrutura. O meu raciocínio parte um pouco dessa lógica. Essas duas classes de ativos já não têm mais nenhum prêmio de risco. No mundo de infraestrutura, tem emissões abaixo da curva soberana. E no mundo de crédito privado, os fundos começam a ter retornos abaixo do CDI. Esta realidade me indica que a saída de recursos dos multimercados deveria reduzir de ritmo. Por outro lado, com a Selic alta, o apetite do investidor por risco vai continuar baixo. Sem falar nesta jabuticaba maluca da isenção fiscal para vários ativos.

A resposta sincera é: eu não sei. A resposta realista é que provavelmente teremos, mesmo que num ritmo muito menor, uns seis a 12 meses ainda de uma janela complexa. A parte final da resposta é que a gente, enquanto gestor, tem que se preocupar com aquilo que está no nosso controle, que é um bom processo de investimento, com disciplina, pesquisa robusta e colocar as posições necessárias. Se fizermos isso bem-feito, vamos gerar retorno e conseguir estabilizar essa situação e, inclusive, voltar a atrair capital dos clientes.

O crédito privado e os fundos seguem captando forte, mesmo com spreads cada vez menores, como você citou. Até onde vai essa festa do crédito privado sem aumentar demais o risco? 

Essa é a pergunta de alguns trilhões de reais. Nós não vemos, de uma perspectiva do risco de crédito, mesmo com os spreads muito baixos, o risco de um problema sistêmico de default. O nível de alavancagem das companhias, especialmente no high grade, parece ok. Não tem um problema sistêmico de crédito como o Brasil viveu no ciclo de 2014/2015, com estatais endividadas e construtoras, grandes emissoras de debêntures, com problemas por conta da Lava Jato. Onde eu vejo o problema sistêmico, mas provavelmente vai levar mais tempo para se manifestar, é do lado do investidor que está super alocado numa classe de ativo onde o retorno não está pagando o risco.

Que tipo de risco você vê do lado do investidor e quais seriam os fatores que desencadeariam o problema? 

Ele pode vir à tona de duas maneiras. A primeira é similar ao que aconteceu em 2018 ou 2019. O juro cai e as pessoas super alocadas nessa classe de ativo querem sair e investir em ações, multimercados ou imobiliário. Esse deslocamento de dinheiro saindo dos fundos de crédito vai ser muito complicado. Devido ao volume. O mercado não tem liquidez e profundidade para permitir que essa saída seja suave e não tenha impacto nos preços. Esse tipo de processo não é uma história de 2025, mas potencialmente de 2026. O segundo risco remete mais ao que aconteceu nos primeiros quatro, cinco meses do ano passado. Você tem uma classe de ativo super investida, no preço errado e vem um evento inesperado como Americanas, que ninguém está olhando. Em momentos assim, todos querem sair ao mesmo tempo. Esse tipo de evento é difícil de prever. Se você está correndo risco, sendo mal remunerado por esse risco, depois você não pode reclamar.

Na última carta do gestor, falando sobre o fundo Ipê, um FIDC, vocês citaram riscos visíveis e invisíveis. É o mesmo paralelo?

Sim. O cliente, quando está super alocado numa classe, muitas vezes não presta atenção nos riscos visíveis, quanto menos nos invisíveis. Isto é um problema. Me remete, inclusive, ao que escrevemos na carta sobre o nosso FIDC, sobre a distinção entre o que é visível e o que é invisível. Na classe de crédito privado, não só os fundos, mas vale também para todo esse universo dos ativos isentos, das debêntures incentivadas, as pessoas estão sendo mal remuneradas para correr riscos visíveis, quiçá os invisíveis. E, particularmente, sobre o risco de liquidez, ninguém está pensando nisso. Se eu quiser vender o meu fundo ou quiser vender uma debênture de infra que tenho no portfólio, qual é o custo dessa liquidez? Não vejo essa discussão no mercado. Mas existem riscos invisíveis e nós aprendemos essa lição o ano passado, quando houve o evento da Americanas. Tem um risco embaixo da superfície e as pessoas não estão nem pensando nele.

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Vocês criaram neste ano o primeiro fundo de crédito da Verde, o Ipê. Por que a escolha de um FIDC como instrumento?

A nossa história em crédito privado não começou agora. Começamos a investir nessa classe de ativo em 2013. Desde então, viemos depurando o nosso processo de investimento, construindo a equipe, as capacidades internas de avaliar e investir em crédito de uma maneira sólida. Fazíamos isto usando o capital dos multimercados. Desde o ano passado, vínhamos discutindo pegar essa estratégia e abrir um veículo próprio. Em parte, por conta dos resgates que os fundos multimercados vinham tendo, por outra, porque a gente estava com uma estratégia pronta para levar para os clientes. Na virada do ano, teve todo o rearranjo regulatório e tributário da indústria de fundos no Brasil e seguramos o projeto de trazer um fundo para o mercado, e redesenhamos como um FIDC. Porque o FIDC tem um benefício importante de não ter come-cotas. É um dos poucos veículos que sobrou onde não há o come-cotas.

O fundo Ipê rende no ano 7,40% de retorno contra um CDI de 5,36%. Qual que é o grande acerto na alocação do recurso?

O acerto é seguir o processo de investimento ao qual nos comprometemos. É um portfólio de crédito bastante pulverizado. O grande acerto, na verdade, é evitar o erro. Em crédito, o grande acerto é sempre mitigar o erro. Temos um número bastante diversificado de posições, todas com spreads interessantes que vão gerando retorno no dia a dia e acumulando esse retorno ao longo do tempo.

O FIDC da Verde é para investidor qualificado, mesmo a CVM 175 autorizando uma oferta para o varejo. Por quê? 

Acreditamos que o processo de construção do passivo num produto como esse é tão importante quanto o processo de construção do ativo. Se o passivo for malfeito, mal construído, pode, no primeiro soluço, destruir o fundo. É um processo de explicar muito bem para o cliente qual é a estratégia, como fazemos, o que fazemos, como entregamos o retorno, e como controlamos o risco. Nosso FIDC é um fundo D360. Por tudo isto, optamos por criar um fundo para o investidor qualificado, o que nos permite construir o passivo com a mesma disciplina que cuidamos do ativo. Eu sinto que a indústria normalmente não dá a devida atenção. Isso é muito importante.

Fundos de crédito muito líquidos D0, D15 tiveram dificuldade no ano passado, com o evento Americanas. É adequado fundos com ativos privados, de crédito, com liquidez tão alta?

Não acho que o gestor é culpado sozinho dessa questão do prazo do passivo. Tem estratégias que são mais líquidas, tradicionalmente aquelas mais high grade, que comportam em fundos D30.Outras estratégias, mais complexas, que buscam retornos mais altos, deveriam ter liquidez mais longa, D60, D90, D180, D360, que foi a nossa opção. Existe, do lado da indústria de distribuição, uma certa dificuldade em explicar para o cliente que aquela liquidez não é necessária. Tem um monte de gente investida em fundo D1 e o recurso parado há dois, três anos. A verdade é que a pessoa podia estar num fundo D60, D90, buscando retorno. Tem essa fantasia de que todo mundo precisa ter 100% de liquidez instantânea. As pessoas investem em um fundo D60, D90 e o produto tem 30% do ativo em caixa. E são cobradas por taxa de administração também para o caixa. O fundo Ipê roda com 1% ou 2% de caixa. Eu não quero que o cliente me pague para ter caixa. O cliente tem que pagar por alfa e não por caixa. Mas para ter alfa, de verdade, eu preciso ter um prazo mais longo de resgaste.

No ano passado, vocês ganharam um sócio, a Lumina Capital, que atua com special sits. Qual a sinergia entre as operações?

A Verde tinha um sócio desde que nasceu, que era o Credit Suisse que, no ano passado, passou por uma fusão com o UBS. O acorde foi uma solução para a participação que o Credit tinha na Verde. Construímos uma solução societária onde o Daniel Goldeberg, fundador da Lumina, e alguns sócios, compraram a participação do Credit Suisse na Verde. Sobre sinergia, a Verde traz a expertise macro e a expertise de ativos líquidos, e o Daniel traz uma expertise super micro, situações muito únicas, complexas. A troca tem sido muito frutífera de lado a lado. Damos inputs macro e a Lumina colabora com a gente em processos de investimento micro, em conhecimento de situações complexas. Já investimos dentro de algumas das nossas estratégias em operações originadas e estruturadas pela Lumina, dentro do universo de crédito estruturado, uma estrutura complexa.

Vocês montaram posições em Bitcoin antes das eleições americanas. Foi um movimento tático ou parte de uma visão estrutural?

Cripto é aquela coisa que vai ser eterna enquanto dure. Não é a primeira vez que investimos em cripto. Em 2021, carregamos uma posição, uma cesta de criptomoedas, com um retorno excepcional. No fim de 2021, começo de 2022, resolvemos sair daquela posição com um timing muito bom. Criptomoedas estão num hall de ativos que podemos operar. Neste momento, tivemos a percepção de uma vitória do Donald Trump que levaria a um movimento mais acentuado nas criptomoedas. Deu muito certo. É uma posição pequena, porque estamos lidando com um ativo com volatilidade bem mais alta.

Desde o início da Verde, com seu multimercado, a asset foi incorporando outros fundos. Como está hoje? Falta algo na grade?

Hoje, temos na Verde cinco áreas de atuação, com multimercado, previdência, ações Brasil, ações globais e crédito. Não acreditamos que a Verde é como um supermercado, que tem que ter prateleira de todos os produtos. Acreditamos que se tiver um bom processo de investimento que gera retornos ajustados ao risco interessantes para os clientes, vale a pena ter um produto. Como ocorreu no fundo de crédito, o Ipê. Passamos anos construindo isto, e quando estava legal, decidimos ter um produto. A Verde pode atuar em todas as áreas, mas só se acharmos que vamos entregar para o cliente uma coisa boa para ele, com um bom retorno ajustado ao risco. É um approach diferente do que eu vejo na indústria, que é o approach supermercadista. Dito isso, vemos espaço nos ativos que têm um incentivo fiscal, seja infra, seja imobiliário, seja agro, pensando nas grandes classes. Vemos espaço para construir bons processos de investimento e para criar coisas que geram retorno ajustado ao risco. A gente vem trabalhando em projetos nessa linha e, a hora que estivermos convencidos de que estamos com um bom processo, lançamos o produto. Ainda não está definido qual o veículo, o produto.

Há algumas semanas a Verde passou por um processo de demissões, ajustando a equipe à nova realidade. Está concluído? A asset ficou do tamanho adequado?

Precisávamos fazer um ajuste de estrutura de custo, dada a realidade de resgate e, portanto, de receita da companhia. Há dois jeitos de fazer esses ajustes de custos: o jeito que faz pouco barulho da porta para fora, mas é horrível da porta para dentro, e o jeito que a gente acabou optando por fazer, que é algum ruído da porta para fora, mas preservando da porta para dentro. O primeiro jeito é: demite em uma semana, depois manda mais dois, três e vai cortando aos poucos. Esse jeito deixa a organização completamente refém desse processo e com as pessoas não focadas em trabalhar, com medo. Mas da porta para fora isso é suave, ninguém nota. Tomamos a decisão de fazer um corte de uma vez, deixando a organização do tamanho que achamos que ela precisa ter para que todos fiquem focados em performar. É um processo difícil, ultra doloroso, e temos que lidar com esse ruído da porta para fora. Mas aqui dentro, todo mundo está agora 100% focado em performar, em entregar o melhor resultado possível para o nosso cliente.

Há uma expectativa enorme sobre o ajuste fiscal. Na sua visão, o que importa mais é o valor, o montante a ser economizado, ou a sinalização do governo de compromisso fiscal?

Acho que as duas coisas importam. O governo, por ‘N’ falhas, principalmente de omissão, perdeu muita credibilidade. Ele já não está mais naquele momento em que só a sinalização basta. A sinalização é muito importante, especialmente do Lula, mas só ela não é o bastante. Precisa vir acompanhada de medidas realistas. Tem que ser uma conta factível, realista. Sendo assim, acredito que o mercado verá com bons olhos.


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