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“Estamos estudando um fundo de previdência, falando com parceiros, e planejamos investir no momento correto”

Amanda Meneses

João Vitor Valladares, sócio da Arbor Capital
João Vitor Valladares, sócio da Arbor Capital

Nascida em 2014, na época como clube de investimentos, a Arbor Capital surgiu como uma solução para a falta de uma gestora independente no Brasil que dedicasse a maior parte de seu tempo a ações fora do país. A meta da casa, hoje com um patrimônio de R$ 500 milhões, é chegar a R$ 1 bilhão sem perder seu DNA, ou seja, não há planos de atuar em outras áreas do mercado, como crédito privado.  

Em entrevista à Capital Aberto, um dos sócios-fundadores da Arbor João Vitor Valladares comenta que o breakdown da casa, em termos de AUM, basicamente é de capital proprietário, da família e de amigos, que constituem cerca de 50% do total. A segunda principal fonte de recursos para os fundos da Arbor vem de um grupo institucional, no qual, destaca Valladares, estão “mirando mais hoje”, principalmente fundos de pensão e RPPS (Regime Próprio de Previdência Social), que vem crescendo bastante, alinhando-se à estratégia de longo prazo dos fundos da gestora. A casa, que foca principalmente em ativos nos Estados Unidos, tem planos de criar produtos para a previdência. Confira:

Arbor tem um bom tempo de mercado, surgiu em 2014. Como foi a criação da gestora ?

Fundamos a Arbor em 2014, na época, como clube de investimentos. Em 2015 a gente transformou em fundo o que a gente tinha como clube. O motivo principal foi que não encontrávamos, no Brasil, uma gestora que dedicasse a maior parte do tempo em ações fora do Brasil. Isso vem mudando de forma gradual, e ainda tem muito para caminhar neste sentido, mas há 10 anos, o que a gente via de home bias no mercado brasileiro era ainda maior. Hoje os números são muito absurdos também, mas a ideia é que para a gente fazia pouco sentido adotar uma estratégia de investimento de longo prazo em ações focando apenas no mercado brasileiro..

E por que ser a primeira gestora de recursos independente a criar fundos de ações lá fora

Tínhamos uma sensação de falta de satisfação no trabalho, de estar dedicando nossa carreira exclusivamente ao mercado brasileiro, apenas às empresas brasileiras, quando víamos muita oportunidade fora. Achávamos que o mercado local era extremamente limitado, muito imprevisível. Primeiro, você tem pouquíssimas empresas, uma limitação de setores. A economia brasileira é muito ligada a commodities, a bolsa brasileira, as empresas em geral são muito antiquadas, e nos Estados Unidos você tem um grande contraste. Na época, todo mundo falava que era estranho uma gestora no Brasil focando “no mundo”. Não existiam muitos pares fazendo a mesma estratégia. Alguns, inclusive, que chegaram a insistir, fecharam, não tinha muitos exemplos de sucesso. Somos um fundo de ações, onde a gente entende que o Brasil, dentro do mundo, tem pouca relevância, muito pouca. Mas dado que estamos aqui, que é um mercado que a gente conhece, acabamos também aproveitando as oportunidades locais.

João, você mencionou que vê algumas oportunidades aqui, apesar de olharem majoritariamente para o cenário global. E quais são essas oportunidades? 

O core do que a gente faz é encontrar empresas que, a grosso modo, têm três características dentro delas: crescimento estrutural, estão dentro de alguma tese de longo prazo que conseguimos contar e ver um crescimento por vários anos; alta barreira de entrada, com uma posição de indústria muito relevante, altos retornos por um período prolongado. Fora isso, elas são muito previsíveis. Essas são as três características que a gente busca: previsibilidade, barreira de entrada e crescimento. Reservamos de 85% a 100% do nosso patrimônio a empresas com essas características. Os 15% restantes é um book que a gente considera mais oportunístico. São empresas que, às vezes, estão passando por alguma condição atípica, frustraram o mercado por algum motivo e estão muito descontadas. No Brasil, a gente procura mais esse segundo bolso, esse bolso oportunístico. O bolso de carrego, a gente prefere lá fora. Como a gente está buscando previsibilidade, para nós faz mais sentido buscar previsibilidade onde tem também uma economia previsível. Ter esse bolso de carrego no Brasil, com todas as questões de mercado emergente, ciclos econômicos, todas essas nuances, a gente acha que é mais difícil para a estratégia..

E na história dos fundos daArbor, de onde vieram os maiores retornos ?

É curioso, a gente é mais conhecido por investir global, mas a empresa que teve o maior retorno, a maior contribuição de performance para o fundo foi a PetroRio. Ela foi uma empresa que a gente investiu pela primeira vez em 2016, estava na transição de HRT para PetroRio. No momento de entrada da empresa, era um cenário mega conturbado. De lá para cá, a história foi mudando e a gente carrega até hoje. A posição era pequena e hoje virou média. Mas por quê? Porque naquele momento era exatamente isso, totalmente oportunístico, um negócio super descontado onde a gente via uma oportunidade de destravar valor e tornou-se uma tese de crescimento. Hoje a gente não tem mais no portfólio muitos investimentos no Brasil. Mas ano passado, o principal contribuinte de performance do fundo também foi uma empresa brasileira, o Banco Inter. Era uma empresa que estava negociando a 50% do valor de liquidação. Uma história semelhante.

Quais as teses adotadas para os quatro fundos da Arbor?

Temos fundos, veículos feeder, mas na forma de pensar, temos dois fundos. O Arbor Estratégia Long Only, que tem 10 anos, e o estratégia Long Bias, que vai completar um ano no final do mês que vem. Começando pela estratégia Long Only. É um fundo que não tem exposição cambial, costuma ter entre 20 ações e a maior posição hoje está com 9%. Podemos montar a posição máxima de forma ativa, 10%, mas ela pode crescer até 15%. Depois disso, por mandato, a gente tem que reduzir. Outros parâmetros de risco de limite que temos no fundo é de 30% de mercados emergentes. Hoje, tem só Brasil e com cerca de 10%, com PetroRio e mais algumas posições pequenas. O principal setor dentro do fundo é serviços financeiros. No contexto de geografia, acabamos tendo muito mais nos Estados Unidos. Gostamos muito do capitalismo americano. Por característica de estar sempre investido e não ter nenhum tipo de proteção, tem hedge cambial, mas a gente não compra put, não faz proteção etc., ele prioriza retorno no horizonte de 5 anos. Já o Long Bias, classe que tem muita adesão no Brasil, leva em consideração a volatilidade e o drawdown, que são duas métricas que não observamos no Long Only. Tem um limite de volatilidade de 10% e um limite de drawdown de 15%, extremamente rígido. A ideia é justamente permitir que um público que é menos sujeito ou acostumado, que tem menos predisposição à volatilidade, acostumado à renda fixa etc., também consiga ter alguma disposição relevante em ações. Ele tem um ponto neutro de 50% investido em ações, replica o portfólio do Long Only, e o restante, os outros 50%, estão em renda fixa e o grosso é LFT. Tem uma parcela até 10%, onde podemos fazer bonds swapados, comprar bonds de empresas brasileiras e swapar para real, também hedgear o câmbio. Um aspecto fundamental dentro do long bias é que ele faz caixa, muda essa oscilação, tem uma cabeça de mexer na exposição a ações.

Os últimos anos têm sido desafiadores para os fundos de ações que investem no Brasil. E vocês, com uma tese mais global, estão com os fundos indo na contramão. Como está a rentabilidade? 

O nosso fundo Long Only, que tem 10 anos de histórico, tem uma performance anualizada de 21%, livre de taxas. No acumulado, 617%. O Arbor hedge é um fundo que tem um histórico mais curto, vai completar um ano em breve. Ele tem um retorno de 23,5% nesse período de 11 meses, com uma volatilidade de 7,5%. Nesse período o CDI foi 10,9%.

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Quais foram os maiores sucessos das carteiras? 

Se a gente observar os contribuidores de performance do fundo Long Only, são empresas em que investimos por uma janela longa. Google, por exemplo, é uma empresa que está desde o dia um do fundo. Tem algumas empresas que estão desde o D0 e estão no portfólio até hoje. Google, Visa, Mastercard, Booking, são quatro empresas que estão desde o D0. Microsoft, Amazon e Meta são empresas que estão desde 2016. PetroRio está desde 2016 também. Quando a gente olha a atribuição de performance do nosso fundo, a gente vê algumas estatísticas muito legais. Primeiro, pelo lado dos ganhadores, os contribuidores de performance para o fundo foram diversos. A gente não tem uma concentração em um, dois ou três. A gente tem vários contribuidores de performance dentro do fundo.

Como a captação de vocês tem se comportado diante dessa volatilidade do mercado? O investidor brasileiro está se expondo mais a esses fundos com teses lá fora?

EA gente vem crescendo. A nossa captação líquida é bem positiva nesse ano, crescemos 25% no AUM em 2024. Mas o retorno no ano, no nosso fundo Long only, é 20%. Ano passado subimos 50%, 58%. A gente tem um histórico de longo prazo e prazo recente muito bons, de forma isolada e de forma comparativa e esses fatores são muito positivos para a captação, sempre são. Mas acho que o momento de mercado no Brasil é tão desafiador para a indústria como um todo que vejo a nossa captação está muito aquém do potencial. O que a gente consegue dizer é que a nossa captação está positiva, mas que, se a gente estivesse combinando o momento do nosso fundo com um momento bom de indústria, seria melhor. Naturalmente, a gente acaba sofrendo a volatilidade também da indústria local, apesar de estar numa estratégia descorrelacionada. .

Falando um pouco do perfil do investidor da Arbor, qual é? É um misto entre pessoa física e institucional?

O nosso público, o breakdown, o nosso AUM, basicamente, tem uma base muito forte de capital proprietário, família e amigos muito próximos que investem com a gente já há um longo período. Amigos incluindo alguns family offices que estão nesse bolso. Se a gente pega todo esse grupo, deve dar cerca de 50% da nossa base, que é a base mais sólida. Depois disso, tem um grupo institucional, que é o que a gente está mirando mais forte hoje. Institucional, principalmente fundos de pensão e RPPS, que vem crescendo bastante. É onde a gente está depositando mais energia. Esse grupo institucional hoje deve estar com quase 30%, e o restante, 20 e poucos por cento, está em plataforma.

E qual é o institucional em que a Arbor têm focado?

Onde estamos mirando hoje para crescimento é no institucional e em family offices. Grandes alocadores institucionais, incluindo fundos de pensão, RPPS e o grupo de single family office e multi family office. Esses são os bolsos aos quais estamos mais dedicados. Achamos que são bolsos diferentes. Cada um tem uma forma diferente de pensar. 

Enquanto é um pessoal que, por mandato, pode investir até 20% em fundos com risco offshore, seja hedgeado ou não, mas com risco fora do Brasil, eles investem cerca de 1%.  Já a exposição do pessoal no exterior é invertida. O Brasil representa cerca de 1% do market cap do mundo. Você vai ver a alocação de institucional em ações offshore é 1%. O Brasil é 99%. Está ao contrário. Vemos bastante oportunidade por conta desse grande desequilíbrio. Esses três bolsos específicos são bolsos que tendem a ter contato direto conosco, e que é um cliente que pensa, de fato, no longo prazo, portanto, tem uma aderência muito boa com a nossa estratégia.

Temos corte de juro no exterior e uma alta na Selic. Como é que estão as perspectivas de vocês agora? 

Com o corte lá e a alta aqui o carrego melhora. O carry do hedge cambial automaticamente melhorou, e essa dinâmica tende a continuar. Só observando a curva de juros, a expectativa é que você continue tendo uma sequência de cortes nos Estados Unidos, e uma sequência de altas no Brasil. É um motor importante dos nossos dois fundos, que é o carrego. Olhando especificamente para essa variável do FED estar cortando os juros, vemos isso como positivo. Não descarta, mas diminui, o risco de uma recessão profunda. Você pode ter uma estabilização da economia, acho que é o plano. 

No Brasil, como os juros são muito altos, é muito difícil empreender, uma empresa buscar financiamento. Onde achamos que convém investir no Brasil é em cenários mais estressados. A gente, inclusive, está procurando oportunidades, olhando nos escombros se tem alguma joia no meio de tudo. Mas fugimos de empresas que são endividadas. Naturalmente, os juros aumentando no Brasil é ruim. Mas no ponto de vista específico de valuation, observamos nas empresas que a gente gosta um valuation atrativo. Não diria que é muito descontado, mas empresas que têm negócios mais estáveis, que repassam a inflação, vemos que o prêmio de risco está atrativo.

A Arbor é conhecida como essa gestora de renda variável com foco no exterior. Pensam em mudar este foco, criar uma área nova, como crédito privado, por exemplo?

A gente não quer ter. Não acreditamos muito na estratégia de multiprodutos. Pensamos muito mais em ser uma casa dedicada a uma estratégia e todos os produtos se comunicarem de alguma forma. Ao fazer coisas muito diferentes que não necessariamente se comunicam, você começa a criar camadas e times diferentes, cria complexidade. Existe a defesa desse lado, mas para nós, vemos com uma visão de risco grande introduzir esses outros fundos com ideias muito distintas em que a gente não consegue ter conversas semelhantes com a mesma equipe etc. A forma que a gente olha o crescimento de novos fundos é muito mais assim: o que tem para a gente de ‘low hanging fruit’ para abrir? Previdência. Previdência, inclusive, é um fundo que a gente vem estudando, estamos falando com alguns parceiros e planejamos investir no momento correto. Em breve, não tem data ainda definida, mas vamos abrir um veículo de previdência e vai ser uma estratégia muito semelhante ao Arbor Hedge. Fora disso, esbarra um pouco no conflito de filosofia. Acreditamos muito em ser dedicado, em estar focado em alguma coisa e fazer isso bem feito.

A CVM 175 está entrando em vigor, um novo marco para a industria de fundos. Do lado de vocês, como deve afetar?

Ainda não entrou em vigor, mas vai entrar como parte da 175, que achamos que é mais interessante, é a parte de classe e subclasse. Deveria facilitar todas as estruturas de master feeder, mas isso não é algo que eu consigo falar agora, porque depende do desenrolar das coisas. Mas é uma parte na qual estamos animados. Facilita o operacional, facilita a compreensão. Esse é um lugar para o qual estamos olhando.

Atualmente vocês estão com R$ 500 milhões sob gestão. Mas falando de metas, onde pretendem chegar?

Temos um objetivo de médio prazo de ultrapassar R$ 1 bilhão. A nossa estratégia não tem problema de capacity, não vemos limite para captação, mas queremos chegar em R$ 1 bilhão para fechar alguns fundos. Ao chegarmos nisso, vamos fechar alguns fundos e pensar a partir daí, muito mais para respirar. Deixar essa parte de captação mais secundária. Temos R$ 500 milhões e achamos que com o mercado atual normalizando e a nossa boa performance se mantendo, isso deveria ser um efeito natural. A gente, inclusive, não vai muito para a estrada e faz esforço comercial, e acaba recebendo mais demanda. Recebendo mais, a gente queria fechar o fundo. Esse é um dos objetivos, fechar o fundo Long Only.


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