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Novas exigências do BC colocam corretoras de câmbio sob pressão

Victor Aguiar

O endurecimento das exigências regulatórias no mercado de câmbio brasileiro tem surtido efeitos concretos na estrutura do setor. Com a elevação significativa do capital mínimo exigido pelo Banco Central (BC) e o avanço de custos de compliance, corretoras de menor porte estão enfrentando dificuldades cada vez maiores para se manter operacionais, em um movimento que tende a acelerar processos de consolidação e parcerias estratégicas — além de liquidações pontuais.

A avaliação é compartilhada por executivos que acompanham o mercado de perto. Para Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio, o atual ciclo regulatório não representa uma retração da atividade, mas uma reorganização do setor que tende a “privilegiar players mais preparados para operar em um ambiente mais exigente”.

Segundo Riauba, o processo já se reflete na redução do número de participantes, especialmente entre instituições menores, com aumento de movimentos de fusões e aquisições. “O mercado já está antecipando esse movimento. O próprio Banco Central tem exigências muito relevantes, principalmente na questão do capital mínimo, que hoje é um divisor de águas”, diz. Para ele, a exigência de patrimônio pesa mais do que os custos de compliance no curto prazo, especialmente para empresas que não possuem estrutura para levantar capital adicional.

Apesar da redução no número de participantes, Riauba avalia que o impacto para o cliente final tende a ser positivo. “A visão é mais otimista justamente por conta da segurança que essas medidas trazem, dentro de uma cadeia de governança mais sustentável.”

Esse redesenho do mercado também levanta preocupações sobre concentração. Riauba reconhece o risco de maior concentração entre grandes instituições, mas entende que a competitividade tende a se deslocar para o campo de serviço e eficiência. “Pode haver uma disparidade maior de competição, especialmente para bancos que não têm o câmbio como produto principal”, afirma, mas reforçando que sua expectativa é de um período de maior estabilidade à frente, após a fase de adaptação. “A tendência é entrar em uma estrada mais normal, com menos episódios de estresse.”


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Do lado das corretoras independentes, o impacto das novas regras é mais profundo e estrutural. Para Vívian Portèlla, CEO da B&T XP, o aumento do capital mínimo exigido pelo Banco Central representa apenas a etapa mais visível de um processo regulatório que vem se acumulando ao longo dos últimos anos. “É uma sequência de regulações que vêm acontecendo para melhorar o mercado financeiro como um todo, mas que deixou as corretoras à margem”, afirma.

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“Você imagina uma instituição que tinha um capital de cerca de R$ 800 mil ter que chegar a pelo menos R$ 8 milhões. É uma diferença muito grande”, complementa. Na avaliação dela, a maioria das corretoras de pequeno porte não possui hoje condições de atingir esse patamar sozinha.

A executiva estima que cerca de 90% das corretoras atualmente ativas não contam com capital suficiente para se adequar às novas regras. “Não é que elas não vão conseguir se adequar, mas elas não possuem hoje o capital mínimo necessário. A não ser que haja fusões, aquisições ou aportes, a dificuldade de adequação será muito grande”, afirma.

Ela adiciona que o desafio vai além do capital. Ela destaca o peso do arcabouço regulatório e da governança exigida pelo Banco Central, que transformou muitas corretoras em estruturas voltadas majoritariamente ao cumprimento de obrigações regulatórias. “Quando percebemos, a B&T estava virando mais uma empresa de compliance do que uma empresa de câmbio”, afirma. Segundo ela, até 2024 cerca de 70% do quadro de funcionários da empresa estava concentrado em áreas de gestão e controle.

Ainda segundo ela, foi esse diagnóstico que levou a B&T a antecipar, em 2024, uma mudança estrutural em seu modelo de negócios, por meio da parceria com a XP. “Entendemos que era necessário ter um parceiro que oferecesse essa estrutura regulatória, para que pudéssemos focar nossa energia no negócio de câmbio”, diz. Na avaliação da executiva, o custo da estrutura regulatória é similar ao de um banco, mas a capacidade operacional de uma corretora é muito mais limitada. “O banco consegue gerar volumes muito maiores com a mesma estrutura”, afirma.

Portèlla reconhece que o movimento gerou estranhamento no mercado à época, mas avalia que a decisão garantiu a continuidade do negócio. Para ela, o setor ainda deve atravessar um período crítico, com combinação de consolidações e liquidações. “Mesmo sendo otimista, eu vejo liquidações também.”

Apesar de defender a regulação, a executiva aponta um paradoxo no desenho regulatório. “O Banco Central vê as corretoras como operações críticas dentro do sistema financeiro, mas ao mesmo tempo deixa essas instituições à margem de outras inovações, como pagamentos e ativos digitais”, afirma. Ainda assim, ela avalia que o regulador atua com foco no usuário final do sistema financeiro. “O objetivo é melhorar o sistema para os clientes, não necessariamente para as instituições.”

Para 2026, a expectativa é de que o mercado opere com menos participantes, mas com estruturas mais robustas. “Quem não tiver o capital mínimo não vai ficar”, afirma Portèlla. Na visão dela, o ano atual tende a ser decisivo para que corretoras busquem parceiros ou se integrem a grupos maiores. “Esse é o momento de fechar parcerias. Depois, pode ser tarde demais.”