“Podemos tokenizar tudo, só que não necessariamente tudo precisa ser tokenizado”, diz executivo da CVM

Diante de novas tecnologias atreladas ao mercado de capitais e o tão aguardado projeto do Drex, real digital, os holofotes se voltam para a tokenização e os benefícios para os ativos, que incluem eficiência, aumento de produtividade e redução de custos. Apesar das vantagens, passado o frenesi, o mercado tem se dado conta de que nem tudo deve ser tokenizado, é o que pensa o chefe de gabinete da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Pedro Castelar. Isso porque é preciso ponderar qual é o benefício, e o valor a ser agregado ao tokenizar determinado ativo.
“A gente pode tokenizar tudo, só que não necessariamente tudo precisa ser tokenizado. Acredito que um pouco da evolução que temos visto é: qual é o benefício, qual é o valor que eu vou agregar tokenizando determinado ativo? Temos que olhar um pouco para a tecnologia para ver o benefício, o valor que ela agrega”, comenta Castelar, durante o evento Conecta ABBC (Associação Brasileira de Bancos) nesta quinta-feira (22). “Se você parar para olhar a questão de rastreabilidade, rentabilidade, da programabilidade, tudo isso são inovações e isso que gera valor para você tokenizar um ativo. Se aquele ativo que você quer tokenizar ganha valor quando você adiciona esses benefícios que a tokenização gera, pode ser um ativo interessante a ser tokenizado.”
Na avalição do executivo, olhando para o mercado de capitais, a tokenização tende a agregar bastante valor, tanto para a questão dos ativos em si, como a possibilidade de fragmentação em diversos tokens, de trazer mais ativos para dentro do mercado de capitais e conseguir acessar, muitas vezes, um público que não teria acesso se tivesse comprado o ativo inteiro. “Você também olha, inclusive, para a infraestrutura do mercado de capitais, e aqui se conecta bastante com o tema do Drex, em que há bastante valor a ser explorado com relação ao uso da tecnologia. A questão do rastreio, da rentabilidade, a própria liquidação atômica. Ela tende a gerar um pouco de democratização e um dinamismo maior, com mais agentes, mais ativos”, diz.
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Durante o evento, os painelistas comentaram sobre o potencial do Drex e que o real digital deve trazer mais oportunidades a esse mercado. O projeto, que entra na segunda fase para testar desafios relacionados à escalabilidade e à privacidade, quando maduro, deve fortalecer o mercado de capitais facilitando uma padronização na tokenização e uma interoperacionalidade. “Já houve outro experimento de digitalização do mundo, e esses experimentos não foram para frente. O que está acontecendo agora de diferente? É que há um esforço de padronização. Não adianta trazer uma tecnologia de tokenização e manter os silos, você vai simplesmente reproduzir problemas que já tem hoje na nova tecnologia. Essa é a diferença básica que você precisa ter, você tem que escolher uma moeda para lidar”, afirmou Fábio Araújo, economista do Banco Central do Brasil, que citou, ainda, a oportunidade de destravar créditos, ativos e melhorar pagamentos diante do desenvolvimento do Drex.
Para os executivos, o real digital será a espinha dorsal do processo. Em relação aos casos de uso a serem testados pelos consórcios que participam do projeto piloto do Drex, o prazo ainda é algo a ser visto, já que a prioridade é resolver os desafios e garantir a padronização e interoperabilidade, mas a promessa é de um “check point” em meados de 2025 com uma avaliação geral para apresentar para a população. “Agora, a gente vai trazer oportunidade para que outros smart contracts e outros ativos entrem, temos trabalhado com a CVM de uma maneira muito próxima, porque não são só os ativos da competência do Banco Central que são o interesse do governo na rede, porque, de fato, os valores mobiliários são parte fundamental do processo de uma empresa financeira que seja ampla, suficiente”, conta Araújo.
A ABBC, inclusive, participa de um dos consórcios, focado em CCB, e tem atuado junto aos reguladores para o avanço do projeto e afirma que um bom trabalho tem sido feito até o momento. “Nós estamos focados, efetivamente, dentro da expansão e da destravagem do crédito absolutamente, a meu ver, revolucionários do ponto de vista da capacidade de expansão do crédito em função do funcionamento dele. E os testes foram muito bem-sucedidos”, aponta Nelson Rocha Augusto, membro do conselho de administração da BBC e presidente do Banco Ribeirão Preto.
Agora, o projeto deve incluir mais agentes do mercado e mais casos de uso para aprimorar o sistema. Os reguladores como a CVM, inclusive, têm olhado de perto o processo e atuado nesta seleção. Segundo Castelar, a infraestrutura do Drex é uma ferramenta importante para evitar silos e ter uma plataforma integrada, e há uma necessidade do regulador de entender onde quer chegar e o que é preciso testar. “Se você dá um passo atrás e olha como a CVM fez o Sandbox regulatório dela e selecionou os primeiros casos para trazer dentro desse ambiente experimental, dá para notar entre os selecionados que ela tinha um interesse muito grande de entender como é que funcionaria a infraestrutura de mercado num mundo tokenizado”.
A experiência com o sandbox fez a autarquia analisar a função dos agentes, qual o papel do custodiante, do estruturador, e depois de alguns anos testando, acompanhando e auxiliando esses projetos, passou a ter uma noção maior dos resultados e de “para onde quer ir”. “Olhando para o Drex, tem um componente interessante além da infraestrutura, que é a liquidação financeira. A gente não conseguia no contexto do sandbox ter essa mesma facilidade que você tem ao comprar uma moeda digital a partir de um regulador, o BC”, ressalta Castelar.
