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Bancos de fomento pressionam por regras finais para LCD

Jiane Carvalho

André Godoy, diretor executivo da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE)
André Godoy, diretor executivo da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE)

A expectativa para tirar as Letras de Crédito ao Desenvolvimento (LCD) do papel é elevada entre os bancos de fomento autorizados a captar recursos com o novo título. Criadas por Projeto de Lei (PL) em junho deste ano, as LCDs aguardam a regulamentação final pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para que os bancos tenham mais uma opção para levantar recursos no mercado de capitais. Em um reunião agendada para esta quarta-feira (14), em Brasília, o tema central do encontro entre representantes dos bancos de fomento com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, será a necessidade de concluir a regulamentação e preservar alguns itens previstos na lei. Além de pedir celeridade, os bancos buscam garantir algo essencial para o sucesso do instrumento – a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

No universo de instituições que podem emitir o novo papel estão, além do BNDES, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), e o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes). O interesse das instituições de fomento se justifica. Trata-se de um título de renda fixa, isento de imposto de renda (IR) para a pessoa física e que tende a ter boa demanda, como ocorre com outros ativos isentos como LCIs e LCAs, do setor imobiliário e agronegócio, respectivamente.


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Hoje, além de recursos próprios, o funding dos bancos é composto por captações internacionais, captações de recursos públicos, por meio de fundos nacionais ou estaduais, e pela emissão de títulos de dívida, como CDBs, LCIs, LCAs. “A nova LCD  será mais uma alternativa de funding e os bancos estão bastante animados. Acredito que funcionará muito bem e ocupará parte do espaço deixado pelas LCs, que ficaram mais restritas e caras após mudanças do CMN. Isto abre espaço para que os bancos ofereçam as LCDs para os investidores”, comenta André Godoy, diretor executivo da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE). A entidade, que tem participado dos esforços em defesa de mais celeridade na regulamentação, representa 34 instituições, entre bancos e agências de fomento, além dos bancos públicos. Dos financiamentos de longo prazo, informa a ABDE, mais de 70% é feito aqui pelas instituições associadas. O estoque de crédito do sistema nacional de fomento, segundo dados da Associação, saltou 75% em 10 anos, para R$ 5,6 trilhão, posição em março deste ano.

Para o investidor, destaca Godoy, o que importa é a prazo do papel, a rentabilidade e o FGC. “O esforço é para que o CMN, ao definir as regras finais, mantenha a cobertura do FGC proposta na lei. Isto é essencial. Também é importante saber se o lastro será a partir de agora ou se poderão incluir as últimas operações”, explica. “Uma possibilidade seria considerar, para lastro, operações feitas nos  últimos seis meses, mas não é algo que pedimos, isto depende do CMN. O foco dos nossos esforços é pela manutenção da garantia do FGC, essencial para o produto.” Sobre o limite de emissão de LCD por ano, de até R$ 10 bilhões por instituição, o diretor da ABDE acredita que, neste momento, apenas o BNDES poderia atingir rapidamente o topo, não sendo o teto um problema para as demais instituições.

Um rendimento entre 95% e 100% do CDI para as novas LCDs é a expectativa para o retorno do papel na visão do presidente do BRDE, Ranolfo Vieira Júnior. “Vai nos ajudar a obter funding, será muito positiva para os bancos de fomento. Falta apenas o regramento para tirarmos do papel”, afirma Vieira Júnior, reforçando que garantir o FGC é o objetivo principal do grupo de bancos que tem negociado com o governo.

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O BDRE só entrou no mercado de capitais neste ano e levantou, com a emissão de LCAs, R$ 353 milhões. “Foi uma boa receptividade, agora esperamos algo ainda melhor para as LCDs.” A expectativa do presidente é buscar R$ 2 bilhões com as LCDs e, já no primeiro ano, levantando algo perto de R$ 500 milhões em papeis de médio prazo. Vieira Júnior acredita que, na regulamentação do CMN, os prazos dos papeis deva ficar entre 3 e 5 anos.

O diretor presidente do BDMG, Gabriel Viégas Neto, reforça a importância das novas LCDs como funding adicional para o fomento das atividades na região em que atua. “A criação da LCD é essencial para os bancos de desenvolvimento cumprirem seu papel de atuar em falhas de mercado. O instrumento oferece uma oportunidade importante para o setor produtivo brasileiro, especialmente para Minas Gerais, onde o BDMG atua”, comenta. Atualmente, BDMG capta recursos no mercado com emissões de LCA, CDB, entre outros instrumentos financeiros distribuídos por 29 plataformas parceiras. Na visão de Viégas, a LCD não será concorrente direta dos instrumentos existentes. “Preenche uma lacuna no mercado e estamos trabalhando para atrair investidores interessados. Além da isenção de imposto, acredito que a LCD atrairá investidores devido ao potencial de impacto em questões sociais e ambientais, especialmente no campo da sustentabilidade.”

Para o BDMG, o limite de R$ 10 bilhões anuais por instituição deve ser mantido pelo CMN. Na visão do presidente do banco, é suficiente para permitir uma expansão significativa da atuação do BDMG. “Não temos uma estimativa de quanto podemos levantar inicialmente com a LCD, mas estamos preparados para começar a atuar com o papel rapidamente após a regulamentação. Não acredito que será um desafio do ponto de vista operacional para o BDMG, justamente porque já atuamos com a LCA.”

No ano passado, o BDMG realizou desembolso recorde de R$ 3 bilhões em financiamentos realizados. No primeiro semestre deste ano, são mais R$ 1,44 bilhão em créditos liberados, volume 32% superior ao do mesmo período do ano passado. “Esperamos que a regulamentação do CMN saia este ano porque já estamos avaliando projetos de empresas privadas elegíveis para futuros financiamentos e geradores de lastro para emissão de LCD.”

A criação da LCD encontra o Bandes, do Espírito Santo, no momento em que a instituição busca ampliar seu acesso a recursos, conforme explica Marcelo Barbosa Saintive, diretor-presidente do banco. “A LCD permite que os bancos de desenvolvimento regionais acessem o mercado com instrumentos de crédito. O Bandes vem buscando modernizar sua estrutura de funding, de modo a torná-la mais estável e diversificada, fortalecendo sua atuação de longo prazo”, comenta Saintive, acrescentando que no contexto de expansão dos financiamentos “nada mais natural que os bancos possam acessar o mercado financeiro com instrumentos de crédito que contem com incentivos tributários”.

No Bandes, as principais fontes de recursos atualmente incluem repasses federais - Finep, BNDES e Fungetur -, captações de recursos com organismos multilaterais como o BID, fundos estaduais, além de recursos próprios. O presidente do Bandes entende que as LCDs não concorrem com LCIs e LCAs pela diferenciação que vem do propósito para uso dos recursos. “As LCs estão mais voltadas para o setor imobiliário e o agronegócio. A LCD tem outra finalidade e pode atrair investidores com interesse em fomentar o desenvolvimento econômico e social, além de diversificar sua carteira de investimentos.”

O Bandes ainda avalia o potencial de emissão de LCD. No ano passado, o banco realizou R$ 279 milhões em operações de crédito para médias e pequenas empresas do Espírito Santo. Para este ano a estimativa é de ultrapassar os R$ 330 milhões. 

O diretor da executivo da ABDE, que estará nesta quarta no encontro com o ministro Haddad, explica a importância de o CMN definir o quanto antes o regramento da LCD. “Após a regulamentação, a gente vai ter um prazo para a B3 para colocar o ativo no sistema e deixar disponível nas plataformas e depois, se não for retroativo, dar tempo para os bancos constituírem o lastro. Não é imediato”, afirma Godoy que acrescenta: “todos estão animados para começar a emitir, mas tem que sair a regulação. É um papel isento para pessoa física e que a pessoa jurídica paga um imposto reduzido, de 15%. Terá muita demanda.” O BNDES, também autorizado a emitir LCD, foi procurado pela Capital Aberto, mas até o fechamento da reportagem não retornou.