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Governança Regenerativa: a governança corporativa além da reação - é hora da regeneração

Gabriela Blanchet

Ao longo de mais de um século, a governança corporativa avançou como resposta a crises. Foi assim nas primeiras corporações norte-americanas e inglesas, quando a pulverização do capital fortaleceu executivos e expôs conflitos.

Também foi assim no Brasil, onde empresas marcadas por estruturas acionárias concentradas enfrentaram disputas recorrentes entre controladores e minoritários. Em todos os casos, a governança não surgiu como movimento preventivo, mas reativo.

Nos anos 1990, o País viveu privatizações e abertura econômica enquanto o mundo discutia o Relatório Cadbury. Logo depois, surgiria o Código de Melhores Práticas do IBGC, marco da governança no Brasil. No início dos anos 2000, Enron e WorldCom abalaram Wall Street e motivaram a Lei Sarbanes-Oxley, reforçando controles internos e responsabilidades fiduciárias.

No Brasil, escândalos de corrupção resultaram na Lei Anticorrupção e na Lei das Estatais. A chegada da economia digital impulsionou novas regulações de proteção de dados, como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).

E os impactos das mudanças climáticas nos negócios resultaram na Resolução 193 da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que incorporou na legislação brasileira as novas normas internacionais de sustentabilidade - IFRS S1 e S2 (no Brasil CBPS 1 e 2), pelas quais as companhias abertas brasileiras passam a declarar riscos e oportunidades climáticas e informações financeiras relacionadas a sustentabilidade obrigatoriamente a partir de 2027.

Somando-se a todas essas respostas históricas, forma-se um padrão inequívoco: evoluímos, mas sempre depois que o problema se materializa. Não se pode negar que essas reações melhoraram mecanismos de controle, transparência e responsabilização. Porém, a lógica estrutural não mudou tanto quanto parece.

Mantivemos o modelo mecanicista e hierárquico da era industrial: com foco em resultados financeiros imediatos, meritocracia verticalizada e uma visão empresarial que opera como se organizações fossem máquinas, não organismos vivos inseridos em ecossistemas complexos.

Esse paradigma produziu benefícios, mas também trouxe consequências: degradação ambiental, desigualdades sociais, consumo excessivo de recursos e crises climáticas que hoje ameaçam a estabilidade de mercados e sociedades.

A governança, portanto, não pode mais ser apenas instrumento de mitigação de danos ou defesa contra riscos reputacionais. O mundo contemporâneo exige uma virada profunda.

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Se até agora a governança corporativa foi desenhada para evitar que empresas destruíssem seu valor, seu próximo estágio precisa permitir que elas também regenerem o valor perdido – ambiental, social e econômico.

É esse movimento que começa a despontar em estudos recentes e em reflexões de acadêmicos e profissionais de diversas áreas. A governança precisará incorporar uma lógica baseada em sistemas vivos: interdependência, cocriação, circularidade e integração entre propósito, cultura, estratégia, pessoas e planeta.

Em vez de olhar apenas pelo retrovisor – balanços, indicadores financeiros, riscos históricos – a governança regenerativa exige visão de futuro.

Define métricas de sucesso que incluam impacto social, resiliência ambiental, capacidade de inovação, qualidade das relações e contribuição ao ecossistema maior em que a organização opera.

Essa mudança pede reconfigurações profundas, tais como:

  • abandonar hierarquias rígidas e estruturas de comando-controle;
  • desenvolver modelos colaborativos, adaptativos e evolutivos;
  • estimular culturas de aprendizado contínuo e inovação permanente;
  • reconhecer que lucro sustentável depende de ecossistemas e comunidades saudáveis.

A boa notícia é que essa transição não limita a performance econômica – ela a amplia. Empresas que regeneram criam novos mercados, descobrem oportunidades antes invisíveis e constroem vantagem competitiva duradoura.

Regenerar não é apenas reparar danos do passado, mas abrir espaço para um futuro viável, próspero e sistêmico. O tempo das respostas tardias acabou. O futuro da governança corporativa não pode depender do próximo escândalo, da próxima crise ambiental ou da próxima perda de confiança pública. Ele precisa ser construído antes delas.

A governança do futuro é regenerativa – e as empresas que entenderem isso primeiro não apenas sobreviverão, mas liderarão o mundo que vem.

Gabriela Blanchet é autora do livro: “Governança Regenerativa: uma evolução do sistema de governança para enfrentar os desafios do mundo em transição” e fundadora do Blanchet Advogados


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