Sem preços, não há mercado saudável

A precificação de ativos financeiros do mercado de capitais é essencial para a confiança e o desenvolvimento sustentável do sistema financeiro. Ao promover maior transparência, precisão e liquidez com referências de preço, os players do mercado ampliam as possibilidades de negócios, enquanto os investidores ganham insumos para a tomada de decisão. O resultado desta equação é um ambiente financeiro saudável, seguro e competitivo.
Atualmente, o mercado conta com preços para uma série de papéis, como debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), letras financeiras e cotas de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Mas nem sempre foi assim.
Há 25 anos, a ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) foi nomeada pelo Tesouro Nacional e pelo Banco Central como precificadora de títulos públicos. Esse foi o marco para o início da atividade na associação e, de lá para cá, foram estabelecidas diretrizes que ajudaram a desenvolver ainda mais a indústria de investimentos e garantir uma precificação aderente à realidade do mercado. Essa experiência abriu portas e permitiu à ANBIMA ser precursora na precificação de outros títulos, com as cotas de FIDCs e letras financeiras.
A precificação evolui junto com o mercado, uma vez que é fundamental para estrutura do ambiente de negócios de diversos setores. Os números evidenciam os avanços. Desde 1999, mantemos o compromisso de dar preço para 100% da dívida pública emitida de forma competitiva, o que atualmente representa cerca de R$ 6,8 trilhões, 13 vezes maior do que o visto no início do século. Quando olhamos para os títulos privados, a ANBIMA começou a fornecer referências de preço para debêntures em 2004 e evoluiu de R$ 12,6 bilhões para R$ 298,4 bilhões em 2024, um volume 23 vezes maior.

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Apesar de pouco se falar sobre a precificação, ela é um trabalho de bastidores essencial para que tudo esteja em pleno funcionamento e se tornou parte da rotina diária do mercado. Sem ela, não haveria referências que refletem as condições reais de mercado, ou seja, teríamos muita assimetria de informações, o que pode trazer sérios impactos na indústria de fundos de investimento, por exemplo.
Ao longo dessas duas décadas e meia, o mercado enfrentou desafios significativos, como a crise financeira de 2008 e, mais recentemente, a pandemia de Covid-19, que confirmaram a importância de ter referências sólidas de preços em tempos de incerteza e fortaleceram a atividade.
Além de auxiliar nesses momentos, a divulgação dos preços traz inúmeras vantagens ao mercado, como o controle da volatilidade, a marcação a mercado dos ativos e, principalmente, o fomento à liquidez nas negociações no secundário. Esta última é uma pauta de longa data no Brasil que tem avançado bastante. Afinal, quanto mais preços, mais negócios.
Mas ainda há o que evoluir – esse é um trabalho tão dinâmico quanto o próprio mercado. Por isso, é essencial expandir a cobertura de produtos precificados para incentivar a negociação de produtos que ainda não são tão utilizados pelos players. Outro ponto é a necessidade de olhar para novos setores ainda em desenvolvimento no país, como ativos tokenizados.
Chegar à marca dos 25 anos de precificação com clareza sobre as negociações de quase todo o mercado mostra a robustez do setor, o que se traduz em transparência e confiança para os investidores. É uma atividade que deve sempre avançar, contribuindo com a consolidação de novos produtos e negócios e caminhando lado a lado com o desenvolvimento do mercado.
* Zeca Doherty é diretor-executivo da Anbima
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