A arte da persuasão

Sócio-diretor da consultoria McKinsey, seu primeiro e único emprego, Martins tem um estilo reservado (“Prefiro interações individuais a grandes eventos”), mas estava empolgado no dia da entrevista, graças a uma aquisição concretizada na véspera: um dos mais importantes quadros da pintora Djanira, Vendedora de flores, doado pelo colecionador Orandi Momesso. A artista era uma lacuna na coleção do museu. Para chegar ao doador, explica, bastaram alguns telefonemas, dele e da equipe reunida pelo modelo de governança implantado na instituição — nos moldes daquele que tirou da crise a Fundação Bienal de São Paulo, presidida por Martins entre 2009 e 2013.
O modelo de governança, ele ressalta, inclui delegar “toda a dimensão artística” do museu a “quem tem formação técnica para isso”. Ou seja, aos curadores. “Quem sou eu para ficar opinando sobre a escolha de artistas ou de exposições?”, pergunta. “Seria o primeiro passo para estragar a instituição.”
Só que a opinião de Heitor Martins não parece tão irrelevante assim. Além de dono de uma coleção de cerca de 250 obras, garimpadas nos últimos 18 anos e espalhadas pela ampla casa no Morumbi, ele é marido de Fernanda Feitosa, a criadora e organizadora da SP-Arte, maior feira de artes plásticas da América Latina. “Essas coisas dialogam menos do que aparenta”, comenta, afastando a possibilidade de qualquer conflito de interesses. “O meu desafio no Masp, como no caso da Bienal, é muito mais um exercício de gestão e de cidadania do que uma atividade artística.”
Fernanda e Heitor começaram a se interessar por arte e a estudá-la juntos, em um projeto do casal então expatriado em Buenos Aires. Durante quatro anos, já sócio da McKinsey, ele recebeu a missão de liderar o escritório da empresa na Argentina, levando a mulher e os dois filhos pequenos. “Primeiro fizemos um curso de história da arte na Universidade de Buenos Aires. Depois passamos a frequentar grupos de discussão de arte contemporânea e a fazer viagens para ver artes específicas.” Pouco antes do retorno ao Brasil, conheceram a Art Basel Miami, nos Estados Unidos, que inspirou Fernanda a organizar uma feira semelhante em São Paulo, em vez de retomar a carreira de advogada.

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Martins, aliás, também poderia ter sido advogado (cursou dois anos da Faculdade de Direito da USP, onde conheceu a mulher), ou mesmo médico (como perdeu o vestibular para medicina, por estar em um programa de intercâmbio no Canadá, acabou entrando na FGV no meio do ano, em administração pública). O acaso, porém, o levaria a uma carreira na qual, “pela natureza do trabalho — a consultoria é um depósito de talentos —, é possível acomodar individualidades e cultivar outros interesses.” Como a arte. Na McKinsey, onde está desde que voltou do MBA em Michigan (EUA), em 1993, ele lidera os clientes das áreas bancária e financeira.
A arte tinha se tornado uma atividade apenas para a esposa quando Martins, que passara a circular entre galeristas e colecionadores, foi chamado a assumir o comando de uma Fundação Bienal afundada em dívidas. “Não é segredo que metade de São Paulo já tinha recusado a presidência”, exagera. E por que ele aceitou o convite do qual outros declinaram? “Todos só enxergavam o que faltava: dinheiro, credibilidade, gestão, estrutura. Eu olhei para o que ela tinha: 60 anos de tradição, prestígio internacional, um prédio de 30 mil metros quadrados que é uma obra-prima do Oscar Niemayer, plantado no meio do Parque do Ibirapuera, numa cidade de 20 milhões de habitantes.”
Foi dessa forma que Martins achou sua oportunidade de “contribuir para a sociedade” — o que ele acredita fazer agora, quando sai à caça de doações ou de voluntários para trabalhar nas instituições. Depois da Bienal, foi vice-presidente do conselho de administração da Fundação Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e conselheiro da Pinacoteca do Estado, funções sempre sem remuneração. “Quem recupera a instituição cultural não sou eu; é a sociedade, que tem orgulho do seu museu, da sua orquestra. A sociedade abraça a causa de enxergar que existe um projeto, uma liderança e transparência no processo.”
Martins reitera a importância desses três elementos, como uma fórmula, e desconversa sobre o sucesso de seu estilo de liderança. Prefere não individualizar a recuperação das instituições e usa o plural para falar das conquistas. Ao ser perguntado sobre os momentos que mais valeram a pena, deixa transparecer o que talvez seja o ingrediente final: a emoção, aquela capaz de fazer o meio copo se encher, quando antes todos só o viam meio vazio. Os olhos marejam quando conta sobre o hábito que tinha de, na véspera da abertura das bienais, percorrer o prédio sozinho, observando as obras afinal montadas. “Era um momento mágico.” E a voz quase engasga ao lembrar o comentário de um antigo porteiro do Masp no dia em que foram removidas as paredes falsas das galerias, descortinando a arquitetura do edifício icônico de Lina Bo Bardi. “Ele me disse: ‘Eu não via isso aqui tão bonito há 20 anos’. É isso o que faz valer a pena.”
Foto: Régis Filho



