Política na vida

“Eu não queria ser um burocrata”, conta hoje o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro e colunista de política externa da Folha de S. Paulo. “Já estava com 24 anos, e vendo o bonde passar.” O bonde, no caso, era seu fascínio pelo sistema educacional britânico, “um mundo de Harry Potter” onde estudantes tinham seus trabalhos acadêmicos destruídos por tutores, depois de passarem a semana lendo na biblioteca. “Ali, a educação é um processo de aprender a se defender”, explica, com entusiasmo. Foi nesse ambiente de forte estímulo intelectual que um dos colegas de doutorado o questionou, durante o almoço de 28 de outubro: por que não estava ouvindo pelo rádio os anúncios do novo governo? Ora, a posse no Brasil só acontece em 1º de janeiro, ele respondeu, para depois refletir e tomar notas sobre a complexidade daquela situação.
Passados 12 anos daquele momento, o assunto de Spektor voltou a ser eleições e transição. Isso porque o novo livro deste “intelectual público” — o que ele preferiu ser, em vez de burocrata da ONU — partiu justamente da reflexão feita naqueles primeiros dias de rádio e luz de velas. E está sendo lançado em meio a uma eleição tão disputada quanto a de 2002. Em 18 dias: quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush, o professor relata como os dois ex-presidentes brasileiros trabalharam juntos para debelar uma grave crise de imagem do País, que levava o mercado financeiro internacional a apostar contra o real.
Os bastidores do poder, levantados em dezenas de entrevistas e documentos secretos, mostram hoje como a polarização típica das campanhas eleitorais não impede entendimentos políticos posteriores. A leitura suscita especulações sobre o período de passagem que começará neste mês. “As pessoas não percebem a complexidade de uma transição no Brasil”, observa Spektor. “Mesmo em caso de reeleição da presidente Dilma Rousseff, a coalizão governista precisará ser costurada novamente e a composição do poder, redesenhada, com mudanças nos comandos da Câmara dos Deputados, do Senado e de cada ministério. Quem ganhar terá que se mover muito rápido para mandar sinais claros ao mercado de uma retomada da economia em 2015. A tensão sempre existe, porque é necessário trocar a roda com o carro em movimento.”

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A linguagem clara e precisa de Spektor, mais jornalística que acadêmica, segue o atual objetivo de “alcançar um público leigo de forma sofisticada” com os livros e pesquisas. Da mesma forma, sua mistura de sotaques revela uma vivência internacional preciosa nas análises. Carregando o sobrenome ucraniano do pai urbanista e a cultura ítalo-espanhola da mãe psicanalista lacaniana, Matias Spektor nasceu em Rosário, no interior da Argentina, passou a infância em Buenos Aires e mudou-se com a família para Salvador aos 10 anos. “Sou baiano”, ele brinca, ao justificar a preferência por praia de água morna. Diferente do mar gelado do Rio, onde voltou a morar depois de nova temporada no Reino Unido — desta vez, ocupou a Cátedra Rio Branco no King’s College de Londres, para escrever o livro que está lançando.

Após o doutorado em Oxford, cuja tese resultou no livro Kissinger e o Brasil, ele não hesitou em relação ao país onde buscaria o novo emprego. “Vi pelo lado de fora a transformação brutal que se iniciava aqui. E percebi que a opinião pública brasileira, mesmo aquela educada e de classe média, não tinha ideia de como a política externa e as relações internacionais afetam sua vida cotidiana. Quis voltar para assumir esse papel”, diz Spektor. Na FGV, ele não só se dedicou a levar esse conhecimento aos alunos como também agiu na mão inversa. Em viagens ao exterior para divulgar a criação do Centro de Relações Internacionais da fundação, que coordenou, e levantar fundos, era chamado para dar palestras e participar de debates sobre o Brasil, visto à época como país em franca ascensão. “Isso foi entre 2009 e 2010. Eu não dava conta da demanda”, lembra.
Ainda hoje, por causa da repercussão da coluna na Folha, recebe muitos e-mails de estrangeiros — de acadêmicos a operadores de mercado — interessados em suas análises. É nessa troca permanente de pontos de vista que Spektor se abastece diariamente: “O fascínio das relações internacionais é que os mesmos acontecimentos são interpretados de maneiras radicalmente distintas, dependendo de onde você está no mundo. Não é verdade que a internet derrubou as fronteiras. Elas existem e são muito reais”. Com tantas experiências e referências internacionais aos 37 anos, Spektor sabe, como poucos, a importância da geopolítica na vida das pessoas.
Foto: Aline Massuca


