Direito com poesia

“Em meus devaneios, via-me jogador profissional”, conta Carlos Augusto Ayres Britto. “Mas considerava-me vocacionado tanto para o esporte quanto para a literatura, pois dividia meu tempo entre os campinhos de futebol e a biblioteca de meu pai. Aos 13 anos, fazia versinhos sob influência de Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Castro Alves.” Se seu passado futebolista é pouco conhecido, o mesmo não se pode afirmar do lado poeta. A verve literária é conciliada com a carreira de jurista não só em sua obra (são cinco livros publicados de direito e cinco de poesia) como também nos votos proferidos no STF, de grande repercussão na mídia.
“Ah! Bruta flor do querer”, citou Britto como relator do processo que reconheceu a igualdade de direitos entre pares homoafetivos e casais heteroafetivos, recorrendo à letra de Caetano Veloso. Da obra de Chico Buarque, “dono dos versos sociais mais bonitos da língua portuguesa”, ele já perdeu a conta de quantas vezes lançou mão, inclusive no processo que aprovou a interrupção de gravidez de fetos anencéfalos. As metáforas e referências — habituais em votos, entrevistas e conversas com amigos —, somadas à sorte de ser escolhido para liderar processos que representaram grandes avanços na cultura, tornaram Ayres Britto festejado entre os artistas; uma espécie de parceiro deles na vida pública. “Os artistas acompanham o dia a dia do País e têm seu civismo ativado. São pessoas muito próximas”, comenta, explicando o abraço caloroso dado pela atriz Fernanda Montenegro em recente exposição de arte no Rio de Janeiro.
De civismo Ayres Britto entende: “Sou militante, envolvido com as coisas públicas”. Antes de descobrir sua forma pessoal de “fazer uma semeadura cívica, ética, democrática e até científica”, expressa na atribulada agenda de eventos que mantém após a aposentadoria no STF, ele tentou a carreira política. Já respeitado no meio jurídico como advogado e professor universitário, candidatou-se a deputado federal pelo PT, em 1990. Embora tenha sido o mais votado em Aracaju, e o segundo no estado, os números da legenda não foram suficientes para elegê-lo. Não ficou frustrado, assim como não se sentia derrotado quando outros ministros reprovavam suas opiniões mais progressistas. “Tenho muita paciência e transito entre dois pensamentos. Um é o do filósofo uruguaio Eduardo Couture: ‘O tempo se vinga das coisas feitas sem a colaboração dele’. O outro é de Victor Hugo [escritor francês]: ‘Nada é tão irresistível quanto a força de uma ideia cujo tempo chegou’.”

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Para ajudar o tempo das ideias a chegar, Ayres Britto descartou uma carreira política tardia (foi convidado por diversos partidos e estados a se candidatar) e preferiu manter a rotina intelectual de “semeadura”, na poesia e no direito. Agora mesmo, ele retarda em alguns minutos nossa entrevista para consultar silenciosamente códigos e livros jurídicos — vários setores da sociedade querem seu parecer a respeito do decreto presidencial que instituiu conselhos populares. Em tempo de eleições, contudo, quem espera de Ayres Britto um alinhamento político a favor do governo ou contrário a ele sempre se decepciona: “Acho até que a presidente da República estava inspirada, mas a criação de órgãos públicos compete ao Congresso Nacional”, observou.
Com a voz pausada de quem profere um voto bem embasado, Ayres Britto retorna dos livros ao ambiente da entrevista. Responde a perguntas sobre o processo do mensalão (a Ação Penal 470, que ele colocou em julgamento quando presidente do STF) ou sobre a aposentadoria precoce de seu sucessor Joaquim Barbosa sem resvalar em polêmicas comuns. Atém-se às questões jurídicas. “Minha postura diante do direito é a mesma que tenho diante da vida. Eu me sirvo de ponte entre a vida pensada pelo legislador e a vida vivida do cotidiano. Esvazio meu barco de memórias e pré-compreensões e me disponibilizo para interpretar o texto normativo, assim como faço diante de um canto de passarinho ou de uma nota musical.” É da mesma postura do jurista que brota o poeta: “Quando se consegue enxotar o seu ego, o universo vem e preenche o seu ser. Nos instantes em que são açambarcados pelo universo, os artistas, os cientistas e os místicos têm seus momentos de inspiração, de insight ou de revelação”.
Os momentos de inspiração jurídica de Ayres Britto são hoje compartilhados em conferências pelo País, nas aulas e bancas de mestrado e doutorado, e também nos pareceres como advogado, retomados após a aposentadoria no STF. Mas... e quanto à inspiração poética? Quando será publicado um novo livro de poemas? “Ainda estou retocando aqui e ali, mas percebo que o livro já não é meu e precisa seguir seu rumo.” O lançamento da próxima publicação, DNAlma, será planejado depois da Copa, diz ele, ainda sem saber o desfecho do Mundial no Brasil. Passados 64 anos do sonho de ser jogador de futebol, Ayres Britto declara: “Pela primeira vez, não estou animado com os jogos”. Semanas depois, a frase soaria como o anúncio de um místico diante de uma revelação.
Foto: Aline Massuca

