"Jogo melhor sob pressão"

Com uma concentração que lhe confere um ar grave, Mattar descontrai-se e sorri quando perguntado se o “jogo” está difícil o suficiente para ele na Tivit, que estreou no mercado de ações em 25 de setembro do ano passado e, apenas quatro dias depois, acumulava uma queda de 13% na cotação dos papéis. “Sim, temos desafios grandes o bastante”, responde ágil de volta. “Além do nosso negócio de serviços de tecnologia, já com dez anos, agora temos um neném, que é a marca Tivit como empresa de capital aberto, que precisa crescer forte, saudável e esportista”, acrescenta o presidente, que ainda joga tênis com amigos como Jaime Oncins nos fins de semanas, 15 anos depois de encerrar a sua carreira profissional.
A transição de Nico para Luiz, ou das quadras para o mundo dos negócios, foi mais tranquila do que ele imaginava. Casado, com planos de ter filhos e prêmios acumulados de US$ 1,5 milhão, depois de 12 títulos nos torneios de ATP Tour, Mattar sentia-se desgastado pela rotina de viagens. “Queria descansar”, conta. “O tênis demanda muito do atleta, que sente a pressão do ranking toda semana. Eu conhecia o problema da transição do esportista para a vida comum, enfrentado por dezenas de amigos, mas por sorte não cheguei a vivenciá-lo.” O planejado ano sabático durou apenas dois meses, depois de um convite para ser sócio da microcervejaria Dado Bier em São Paulo. “Minha primeira aventura empresarial foi um sucesso”, recorda-se, observando que até então a veia empreendedora de sua família, dona da centenária Paramount Têxteis, não tinha se manifestado.
A segunda oportunidade empresarial foi o embrião da Tivit. Era o ano de 1999, quando o boom da internet levou Mattar a fundar, junto com dois sócios, a Telefutura, voltada para o suporte de sites, chats, e-mail e call center. “Nascemos do zero, carregamos os móveis e computadores”, conta ele. Em pouco tempo, sentia-se tão realizado como empresário quanto fora como atleta profissional. “É muito bom olhar para trás e ver o crescimento da empresa, depois de tanto envolvimento pessoal.” A rápida expansão do negócio foi facilitada pela entrada de novos sócios — o grupo Votorantim e o banco Pátria. Em 2007, a fusão com outra empresa do mesmo grupo daria as feições atuais aos negócios da Tivit, com faturamento acima de R$ 1 bilhão em 2009.
O adiamento dos planos de abertura de capital, em 2007, por causa da crise mundial, irritou, mas não abateu Mattar, que contabilizou o contratempo como um novo desafio a ser vencido. O presidente voltou-se para a expansão orgânica, “mais barata e segura”, e hoje avalia como positivos aqueles “dois anos de amadurecimento”. “Ficamos mais seletivos e mudamos o perfil do nosso crescimento.” Também em sua trajetória pessoal, Mattar teve a experiência de amadurecer antes para depois alçar voos com mais segurança, já que a carreira profissional de tênis foi iniciada aos 21 anos apenas, quando ele decidiu abandonar o quinto ano de engenharia civil na universidade Mackenzie. “Meu pai quase caiu da cadeira, mas depois me apoiou e virou o meu maior fã.”
Muitos dos seus admiradores no esporte lhe perguntam como seria sua carreira se ele a tivesse iniciado antes, já que os tenistas se desenvolvem principalmente dos 17 aos 21 anos. “Humildemente, acho que eu seria um jogador melhor, mas o fato é que eu não estava maduro para jogar aos 17 anos”, afirma Mattar, que na época preferiu o vestibular, apesar de estar entre os cinco melhores tenistas juvenis do País. “Eu nem acreditava ter muita escolha. Há 25 anos, a importância do esporte no contexto da sociedade era outra.”

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Hoje, a importância do esporte é clara para o executivo, que tem como “missão número um” transmiti-la aos três filhos meninos, com idades entre 6 e 11 anos: “Pretendo ensinar-lhes todos os esportes que sei. Mas não vou recomendar que sejam profissionais. Prefiro que tenham o esporte como modelo de disciplina e perseverança.” É a esse modelo que ele atribui suas conquistas, seja no papel do popular Nico ou como Luiz, o executivo que adora desafios. “Mas gosto de resolver problema novo”, ressalta. “Problema antigo, que se arrasta, me incomoda.” É na hora de cobrar pendências que Mattar revela um “pequeno defeito”: a impaciência. Nada muito explosivo, dizem os amigos, se ele já tiver feito seus esportes matinais. “Se eu passar dois dias sem praticar esportes, o pessoal me expulsa, me diz para suar um pouquinho e voltar depois”, admite.
| 3x4Rotina de esportes – Quando criança, jogava handebol, futebol, tênis, vôlei e nadava. Hoje, tem uma agenda diária que intercala ginástica, corrida, futebol e tênis. Programa preferido – Uma vez por ano pratica o “heliskiing” no Canadá, esporte que consiste em esquiar montanhas não descidas por ninguém na temporada. Para alcançá-las, os praticantes são levados de helicóptero aos pontos mais altos. “É preciso guia, porque pode haver fendas ou avalanches. É um pouquinho radical, mas muito divertido. Já estou treinando meus filhos para serem meus companheiros.” Rotina no trabalho – Alterou-se depois da abertura de capital. Antes, reservava a maior parte de seu tempo para clientes e para as equipes internas. Agora, 40% são gastos com analistas, investidores e mídias, 40% com clientes e o restante para as equipes. “Como somos novatos no mercado, precisamos nos mostrar mais.” Rotina em casa – “Consigo equilibrar trabalho com a família. Sou casado há 20 anos e acompanho muito os meus filhos, tomo café com eles e levo-os ao treino de futebol aos sábados.” Como se informa – Lê jornais, revistas e internet fazendo anotações em um papel e depois organiza tudo no computador. “Tento me atualizar, mas meus filtros são as pessoas perto de mim.” TV – “Vejo para dormir.” Leitura de cabeceira – Lê biografias, fazendo comparações com as situações que está vivendo ou pode viver. Na época da faculdade, “Para ler e pensar”, de Hermann Hess, o marcou muito. O que o tira do sério – Pendências. “Lido muito bem com problemas e muito mal com pendências.” Para relaxar – Esportes. Para pensar – Um longo banho de chuveiro ou corrida. “Corro com um telefone para gravar as ideias que me ocorrem.” Conselho para quem está começando – Ter energia, vontade de aprender e de crescer. Dez anos atrás – Estava começando as operações da Telefutura, que se fundiria à Tivit. Daqui a dez anos – Pretende ver a Tivit se tornar uma multinacional de serviços de tecnologia (a empresa exporta para 14 países, mas só 1% do faturamento vem desses serviços). Outras carreiras que gostaria de ter seguido – Além de jogador (“de futebol ou basquete, porque de tênis já fui”), poderia ter sido advogado. “Tenho uma queda por advocacia, adoro meter o bedelho na parte jurídica.” Uma inspiração – O pai, o empresário Fuad Mattar, que, aos 85 anos, trabalha todos os dias e joga tênis três vezes por semana. “Ele me ajudou no raciocínio e me influenciou em minhas escolhas”. No tênis, cita o técnico Paulo Cleto, “preparador físico, psicólogo, amigo”. “Ele dormia no quarto comigo mais do que a minha mulher.” Uma admiração (no tênis) – O sueco Björn Borg e o francês Yannick Noah. Um jogo de tênis – Com os antigos amigos do ranking e com tenistas mais jovens. “Mas me machuco com frequência, porque acabo exagerando na intensidade.” Acompanha os torneios internacionais e às vezes vai a Roland Garros, em Paris. “Era o meu grand slam preferido de jogar.” O primeiro desafio – Disciplina e autocontrole, no tênis. “Muitos tenistas juvenis talentosos jogam bem cinco games e depois desmoronam, porque não aguentam a pressão.” O último desafio – A interação com o mercado, na Tivit. “Neste começo, tive duas surpresas: a capacidade dos investidores de absorver conhecimento do negócio em si, com grande profundidade, e o quanto eles tentam se antecipar ao futuro da empresa. Mas estamos no caminho certo e, aos poucos, vamos provar que a Tivit é tão boa quanto outras boas empresas de capital aberto.” |
