Quite com Deus, sem reclamações

Receber aquele elogio do padre Franca “foi tudo”, diz Lamy. Era apenas o começo da consagração que ficaria marcada para sempre na memória. Como a formatura coincidia com o decreto que dera o título de Pontifícia à Universidade Católica, a festa foi transmitida pela rádio Mauá. O pai adoentado de Lamy pôde ouvir em casa não só o brilhante discurso do filho como as homenagens rendidas a ele. “Minha irmã me contou depois que foi a única vez em que viu nossa mãe chorar.”
Sexto filho depois de cinco meninas, Lamy já nascera coberto de expectativas — às quais estava disposto a corresponder. Mas não conseguiu fazer a vontade do pai comerciante que sonhava com um filho médico, diante da irrefreável vocação para a advocacia. Ainda em Campos de Goytacazes, no interior do Estado do Rio, onde morou até os 15 anos, o pequeno Alfredo arrumava subterfúgios para assistir a julgamentos e admirar as performances dos advogados. Foi em uma dessas ocasiões, em que advogado e promotor digladiavam-se diante de um caso em que o réu assassinara o vizinho, que resolveu: queria estudar direito.
O direito comercial, no qual surgiria a paixão pelas sociedades por ações, foi um acaso na carreira do precoce advogado, formado aos 21 anos e especializado na área administrativa. Diante da oportunidade de ser assistente do professor de direito comercial da PUC e sem acreditar que dominasse o suficiente a matéria, propôs aos alunos um modelo de aula alternativo, de discussão em torno de casos, como uma “conversa de porta de foro”. Sem perceber, antecipava o ensino do direito à base de “cases”, além de conquistar a admiração dos estudantes que lotavam suas apresentações. “Mas só inventei aquilo porque tinha receio de não saber dar uma aula convencional”, ressalta.
Bem verdade que Lamy não era apenas intuitivo: estudava obsessivamente sempre que um desafio se avizinhava. Foi assim que leu o primeiro livro de sua infância, Os Três Mosqueteiros, retirado da estante das irmãs. Ele não conseguiu entender quase nada — o livro estava escrito em francês. Voltou ao volume com um dicionário do lado e, em poucos dias, descobriria o prazer com a literatura, que o acompanhou por toda a vida. De quebra, tornou-se um autodidata no aprendizado de idiomas. Além do francês, precisou dominar o inglês, o italiano e o espanhol, por exemplo, para debruçar-se sobre os sistemas jurídicos europeu e norte-americano, na época em que elaborou a lei encomendada pelo então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen. “Nosso direito comercial vinha da Europa. Eu e Bulhões fizemos a fusão com os novos conceitos americanos.”
Os livros, espalhados hoje pela cobertura onde mora em Ipanema, acompanharam Lamy até na lua-de-mel, que coincidiu com o início da carreira acadêmica. “Quase perco a mulher”, brinca, referindo-se à mãe de seus seis filhos, com quem vive há 65 anos. Cecília, que depois da entrevista à CAPITAL ABERTO acompanhou o marido em um cafezinho com bolo, ri das tiradas de Lamy e confirma a sua história. “Ele sempre foi muito brincalhão”, conta. “Quando o conheci, as mulheres viviam atrás dele.”
A família esteve toda reunida na festa dos 90 anos do patriarca, completados em agosto e comemorados com uma missa na mesma PUC onde ele havia sido paraninfo 62 anos antes. Em vez dos pais, eram os filhos, netos e bisnetos que não escondiam o seu orgulho, proferido ao microfone em rodízio. As homenagens têm sido frequentes, apesar de estar praticamente aposentado desde que a vista começou a falhar, há cerca de um ano, impedindo-o de dar pareceres no escritório em que atua desde os tempos de professor. “Para manter seis filhos, dava aulas e advogava”, lembra. Recentemente, muitos amigos e admiradores foram também ao lançamento do livro Direito das Companhias, com dois volumes alentados com textos dele, de Bulhões, e outros encomendados a 16 advogados — incluindo o neto Marcelo Lamy Rego, único na família a seguir a paixão do avô. “O livro foi concebido por Bulhões, que depois soube que não teria mais de 90 dias de vida”, lamenta Lamy.

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O maior peso da longevidade, diz ele, é perder a companhia de amigos e parentes. Lamy cita um conto de Jorge Luiz Borges, O Imortal, no qual aqueles que bebem do rio da imortalidade assumem a aparência de trogloditas, para justificar a má vontade com os planos para o seu centenário. “É a mortalidade, e não a imortalidade, que dá prazer ao homem. Outro dia escrevi para o meu filho: eu dou quitação a Deus. Não tenho reclamações.”
| 3x4Uma saudade– O advogado José Luiz Bulhões Pedreira, com quem cultivou o hábito de almoçar todas as terças-feiras, durante 30 anos. “Sinto muita falta dele. Era uma das pessoas mais inteligentes que conhecia. Conversávamos sobre a vida, sobre a existência, tínhamos liberdade para divergir e até brigar.” Como se informa – Com os problemas de visão, tem lido apenas os títulos das matérias nos jornais que assina: O Globo, Jornal do Brasil e Valor Econômico. “Tento acompanhar o noticiário e tenho umas açõezinhas. O mercado melhorou muito, as minorias foram atendidas. O perigo agora está na chantagem que essas minorias podem fazer, mas não há como impedir isso.” Rotina – Acorda cedo (“Minha mulher fica danada se não for dormir na mesma hora que ela”), faz ginástica, olha os jornais e vê televisão. “Com a dificuldade com a leitura, ando descobrindo programas interessantes na TV, mas a verdade é que tem muita bobagem.” Às vezes almoça no Jockey Club com amigos e viaja para a casa de Teresópolis, no fim de semana. “A família não frequenta mais a casa como antes, mas tenho que cuidar dela, mandei até pintar.” Atividade física – Faz esteira, bicicleta e levantamento de pesos diariamente em uma academia improvisada em seu apartamento. Os esportes são rotina desde que nadava no rio Paraíba do Sul, em Campos de Goytacazes (RJ). “Nada como a euforia do bem-estar provocada pela ginástica, que força os músculos. Mesmo assim, encolhi, de 1,78 para 1,76 metro.” Livro de cabeceira – Quando cursava o ginasial, leu o O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, e até hoje guarda com carinho uma edição de 1943. “É um livro para loucos, traz considerações que me chocaram na época. Comecei a ter visões e passei a assumir uma postura de questionar a vida.” Relação com tecnologia – Antes de existir computador, tinha o hábito de escrever à mão e passar a limpo na máquina “para ficar bonitinho”. A Lei das S.As. foi redigida assim, mas ele não tem nostalgia. “É muito melhor poder inserir ideias no computador. Gosto da modernidade.” Se tem celular? Ele tira o dele do paletó e responde: “Você acha que alguém pode viver sem celular?” Cuidados com a saúde – Fez uma cirurgia de ponte de safena há 20 anos e parou de fumar. Dorme bem e só lamenta a dificuldade para ler, apesar da profusão de lentes de aumento e equipamentos comprados pelos filhos. “Os oculistas dizem que isso acontece com quem é viciado em leitura, que gasta os olhos.” Uma alegria – Reunir os filhos. “É um prazer e um orgulho conviver com eles, que são muito brincalhões. Todos são bem-sucedidos na vida e se afirmaram sozinhos, em campos totalmente diferentes, nos quais eu não tive a menor interferência.” Hobbies – A literatura e os banhos de piscina na casa de Teresópolis. Costumava ir à praia em Ipanema, mas parou. “Estou muito branco, e a praia anda cheia.” A motivação para a Lei das S.As. – “O objetivo era industrializar o Brasil. Deu certo, porque, 30 anos depois, há mais companhias abrindo o capital do que nunca. A grande empresa é necessária, para se ter empregados, financiar, exportar.” O que mais o encanta na lei – A fusão entre as ideias antigas e as novas, a conciliação do passado com o futuro. “Muitos países, como a França, depois adotaram os conceitos da nossa legislação.” Fazer 90 anos – “O tempo vai passando e você não sente. De repente, se apanha com 90 anos e pensa que perdeu a oportunidade de fazer coisas, porque com essa idade não se pode começar algo novo. Mas depois dá uma sensação de descanso: o que eu tinha que fazer já fiz.” Outra profissão que gostaria de ter – “A mesma, mas queria ter escrito mais, ter deixado a minha mensagem além do direito, o meu depoimento pessoal.” |
