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Operações de M&A podem sofrer com volatilidade em 2026

Amanda Meneses

O ano de 2026, após um 2025 misto com boas transações, cheques robustos, mas com números praticamente estáveis em relação ao ano anterior, deve marcar um período de maior provação para as operações de M&A (fusões e aquisições). Este ano, o segmento pode ter impulsos positivos, como a queda de juros, ainda no primeiro semestre, favorecendo as operações, mas o cenário tende a ganhar volatilidade com o passar dos meses, possivelmente, dificultando os deals.

No acumulado de nove meses de 2025, foram fechadas 1.164 operações, segundo a KPMG, uma leve queda de 2,6% no ano. Em compensação, houve deals mais complexos e maiores, os chamados “mega deals”. “A dinâmica, quando olhamos o mercado, está se reinventando. Geralmente, tem muita transação quando há um espaço bom para IPO, as empresas estão capitalizadas e o mercado de juros mais baixos. E quando entramos numa fase de cenário macro mais desafiador e menos crescimento, fica difícil financiar um deal, começa-se a olhar muito os deals de fusões de empresas, de estruturação, olhando muito a questão de redução de alavancagem financeira”, diz Paulo Guilherme Coimbra, sócio da KPMG.

Na visão do Machado Meyer, 2025, inclusive, foi um ano bastante ocupado no escritório, com muitas operações de M&A. A observação dos advogados da casa é que houve um número importante de grandes operações, as chamadas “operações relevantes”. “Claro, tiveram as operações usuais, mas também houve um número interessante de operações relevantes pelo valor, por exemplo, acima de R$ 1 bilhão. Foi um ano que começou mais aquecido do que 2024 e continuou aquecido. Pelo menos essa foi a nossa experiência no escritório”, conta Arthur Penteado, co-head do departamento de fusões e aquisições do Machado Meyer.


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Mas o ano não foi uniforme para todas as áreas e sofreu com alguma volatilidade, como a gerada pelas tarifas estadunidenses a produtos importados, que afetou o Brasil. Para a StoneX, que atua fortemente no agronegócio, a visão é de um último ano “mais travado”, em decorrência da Selic alta por período prolongado e divergência de valuation entre vendedores e compradores. “Vimos uma economia não muito pungente, apesar do PIB estar crescendo, e muita volatilidade também. Isso é ruim também para o mercado de M&A, porque, principalmente para o comprador, com a falta de previsibilidade, todo mundo espera. Na dúvida, as pessoas esperam”, pontua José Mendes, consultor de M&A da StoneX.

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Mas o ano guardou pontos positivos. Além dos grandes cheques, o interesse do estrangeiro se manteve, ainda que as transações domésticas tenham se sobressaído. Os fundos de private equity também se destacaram nas transações, apesar da dificuldade de desinvestimento. Dados da KPMG apontam que apenas os negócios envolvendo fundos de investimentos de private equity e venture capital atingiram 566 operações (48,6% do total) contra 497 (41,6%) no acumulado do mesmo período do ano anterior, um aumento de mais de 13%. Entre os setores de destaque, seguem o de tecnologia da informação; instituições financeiras; empresas de internet; alimentos, bebidas e fumo; companhias de energia; e serviços para empresas, respectivamente.

Ainda que os players de private equity estejam enfrentando mais dificuldades na ponta de saída, por outro lado, há investimentos de entrada. Coimbra, da KPMG, aponta que esses fundos têm feito investimentos de uma forma menos robusta que realizaram no pico de 4, 5 anos atrás. “Mas eles têm estado ativos, principalmente na área de tecnologia. Vimos algumas operações interessantes dos fundos mais diversificados, inclusive de fundos que não têm muita tradição de Brasil, ou que não têm histórico recente aqui, e estão voltando ao Brasil na área de tecnologia. Isso é uma boa notícia”, diz o especialista.

Em meio a essa dificuldade, conta o advogado do Machado Meyer, há algumas extensões de fundos e discussões neste sentido. Por outro lado, há uma questão de captação e dry powder ainda relevante. “O mercado está mais estressado, então é possível fazer esses deals de special situation. É um momento desfavorável para desinvestimento de private equity, mas é um momento em que também vemos esses fundos ativos, porque há valuations interessantes”, diz.

Para 2026, a perspectiva é que as oportunidades neste sentido continuem surgindo, mas com uma camada extra de volatilidade, que pode tornar o cenário mais adverso. Se por um lado a queda dos juros tende a favorecer as operações de M&A, por outro, eleições, Copa do Mundo, questões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos e até Reforma Tributária tendem a pesar. Para a StoneX, no entanto, a volatilidade não deve ser tão intensa quanto em 2025, considerando a guerra tarifária e os impactos ao agro brasileiro. 

“Acredito que vai ter uma retomada gradual, que vai ser um ano melhor que 2025, mas ainda abaixo da média histórica de transações. Porque, por outro lado, talvez seja uma oportunidade para quem está vendo uma perspectiva de melhora no longo prazo, de fazer bons negócios. Se realmente houver uma eleição pacífica, independente de quem ganhar, há uma perspectiva de melhora”, opina Mendes. 

Na leitura de Penteado, do Machado Meyer, um ponto de atenção é o movimento global, especialmente a queda dos juros nos EUA, somada à iminente queda no Brasil. Para o especialista, estas são forças propulsoras muito relevantes. “Acreditamos que, ao menos o primeiro semestre, vai ser aquecido. Ainda que tenha essas forças que podem trazer mais volatilidade para a Bolsa, que podem colocar as operações em compasso de espera”, diz. 

Para os especialistas, as operações de M&A voltadas ao special sits devem permanecer em 2026, ainda mais considerando o cenário de volatilidade. A análise, inclusive, é que casos de companhias alavancadas e em dificuldade, como os que ocorreram em 2025, se repitam este ano. “Não indo para extremos”, a visão é de um “bom potencial para alguma coisa boa”, mas o cenário fiscal ainda é pontuado como muito relevante. “Temos que melhorar a redução de gastos. Se os juros reduzirem, já tem uma redução dos índices de dívida, ajuda um pouco, mas o governo precisa ajudar”, opina Coimbra, da KPMG.